Por que os Santos ora aceitam, ora repelem as homenagens que lhes são prestadas? / Santo Agostinho elucida cabalmente a aparente contradição dos ensinamentos do próprio Filho de Deus

(*) Da “Refutação da TFP a uma investida frustra” (Edição da TFP, São Paulo, vol. II, julho de 1984, pags. 445-453, por uma Comissão de sócios da TFP com a colaboração, revisão e posfácio de Antonio Augusto Borelli Machado). Para aprofundar o assunto, consulte-se Depois do fracasso de dez estrondos publicitários, singular tentativa de “implodir” a TFP (cfr. Um homem, uma obra, uma gesta – Homenagem das TFPs a Plinio Corrêa de Oliveira, Parte I, Capítulo IV, EDIÇÕES BRASIL DE AMANHÃ, São Paulo, 1989, pags. 160 a 164).

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Os múltiplos fatos que desfilaram diante dos olhos do leitor nesta coletânea põem inevitavelmente a pergunta: o que move os santos, ora a aceitar, ora a rejeitar as calorosas manifestações de veneração e de respeito de que são cercados?

A solução dessa questão, de evidente interesse intrínseco — posto que nos revela a verdadeira fisionomia da santidade que brilha na Igreja Católica — não é sem alcance prático. Pois serve para orientar nosso comportamento pessoal em face da projeção das boas ações alheias ou próprias.

Não é de admirar que tal problema tenha ocupado, desde os primórdios da Igreja, a atenção dos grandes gênios do Cristianismo. Assim, Santo Agostinho empregou todo o vigor retórico de que era dotado para elucidar a aparente contradição dos ensinamentos do próprio Filho de Deus, que ora recomendava que ocultássemos nossas boas obras aos olhos dos homens, ora nos incitava a que as fizéssemos brilhar diante deles!…

O sermão sobre a pureza de intenção, a seguir transcrito, traz a marca do admirável Doutor da Igreja que foi Santo Agostinho, e elucida cabalmente a questão.

 

Consagração de Santo Agostinho. Quadro de Jaime Huguet (séc. XV), Museu de Arte da Catalunha, Barcelona.

Sobre a pureza de intenção

SANTO AGOSTINHO

Sermão a respeito do que se acha escrito em São Mateus: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai celeste” (V, 16). E em sentido contrário: “Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles” (Mt. VI, 1).

  1. Dois preceitos aparentemente contraditórios

Costuma, caríssimos, desconcertar a muitos que, tendo dito no Evangelho Nosso Senhor Jesus Cristo: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai celeste“, dissesse depois: “Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, com o  fim de serdes vistos por eles“. Inquieta-se, digo, o espírito de poucas luzes, e desejando realmente obedecer a um e a outro preceito, flutua entre pensamentos diversos e adversos. Porque se torna tão impossível obedecer a um senhor, se ordena coisas opostas, como a dois senhores, segundo mostrou o Senhor no mesmo sermão (Mt. VI, 24).

Que saída, pois, há para o ânimo indeciso, quando pensa, com temor, que não pode obedecer nem deixar de obedecer? Se, com efeito, mostra as suas boas obras, de modo a que os homens as vejam, em cumprimento do preceito: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e  glorifiquem a vosso Pai celeste“, se julgará culpado de ter ido contra o outro, que diz: “Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles“. E se, pelo contrário, por temor e cautela, esconde o bom, julgará não servir a quem imperativamente lhe diz: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras“.

  1. Como cumpria os dois preceitos o Apóstolo São Paulo

Mas quem o entende de modo correto, cumpre ambas as coisas no serviço do Senhor de tudo quanto existe, o qual não teria condenado o servo negligente se lhe tivesse ordenado algo de impossível.

Vede, por exemplo, São Paulo, “escravo de Jesus Cristo, chamado a ser apóstolo, escolhido para o Evangelho de Deus“, cumprir, e ensinar a cumprir, um e outro mandamento. Olhai como brilha a sua luz diante dos homens, para que vejam as suas boas obras: “Recomendamo-nos — diz ele — a nós mesmos à consciência de todos os homens diante de Deus” (II Cor. IV, 2). E em outro lugar: “Procuramos fazer o bem, não só diante de Deus, mas também diante dos homens” (II Cor. VIII, 21). E em outro lugar ainda: “Comprazei a todos em tudo, assim como eu faço tudo para comprazer a todos” (I Cor. X, 33).

Vede-o agora guardando-se de fazer a sua justiça ou boas obras diante dos homens, com o fim de ser visto por eles. “Examine — diz ele — cada qual as suas obras, e então terá glória somente em si mesmo, e não em outro” (Gal. VI, 4). E em outro lugar: “Porque a nossa glória é o testemunho da nossa consciência” (II Cor. I. 12). Mas nada tão  diáfano quanto isto: “Se ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo” (Gal. I, 10).

Não haverá, pois, agora, quem, vendo contradição entre os preceitos do mesmo Senhor, se ponha, e muito mais, contra o seu Apóstolo, dizendo: Como nos dizes tu: “Comprazei a todos em tudo, assim como eu faço tudo para comprazer a todos“, ao dizeres tu mesmo: “Se ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo“?

Venha em nossa ajuda o Senhor, que falava em seu escravo e apóstolo; revele-nos a sua divina vontade e dê-nos a possibilidade de cumpri-la.

  1. Conciliação de ambos os preceitos

Essas palavras do Evangelho, na verdade, trazem em si mesmas a explicação; contudo, não fecham a boca dos famintos, porque sempre têm elas um manjar novo para os corações dos homens que clamam (Nota do tradutor espanhol: Quer dizer o orador, segundo nos parece: além do sentido óbvio que se deduz dos mesmos textos, há outros mais ocultos e ricos para os famintos da verdade que batem às portas do Senhor).

Trata-se, pois, de ver para onde se endereça e olha a intenção do coração humano (os sublinhados em negrito são nossos). Se alguém deseja que os homens vejam suas boas obras, se propõe a própria glória e o próprio interesse, e busca isso para ser visto por eles, não cumpre em nada o ordenado pelo Senhor neste particular; porque, com certeza, se propõe fazer as suas boas obras diante dos homens, mas a sua luz não brilha diante dos homens para que, vendo as suas boas obras, glorifiquem ao Pai celeste. O que pretende sem dúvida é glorificar-se a si mesmo, não a Deus, e, buscando a sua própria vantagem, não ama a vontade divina. Desses diz o Apóstolo: “Todos buscam seus próprios interesses, e não os de Jesus Cristo” (Phil. II, 21).

A passagem não termina onde diz: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras”, pois acrescenta em seguida a intenção com que se hão de fazer: “E glorifiquem  — diz — a vosso Pai celeste“; de maneira que, ao fazer alguém o bem em presença dos homens, não se proponha interiormente outro fim senão fazer o bem; mas o fim da publicidade há de ser a glória que reverte para Deus, para proveito dos que vêm a conhecê-lo; porque para estes é vantajoso saber que Deus se compraz “com as boas obras, cujo autor é Ele mesmo” ; e assim não percam a confiança de também eles poderem agradar-Lhe, se quiserem, pela graça do Senhor.

E a outra passagem, onde diz: “Guardai-vos de fazer a vossa justiça diante dos homens“, a terminou onde diz: “com o fim de serdes vistos por eles”. Aqui não acrescenta: “e glorifiquem a vosso Pai celeste“, senão que: “De outro modo não tereis recompensa em vosso Pai celeste“; dando-nos a entender que buscam, os que fazem isto, a sua recompensa em serem vistos pelos homens, e nisso põem o seu bem, e aí se recreia a vaidade do seu coração, que os esvazia de Deus para enchê-los de vento, e os torna presunçosos e os consome. Não quer, pois, assim, o Apóstolo, a seus fiéis.

Mas por que é que não bastou dizer: “Guardai-vos de fazer a vossa justiça diante dos homens“, e pelo contrário acrescentou: “com o fim de serdes visto por eles“, se não por haver alguns que fazem as suas boas obras diante dos homens, não com o fim  de serem vistos por eles, mas para que sejam vistas as obras e glorificado o Pai celeste, que Se dignou  dar aos pecadores justificados a possibilidade de fazê-las?

  1. Conduta de São Paulo neste posto

O Apóstolo diz: “Para ganhar a Cristo e ser encontrado nEle, não tendo uma justiça própria, que vem da lei, mas aquela que vem pela fé” (Phil. III, 8-9). E em outro lugar: “Para que nos tornássemos justiça de Deus nEle” (II Cor. V, 21) em Cristo. Pelo que repreende assim os judeus: “Não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à justiça de Deus” (Rom. X, 3).

Portanto, esses, os que fazem as suas boas obras para a glória de Deus, não se arrogam a qualidade de agir bem, mas antes a atribuem a Deus, de Quem lhes vem a fé, e que lhes dá a vida. Fazer, portanto, com que os homens vejam estas boas obras, para que glorifiquem a quem lhes dá a possibilidade de fazê-las, e incentivá-los a imitar com piedosa fé o bem de que são testemunhos, é realmente fazer brilhar a luz diante dos homens; é fazer sair de si luz de caridade e não fumo de vaidade. E também é evitar o fazer a sua justiça diante dos homens com o fim de ser visto por eles; porque não atribuem a si esta justiça, nem põem como intenção do seu agir o serem vistos, mas em que seja visto por Deus, em louvor do qual redunda a justificação do homem, e faça o Senhor, no que presta louvor, o que vê naquele que é louvado; em outras palavras, que faça do que louva um homem digno de louvor.

E observai também como o Apóstolo, ao dizer: “Comprazei a todos em tudo, assim como eu faço tudo para comprazer a todos“, não para aí como se isso, ‘comprazer aos homens‘, fora a meta da sua intenção. Porque, a ser assim, se tornaria falso:  “Se agradasse ainda aos homens, não seria escravo de Cristo“; mas acrescentou incontinenti o fim que tinha em comprazer aos homens: “Não buscando — diz — o meu interesse, senão o dos demais, para que sejam salvos” (I Cor. X, 33).

Deste modo, não comprazia aos homens em benefício próprio — não teria sido servo de Cristo — mas comprazia aos homens com vistas à salvação deles, para ser um idôneo dispensador de Cristo. Porque diante de Deus bastava-lhe a sua consciência; mas diante dos homens era preciso que brilhasse a luz do bom exemplo. (Sermão LIV, Obras de San Agustín — Homílias, BAC, Madrid, 2a. ed., 1965, tomo X, pp. 59 a 64).

 

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