Verdades Esquecidas: O pior inimigo é quem oculta a verdade (Bem-aventurado Aloísio Stepinac, Cardeal croata)

Catolicismo, n. 113, maio de 1960, pag. 8

 

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“SE ACHAM QUE MORRO DEVAGAR, LIQUIDEM-ME FISICAMENTE”

Em uma única vez lhe foi possível aparecer, fora da terra natal e do lugar de seu exílio, revestido de sua púrpura bem merecida e gloriosa. Mas acreditamos e esperamos, do fundo de Nossa alma, que, na graça e luz do Senhor, estenderá ele de agora em diante sua proteção sobre todo o Sacro Colégio, do qual continua a ser gloria refulgente, sobre toda a Igreja, e sobre toda a Iugoslávia”. Assim se referiu o Santo Padre João XXIII a Sua Eminência o Cardeal Aloisio Stepinac [* 1898], Arcebispo de Zagreb, condenado pelos comunistas de Tito, em 1946, a dezesseis anos de prisão e falecido no dia 10 de fevereiro de 1960.

Durante cinco anos passados na prisão de Lepoglava, e oito anos de residência forçada e vigiada na aldeia de Krasic, que o vira nascer, esse Príncipe da Igreja deu ao mundo o admirável testemunho de que a púrpura romana, com a qual Pio XII o revestira em 1953, é realmente um penhor de fidelidade “usque ad sanguinis effusionem”.

“Em conseqüência do processo tornei-me um inválido”

Um documento impressionante, reproduzido pelo “Osservatore Romano” (edição em francês, de 25-III-1960), dá idéia do que foram os sofrimentos de Mons. Stepinac nesse longo período. Trata-se de uma carta que ele dirigiu, em 4 de dezembro último, ao tribunal comunista de Osijek, repelindo a intimação para depor num processo contra eclesiásticos.

Escreve o ilustre confessor da Fé: “Em consequência de minha condenação, que escandalizou o mundo inteiro, meu estado de saúde se tornou de tal modo periclitante, ao longo dos treze anos que passei preso ou confinado, que me acho à beira do tumulo. Nossos médicos seus colegas estrangeiros fizeram tudo o que era possível para prolongar minha vida, mas não me devolveram a saúde.

“Até o presente eles me extraíram 34 litros de sangue, e isso ainda não basta. Precisaram, outrossim, operar-me nas duas pernas para me salvar da morte iminente por trombose.

“Em consequência dessas operações sou praticamente um inválido que anda pela casa com uma bengala, arrastando os pés,. . . Apesar dos numerosos medicamentos, é raro o dia em que não sofro de alguma coisa.

“… Frequentemente, a doença me impede de celebrar a Missa, mesmo aos domingos.

“… Sei que se dirá: então nossos guardas não vos veem quando andais no pátio, quando ides à igreja, quando falais com as crianças, etc.?

“Sim, vou à igreja quando posso (mas muitas vezes não o posso) para cumprir meu dever ao menos dessa maneira, para dirigir ao povo palavras de ensinamento e de encorajamento, e para auxiliar o Pároco de Krasic…

“Ando pelo pátio, ou mais exatamente, arrasto-me como posso, com minha bengala,… para fazer o máximo de exercício possível. Disse aos médicos que me era impossível andar (e não andei durante um ano), não porque isso me fosse formalmente proibido, mas por causa da atitude dos guardas que me seguem por toda parte”.

Mais adiante o Cardeal reafirma que seu estado de saúde era consequência do processo que terminou por sua condenação. E proclama que seus carcereiros o vigiavam, em Krasic, “de modo a tornar-me a vida impossível”.

Os tratamentos recomendados pelos médicos só eram executados se não pareciam dificultar a guarda do prisioneiro: “Quando o Dr. Sercer pediu que me autorizassem uma temporada à beira mar (por causa de uma bronquite que durou anos), isso foi recusado”.

E o Cardeal conclui como se devesse desculpar-se de ter falado de seus próprios sofrimentos: “Se me provocastes a falar de meu tratamento inumano durante esses longos anos, não me tomeis a mal. Os romanos diziam: Sunt certi denique fines. Há certos limites”.

 

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O inquebrantável Cardeal durante sessão de seu iníquo julgamento

“Com a graça de Deus, cumprirei o dever até o fim”

O Arcebispo de Zagreb podia ter evitado ou abreviado sua “via crucis” se tivesse consentido em retirar-se da Iugoslávia. Mas ele não quis abandonar seu rebanho, quer antes de 1945, quando os comunistas lhe fizeram saber que não seria preso se se resolvesse a partir, quer mais tarde, quando lhe foi oferecida a redução da pena em troca do exílio voluntario. Em 1951 o prisioneiro declarou a alguns jornalistas autorizados a visitá-lo: “Nunca deixarei a Iugoslávia; sinto-me feliz de cumprir meu dever. Ainda sou Arcebispo de Zagreb, e só pela força abandonarei este país…”

A carta que citamos acima termina com estas palavras dignas de um São Gregório VII: “Sei qual é o meu dever. Com a graça de Deus, cumpri-lo-ei até o fim, sem o menor ódio, sem a menor vingança contra quem quer que seja, mas, ao mesmo tempo, sem temer ninguém”.

 

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“O Bispo deve ser como o leão”

Episcopus debet esse leo, fortissimus bestiarum”. O Bispo deve ser como o leão, a mais corajosa das feras, ensina São Boaventura (sup. Luc., c. 6 — apud M. Bernardes, Nova Flor., IV, XXIX). Encontramos na mesma carta ao tribunal comunista a manifestação do destemor de Mons. Stepinac, que as moléstias não lograram abater.

“Se é legal para o Partido Comunista iugoslavo — exclama ele nesse documento — perseguir a Igreja Católica, levá-La a fogo e a sangue há quinze anos, afastar dEla os homens, impedir o batismo das crianças, impedir a instrução cristã da juventude e a celebração dos casamentos religiosos; se é legal para o Partido Comunista iugoslavo destruir as instituições e escolas católicas, assim como as impressoras, os jornais católicos, … e praticar numerosos atos de repressão, — como se poderá acusar-me de crime se ergo a voz em defesa das coisas sagradas do Catolicismo?”

Depois de declarar que se recusava a comparecer perante a “justiça” comunista, para depor como testemunha de acusação no processo contra eclesiásticos, a que aludimos de início, o Cardeal lança este desafio final: “Se o organismo governamental julga que morro com excessiva lentidão, ordene ele, então, minha liquidação física, como ordenou minha liquidação jurídica há quatorze anos. São Cipriano deu 25 peças de ouro ao carrasco que devia decapitá-lo. Não tendo dinheiro algum, só posso rezar pela pessoa que eventualmente me executará, pedindo ao Senhor que lhe perdoe para a eternidade e me permita morrer em paz”.

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VERDADES ESQUECIDAS

O PIOR INIMIGO É QUEM OCULTA A VERDADE

Do testamento espiritual de Mons. Stepinac, dirigido a seus diocesanos em 28 de maio de 1957:

Homens ateus se introduziram entre vós… Eles têm feito tudo para arrancar de vossas almas o nome de Deus e — como dizem — dar-vos uma felicidade sem Deus. Mas, caríssimos fiéis, tenho o dever de vos dizer, estando na iminência de deixar esta terra, o que dizia o Profeta Isaias a respeito de toda tentativa desse gênero: O meu povo, teus dirigentes te desencaminham e devastam a via que segues (Is. 3, 12). Então não compreendestes o que proclamou o poeta inspirado? — Se o Senhor não edificar a casa, inutilmente se esforçarão os que a constroem. Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiará a sentinela (S1. 126, 1). Pretender ser feliz sem Deus, é levantar a torre de Babel, é, para os que a constroem, a confusão das línguas e a dispersão sobre a superfície da terra. Eis o que certamente ocorrerá no futuro! Todo aquele que ambiciona formar a cultura, criar a civilização, produzir o bem-estar de um povo, sem Deus, assina sua própria ruína no tempo e na eternidade! Eis porque, caros filhos, no momento de vos deixar, dirijo-vos, por minha vez, as palavras de São Paulo aos filipenses: Permanecei firmes no Senhor, meus muito amados (Filip. 4, 1).

Não é senão no Senhor que se encontra a felicidade temporal e eterna. Longe do Senhor, só há ruína,…

Os homens que desprezam a Deus só têm uma coisa em vista: afastar-vos dEle, e assim levar-vos até o último grau de aviltamento. A tentativa desses tais é maldita: ninguém se engane a respeito, pois de Deus não se zomba (Gal. 6, 7). No fim das contas, em lugar da felicidade que vos prometem, não poderão eles oferecer-vos o mínimo necessário à vida do homem. Será sempre assim, porque a palavra de Deus é infalível,…

Meus caros filhos, permanecei fiéis, custe o que custar, mesmo ao preço de vossa vida, à Igreja de Cristo, cujo Pastor Supremo é o Sucessor de Pedro. Sabeis que nossos pais, nossos antepassados derramaram, no curso dos séculos, torrentes, rios de sangue para conservar o tesouro sagrado da Fé católica e para continuarem fiéis à Igreja de Cristo. Não sereis dignos da memória de vossos pais se permitirdes que se vos tire a pedra sobre a qual Cristo construiu a sua Igreja.

…Nem a guerra, nem a paz, nem a felicidade, nem o infortúnio devem abalar nossa resolução de perseverar até a morte na fidelidade à Igreja de Cristo. Devemos repetir com os israelitas às margens dos rios de Babilônia: Se eu te esquecer, ó Jerusalém, paralise-se minha mão direita! (S1. 136, 5). Se entre vós se encontrasse um só, Sacerdote ou leigo, que, embora por um só instante, vacilasse nesse ponto, que sua casa vos seja estranha. Reputais demasiado severo, talvez, o meu juízo? Seria vosso pior inimigo se vos ocultasse a verdade. Se falo assim, é para vosso maior bem. Não vos advertiu Jesus: Vede que ninguém vos seduza (Mt. 24, 4)?

…Fidelidade, por consequência, à Igreja Católica, até o tumulo!

A vida de família seria difícil se faltasse ali a mãe. A Igreja é a grande família de Deus. O Senhor deu à sua família uma Mãe, a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.

Meus caros fiéis, nossos pais e nossos maiores constelaram nossa pátria de santuários dedicados à SS. Virgem. Sua imagem aparecia nos estandartes de nossos antepassados, quando eles iam combater pela Cruz e pela liberdade. Aos pés de seus altares vinham se ajoelhar os pecadores arrependidos,… NEla nossos pais punham sua esperança, em todas as horas difíceis de sua vida privada e da vida nacional. Continuai a tradição de vossos pais. De resto, os Pastores Supremos da Igreja vos exortam a fazê-lo,… Só o ateísmo comunista é capaz de introduzir até nos livros escolares blasfêmias contra a Mãe de Deus; blasfêmias que reprovei desde 1946, no curso do famoso processo com que se contava para riscar de nossa pátria, com uma penada, a Igreja Católica. Permita o Senhor que nunca, entre vós alguém imite esses incrédulos que insultam a Mãe de Deus! Porque esse tal experimentaria o efeito da sentença do Sábio: Maldito por Deus aquele que entristece a vida de sua mãe! (Ecl. 3, 18).

Enfim, caríssimos filhos, Deus sendo caridade, na expressão do Apóstolo, amai-vos uns aos outros! Amai-vos sempre como irmãos!… Mas amai igualmente vossos inimigos, porque Deus o ordena: Para que sejais filhos de vosso Pai do Céu; porque Ele faz erguer-se o sol sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos (Mt. 5, 45). Não extinga a maldade de vossos inimigos o amor que lhes deveis: uma coisa é o homem, e outra a sua falta. O homem, diz Santo Agostinho, é obra de Deus; o pecado é obra do homem: amai o que Deus criou, e não o que o homem fez. — (Osservatore Romano., ed. em francês, 4-III-1960)

 

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Urna com os restos mortais do Bem-aventurado Cardeal Stepinac, catedral de Zagreb (Croácia – foto Wikipedia – Di domi12345 – Opera propria, CC BY-SA 3.0)

Nota: Os negritos acima são deste site.

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