O importante papel da esposa católica na sociedade

Conversa durante almoço no Eremo de São Bento, 7 de junho de 1983

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

[…] Agora, seria preciso acrescentar, portanto, também uma outra coisa, que fica no terreno do que eu falei, não só na infância e adolescência, mas alguns aspectos da vida madura e alguns aspectos da vida contemporânea – cuja importância vai diminuindo – mas que ainda existem e que no passado existiam ainda muito mais. E é tudo quanto diz respeito não propriamente ao dinheiro e à carreira e o homem, mas à situação da mulher. E da família da mulher.
Quer dizer, a coisa pode calcular-se da seguinte maneira: os senhores tomem um homem, para sermos concretos, um homem que faz dinheiro, por exemplo ele abre 20 fazendas no “hinterland” [interior] brasileiro, e fica um nababo.
Mas, durante o tempo em que ele esteve fazendo essas coisas, ele se deixou absorver enormemente, ele não frequentou reuniões sociais propriamente ditas, ele foi apenas às festinhas, no máximo, de aniversário de seus parentes ou então alguns banquetes políticos que nunca primaram pela elegância nem pela influência social.
Ele esteve metido com uma caboclada e uma jagunçada de toda ordem, e tomou um pouquinho os ares de caboclo e de jagunço que não são os que preparam para uma vida social. Mas ele fez 50 anos, ficou rico e quer ser alguém. Nessa hora, ele julga que mais ou menos ele fez todo o dinheiro que podia fazer, e se pergunta não mais que dinheiro, mas que forma de vantagem ele pode tirar do dinheiro que conquistou.
E, naturalmente, uma das vantagens que o dinheiro dá, é a consideração. O sujeito ser considerado pelos outros, é uma das vantagens que o dinheiro dá.
E aí [entra] a importância do papel da senhora dele. Porque um dos aspectos – claro que não é o único -, mas um dos aspectos dessa posição que ele pode ter, é o aspecto social. Ele precisa ter uma bonita casa, precisa que essa casa seja num bairro que lhe dê relações boas, é preciso que essas relações o considerem, o convidem, convidem a mulher dele. É preciso eles frequentarem os clubes onde esse gênero de gente vai, é preciso que os filhos deles sejam amigos desse gênero de gente, é preciso, é preciso… todo um embasamento social.
Quem tem que arranjar isso para ele é a senhora dele, porque essas coisas são as senhoras que fazem. A posição econômica da mulher é feita pelo homem, a posição social do homem é feita pela mulher. Isso é uma coisa mais ou menos universal.
Agora, aí entra alguma coisa que é a continuação da juventude e da adolescência, e é a vida social. As elegâncias da vida social, as projeções, os brilhos etc. da vida social, entram dentro disso. E a mesma máquina de sucção funciona, o mesmo sistema funciona em ponto grande para essa gente, como funciona em ponto pequeno para as crianças e abarca toda a vida social.
Eu acho que já dei tantos exemplos da vida adulta misturados com os da infância e da adolescência aqui, que eu não tenho necessidade de dar novos exemplos…
[exclamações]
Eu não sei, esses brados a que correspondem. Se “sim” ou “não”?
Imaginem o caso de um homem que vai morar no rio Xingu com a senhora e os filhos, e lá faz uma dinheirama. Ele, de vez em quando, vem a São Paulo. Ou, se ele é carioca, vai para o Rio de Janeiro; se é mineiro, vai para Belo Horizonte, para onde for, ele volta para seu ponto de gravidade.
Visita seus parentes, um ou outro amigo, alguma coisa assim, faz compras e volta para o rio Xingu. E passa 20 anos no rio Xingu.
Quando ele volta para se estabelecer em São Paulo, o que é que ele tem? O que a senhora dele tem?
A senhora dele tem as amigas do tempo de colégio, tem as parentes, tem as amigas que ela tinha no tempo que eram solteiras, frequentavam a sociedade com ela e com as quais ela conserva longínquas relações. Porque no corre-corre de hoje ninguém está escrevendo para o rio Xingu à toda hora e nem uma senhora muito ocupada de São Paulo ou do Rio de Janeiro ou de Belo Horizonte tem o tempo de estar atendendo a uma prima do Rio Xingu à toda hora. Rio Xingu fica no Xingu… Ela leva a vida dela.
Ela é convidada para uma roda de amigas para tomar chá. Ela conversa de um modo que não é o modo pelo qual todo mundo conversa. Não sabe nenhum dos casos que aconteceram. Ninguém se interessa pelos casos que ela conta por que ninguém quer saber de nada do que aconteceu na família do prefeito do Xingu, não interessa à mínima! A cidadinha dela, o que aconteceu na fazenda dela etc. não interessa nada, ninguém quer saber, aquilo fica de lado, ela fica muda como um pau.
Ela desaprendeu de se vestir como as outras. Os trajes dela são antigos, são velhos, ela mandou fazer trajes que não se usam mais. Ela está, portanto, completamente fora de jogo. E, ou ela se atualiza rapidamente e mostra que tem dinheiro e começa a convidar, mas entrando nas conversas, ou há um mecanismo de eliminação, por onde ela fica posta de lado.
Esse mecanismo não é um mecanismo conspiratório necessariamente. É um mecanismo espontâneo. Os diferentes vão sendo eliminados e os que são afins vão ficando, não tem conversa.
Agora, acontece que complica as coisas o fato de que, de ano em ano, a moda vai ficando mais imoral. E a senhora que há 20 anos saiu daqui e foi lá para o Xingu, volta com conceitos morais que hoje absolutamente não existem mais. E, ou ela cede nesses conceitos morais – e ela portanto faz uma apostasia interna –  ou então se ela não cede, ela é eliminada porque ela manifesta estranheza. E ao manifestar estranheza ela é repelida.
Falam por exemplo da fulana, que ela sabia que era casada e divorciada. E ela acaba percebendo que a fulana está na quarta união com tal homem. E ela manifesta uma certa surpresa: “mas quatro homens nesse tempo?!” As outras: “Quá, quá, quá… que boba! imagine, tará-tá-tá…”
Ela percebe que a outra tem um caso com alguém. Casaram-se então? – “Mas você está completamente fora de foco, não se casa mais! Isso é uma aventura de passagem!…”
Se ela finge que acha natural, ela apostata. Se ela manifesta estranheza e diz: “Isso é contra a lei de Deus”, é a bomba atômica em cima dela!
O que se dá com um menino – lembrem-se que eu descrevi ontem na praça pública – dá-se adaptado com a senhora que veio do rio Xingu.
Vestido: ela vai com uns decotinhos, os mais audaciosos que a consciência dela permite ou tolera que ela faça. Ela chega lá, as outras estão decotadas até a cintura. “Como é que é?” Olham para ela: “Fulana, o que é isso?! precisa aumentar esse decote!”
– “Ah, meu marido não gosta…”. É outra bomba atômica.
– “Imponha ao seu marido! Então você se deixa governar por seu marido dessa maneira?! Que marido caipira é esse que não gosta de uma mulher sem-vergonha? Mulher tem que ser sem-vergonha”.
Então, como preliminar, uma senhora que queira conservar a integridade dos princípios católicos, em grande número de rodas tem uma dificuldade insuperável de entrar, ou de ficar. Isso ainda que ela não venha do rio Xingu, ainda que em São Paulo ela tenha ficado fiel, ela vai se marginalizando, quanto mais chegando do rio Xingu.
Mas, mesmo a que não se marginaliza, a que não fica fiel aos bons princípios etc. etc., mesmo essa fica sujeita a uma situação, a uma posição em que ou ela gasta muito, ou ela é muito bonita, muito engraçada, muito espirituosa, ou ela tem umas aventuras imorais famosas; ou em certas rodas ela não está valendo nada, porque o mundo hoje é feito disso.
Eu penso que os senhores sabem disso, eu penso que todos sabem disso. Sinto um silêncio meio…
Férias: Ou se vai para o litoral, ou vai para a fazenda, ou vai para a montanha. Mas não se passam férias em São Paulo. Passar férias em São Paulo é feio e é um elemento negativo.
Quer na fazenda, quer no litoral, quer na montanha são trajes de arrepiar. Uma senhora não pode resistir a uma coisa dessas. Se ela vai, ela tem que se jogar dentro da história; se ela não vai, ela fica notada como a marginal, que decai e é eliminada, está acabado. As que a conhecem pouco começam a não cumprimentá-la; as que conhecem muito cumprimentam pouco, e as que são íntimas falam de longe.
Agora, seria possível haver uma coligação de senhoras, de qualquer nível financeiro ou social, que dissessem entre si o seguinte…
Cada homem, por mais pobre que ele seja, para um outro homem mais pobre do que ele, ele é um nababo. Isso é sempre assim. E, portanto, cada homem, por menos prestígio que ele tenha, para um outro homem ele tem prestígio.
Vamos dizer que um grupo de pessoas de prestígio igual a 5, portanto bem no meio da escala, ou menos do que no meio, um chinfrim – o prestígio 5 é chinfrim -, e dissesse o seguinte: – Nós somos chinfrins para todo mundo, menos para 4, 3, 2, 1. Nós vamos fazer o nosso meio, nosso ambiente catolicamente e dentro de nosso estilo. E vamos nos ostentar assim para 4, 3, 2, 1. E vamos fazer um mundinho que esse mesmo se arranque das garras da perdição! Mundo fechado para os outros. – “Vão plantar batatas vocês. Nós somos nós, e nós fazemos assim!”
Para 4, 3, 2, 1, isso é uma coisa magnífica! E, portanto, me parece que seria uma coisa muito de fazer-se.
E de algum modo, num nível que eu considero que globalmente falando, não esse, aquele, ou aquele outro, mas globalmente falando é mais do que 5, tem a TFP que faz isso.
Ela faz isso com seus membros e tende a fazer com seus Correspondentes Esclarecedores. Quer dizer: “vejam vocês que isso não é assim!” [* vide na descrição deste vídeo texto do livro “Guerreiros da Virgem – A Réplica da Autenticidade”, de Plinio Corrêa de Oliveira, 1985]
Seria extraordinariamente bom que as pessoas que pertencessem a uma reação dessas, ou pelo menos que pertencessem a famílias e ambientes que reagem um pouco contra isso, fossem pessoas extremamente bem dotadas; senhoras extremamente bonitas, homens extremamente inteligentes e capazes de dar um certo brilho a isso.
Ora, isso acontece?
A resposta é: manda se dizer que assim como no mundo das crianças e dos adolescentes, também no mundo dos adultos isso é raro.
E as mesmas razões que eu dei ontem para explicar essa carência no mundo dos adolescentes, quer dizer, o ambiente desfavorável encolhe a pessoa, impede a personalidade de se expandir e comprime o tônus todo da pessoa, a mesma coisa vale para as pessoas grandes.
E então é necessário um esforço triplo para alcançar um resultado menor. E um resultado à vista do qual fica de pé o seguinte: para fazer carreira na vida, o melhor é apostatar. Porque essas pequenas vantagens assim podem permitir que uma pessoa conserte um pouco a sua situação, mas dar um grande voo, não dá. Carreira não tem. O mundo está fechado para quem for fiel e se quiser fazer verdadeiramente carreira, apostate.
Mas, há uma coisa que me parece ser assim  –  eu precisaria ver na teologia como é que a coisa se põe  –  mas me parece ser assim que nas épocas de castigo, a Providência permite que as pessoas muito salientes nasçam sobretudo nas condições que sirvam o pecado. E que com isso o prestígio do mundo pese do lado de lá. No duro!
Então, vamos dizer por exemplo: numa roda de meninos, um atlético muito forte, muito robusto, sempre tem seu prestígio. Mas Esaú era assim. E os Esaús são assim, e o resultado: os filhos das trevas mais vezes são assim do que os filhos da luz.
Os Esaús, as Cleópatras, as Salomés estão do lado do mal. Não sempre, nem necessariamente, mas muito frequentemente. E além do mais, o demônio tenta especialmente essas pessoas, para arrastá-las.
Os senhores sabem que a bem-aventurada Madre Beatriz da Silva, que é a fundadora da Ordem das Concepcionistas a que pertence o Convento da Luz, ela era tão, tão bonita, que para as pessoas não se embasbacarem com ela, ela usava habitualmente uma espécie de veuzinho. E quando ela estava já velha, Isabel de Castela, a rainha dela, ela era portuguesa aliás, mas mudou-se para Castela e estava sob jurisdição temporal de Isabel de Castela. Isabel de Castela foi vê-la e as rainhas tinham o privilégio de entrar no convento de clausura. A rainha entrou, quando chegou diante da Madre disse: “Madre, eu queria ver seu rosto”. Era a rainha. A santa, com toda serenidade, levantou o véu. A rainha ficou sem palavra diante da formosura dela…
Agora, notem o curioso da coisa: nasce uma pessoa assim – vamos admitir que pela economia comum da graça nasça uma pessoa assim. Essa pessoa poderia exercer um peso contra-revolucionário muito grande no mundo, mas a Providência a chama para o convento. E, mais ainda, pede a ela que esconda o rosto.
Os senhores veem a charada? Ela era – Sepulveda talvez saiba disso – da alta nobreza portuguesa e, se não me engano, meio aparentada com a família real portuguesa etc. E tinha todo o acesso, portanto, à alta nobreza do reino de Castela onde ela estava.
Ela poderia ter se casado com alguém em Portugal, ou alguém em Castela e ser o brilho da virtude no esplendor da beleza na corte de um desses dois reinos. A Providência colhe essa flor, esconde e diz: “Isso é só para Eu ver”. É uma coisa digna de atenção! Digna de atenção!
Não vale a pena vir aqui com idiotices como por exemplo:
– Mas ela não devia ter entrado no convento.
– Deus a chamou!
– Mas como é que sabe que Deus a chamou?
– Ela está beatificada, ela atendeu a vontade de Deus, do contrário não estaria beatificada. A infalibilidade da Igreja está de algum modo envolvida nisso, está acabado.
E nas épocas duras, Nossa Senhora parece que só quer sua Causa seja tirada do abismo por almas que façam renúncias totais.
O que é que teria acontecido se a bem-aventurada Madre Beatriz da Silva – João Paulo II canonizou-a – o que teria acontecido se ela tivesse nascido hoje e tivesse ficado hoje no mundo?
Vamos imaginar que ela nascesse na posição-chave do mundo de hoje, quer dizer, por exemplo, que ela fosse filha da rainha da Inglaterra, ou, posição muito mais chave, que ela fosse filha de um banqueiro nababescamente rico.
As coisas chegaram a esse ponto: um banqueiro nababescamente rico vale mais do que a filha da rainha da Inglaterra…
Os senhores sabem, por exemplo, que a casa real da Holanda exerce certas funções à testa do Estado holandês, mas ao mesmo tempo tem um número incontável de ações na Companhia Shell, de gasolina. Aos olhos de muita gente, lhes dá muito mais importância o império que ela tem na Shell do que tem na Holanda. É a nossa época, vamos olhá-la como ela é!
Imagine que nascesse assim, mas que ela fosse uma contra-revolucionária total. E que, na sua beleza etc., ela fosse, além disso, uma pessoa elegantíssima e que arranjasse, portanto, modas e modos lindíssimos de se apresentar. E que, portanto, deslumbrasse a todo mundo.
O que aconteceria com ela? A meu ver, ela acabava inteiramente marginalizada, incompreendida e “mafiada” [caluniada].
Máfia, os senhores sabem por experiência própria, desde logo e no começo. No primeiro instante já entraria máfia, no primeiro momento já entraria máfia.
Agora, entra o problema da incompreensão, como explicar. É que, uma pessoa assim não cairia no goto dos outros.
– Ah! muito bonita, muito bonita”, mas não despertava aquele interesse e aquela atração que o filho das trevas tem para o filho das trevas e o filho da luz não tem para o filho das trevas. E, por causa disso, ela seria muitíssimo menos célebre por sua beleza do que nós podemos imaginar. E suas modas, por mais bonitas que fossem, seriam ridicularizadas. Por quê? Porque não estão de acordo com a malícia da época.
Se ela fosse herdeira de uma coroa, acho que ela não conseguiria subir ao trono, tão forte é esse instrumento de sucção, esse instrumento de deformação…
Então, o maior peso que se possa imaginar é completamente inútil. Ela não teria as formas de graça, as formas de espírito, as formas de elegância de que o homem de hoje é ávido. Ela, com isso, seria tida como um objeto de museu. Como objeto de museu, ela só serviria para museu, está acabado.
Então, a gente fica diante de uma hipótese: a Providência, para castigar o mundo, não manda gente assim. Mas também diante de uma certeza: ou a Providência mandaria muita gente assim; ou, se não mandasse muita gente assim, um ou outro que mandasse era inútil, porque ficava bloqueado.
Agora, o que fazer, então?
Primeiro, é uma renúncia! É preciso compreender claramente que idéias ambíguas de que se nós vivêssemos no mundo, nós poderíamos ter isso, aquilo, aquilo outro, não adiantam nada, mas absolutamente nada! Isso é a primeira coisa.
Segunda coisa: que a nossa fidelidade supõe, portanto, perder as esperanças: isso não nos virá se quisermos ser fiéis!
Terceiro lugar: a ideia da contra-ofensiva nos moldes em que nós exercemos, para dar glória a Nossa Senhora.

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