Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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Vida Pública

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Parte X

Livros e Campanhas de grande repercussão na década de 1970

 

Capítulo XVI

Teologia da Libertação: análise do documento de Puebla em artigos da “Folha” (1979)

1. Expectativa em face do novo Papa

No meio desses vaivéns políticos, veio a notícia da morte de Paulo VI a 6 de agosto de 1978.

Ele havia anunciado que a Igreja estava sendo vítima de um misterioso "processo de autodemolição" e que nela penetrara a "fumaça de Satanás" [235].

O falecido Pontífice — ante cujos restos mortais me inclinei com a devida veneração — partia pois para a eternidade com a autodemolição em curso, e a fumaça de Satanás em expansão. O que pensaria seu sucessor sobre a autodemolição e a fumaça? [236]

Em 1974 as TFPs então existentes publicaram a declaração concernente à Ostpolitik vaticana e ao conjunto da atuação de Paulo VI face ao comunismo, tão diversa da de seu antecessor Pio XII.

Até então eu não conhecia, de fonte vaticana, um só pronunciamento sobre o comunismo próprio a compensar o que se poderia chamar pelo menos de unilateralidade dessa Ostpolitik [237].

Os Papas até João XXIII ensinaram e agiram de tal forma que todos os católicos sabiam ser impossível tal saída (de colaboração com o comunismo), pois fundamentalmente contraditória com a doutrina e a missão da Igreja [Nota do Site: Sobre a candente questão da possibilidade de colaboração entre a Igreja e os regimes comunistas o Prof. Plinio escreveu o ensaio Acordo com o regime comunista - Para a Igreja, esperança ou autodemolição? cuja leitura recomendamos vivamente a nossos visitantes] .

Era fato notório que, no decurso dos Pontificados de João XXIII e Paulo VI, esta convicção se foi apagando no espírito de muitos e muitos católicos. E que não poucos chegaram a afirmar, impunemente, a conciliação entre a Religião católica e o comunismo.

Qual seria, nesta matéria, a atuação de João Paulo II? [238].

2. Em Puebla, gravíssima advertência sobre a Teologia da Libertação

Foi aí que João Paulo II esteve em Puebla, México, em janeiro de 1979, para a 3ª Conferência do CELAM [239].

João Paulo II na sessão de abertura da CELAM em Puebla, México. Afirmou Plinio Corrêa de Oliveira que os pronunciamentos do Pontífice nem deixaram o caminho aberto para o comunismo, nem lhe cortaram o passo inteiramente

Ele se encontrou com os representantes dos Episcopados das 22 nações latino-americanas, e em meio a palavras de saudação e carinho, lhes fez gravíssima advertência: a Teologia da Libertação era um câncer instalado nas entranhas da catolicidade ibero-americana. E, como todo câncer, ia deitando gradualmente metástases [240].

João Paulo II mostrava que os propugnadores de uma Igreja meramente terrena tinham uma peculiar noção sobre Jesus Cristo, "não o verdadeiro Filho de Deus", mas um "profeta", um "anunciador do Reino e do amor de Deus", e mais precisamente um profeta e anunciador de um reino que por sua vez tinha peculiaridades: era um líder político em revolta contra a dominação romana, um "revolucionário" envolvido na "luta de classes", era, em suma, o "subversivo de Nazaré" [241].

Propagada inclusive por clérigos, ela inculcava quanto podia uma pastoral tendente a laicizar a ação da Igreja e a projetar para segundo plano o que deveria estar no primeiro, isto é, a catequese, a formação moral do povo cristão, a distribuição dos sacramentos, enfim, a salvação das almas. Em primeiro plano ficava a luta de classes desejada pelo marxismo. O Pontífice recomendava aos Bispos que tomassem medidas [242].

A grande esperança da Igreja para o século XXI era a América Latina — tudo aqui é católico, pelo menos de nome e de intenção [243]. Assim, a conferência de Puebla brilhou como uma luz nascente aos olhos de muitos.

Se ela confirmasse as esperanças que ia despertando aqui ou acolá, poderia minguar o perigo do comunismo em uma das frentes que com maior eficácia tinha este utilizado: o ambiente católico. E seria possível conter essa apresentação deformada que hoje se faz da Religião para justificar o ateísmo e o coletivismo [244].

3. Uma folha da porta é fechada, a outra permanece aberta

Estudei a alocução do Pontífice em Puebla, e expus na Folha de S. Paulo as interrogações, e também as alegrias e esperanças que a propósito experimentei [245].

Evidentemente, essa posição de João Paulo II era de grande alcance, uma vez que os meios católicos estavam largamente infiltrados por "apóstolos" da dupla tese de que a Igreja existe somente a serviço do homem e de que só Marx aprendeu e ensinou acertadamente o que é o homem, e como servi-lo.

Contudo, quem, com as noções atualizadas sobre esta matéria, lia a mensagem de João Paulo II, não podia deixar de se perguntar se nesse documento, em que era tão certa a posição antimarxista, havia também uma condenação ao regime comunista enquanto tal, abstração feita da filosofia de Marx.

Pois o mais moderno sopro do comunismo consistia em admitir que um não marxista pudesse propugnar, com fundamento filosófico não marxista, o regime sócio-econômico do comunismo. Mas era livre de procurar em qualquer sistema religioso ou ateu a fundamentação filosófica que mais lhe parecesse adequada para justificar as respectivas preferências sócio-econômicas.

Não havia na mensagem tal condenação. Ou seja, para o coletivismo marxista a mensagem fechava uma folha da porta. Para o coletivismo não estritamente marxista deixava a outra folha aberta [246].

4. Bispos do Brasil em face da mensagem de Puebla

Em última análise, o que mais importava no caso era saber qual seria, ante a mensagem, a reação quase unânime que teriam os Bispos reunidos em Puebla [247].

Neste sentido, no Brasil a alocução de João Paulo II em Puebla fora até certa época de uma ineficácia absoluta. Podem atestá-lo todos os que presenciaram consternados o apoio dado por Bispos e padres às variadas formas de agitação e contestação, de que o País foi teatro em 1979 [248], e nos anos subseqüentes, como veremos a seguir.


NOTAS

[235] — Alocuções respectivamente de 7/2/68 e de 29/6/72.

[236] Clareza, Folha de S. Paulo, 16/8/78.

[238] E João Paulo II?, Folha de S. Paulo, 28/10/78.

[239] RR 15/12/79.

[240] Raio, vaga-lume, silêncio, Folha de S. Paulo, 29/12/79.

[243] Enigmas da CNBB, Catolicismo n° 350, fevereiro de 1980.

[244] Desde que se case com José, Folha de S. Paulo, 27/1/79.

[247] A mensagem de Puebla: notas e comentários - V  (final), Folha de S. Paulo, 19/5/79.

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