Plinio Corrêa de Oliveira

 

Características da pessoa

pretensiosa (orgulhosa, vaidosa)

e a despretensiosa

 

 

 

 

 

 

Santo do Dia, 12 de março de 1969

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Sete demônios aparecem a Santa Francisca Romana (1384-1440) sob a forma de ovelhas elogiando suas virtudes, mas ela começou então a zombar deles. Estes últimos, então, transformaram-se em lobos que tentavam devorá-la (afresco no Mosteiro de Tor de'Specchi, em Roma)

Vamos agora tratar da despretensão, o que ela gera, quais são os frutos da despretensão.

Primeiramente, os da pretensão na atitude para com o próximo: o pretensioso tem má vontade para com os outros; tristeza pelo bem que lhes sucede; alegria pelo mal que acontece aos outros; indiferença completa pelos que estão fora do circuito da pretensão, quer dizer, fora de seu próprio teatrinho. Pode acontecer o que quiser, não tem importância! Está fora de seu teatro, não importa!

Uma pessoa que se pretende o que não é, e que vive para parecer o que não é, não pode ter boa vontade com os outros, porque ela quer ser continuamente a primeira e se acontece algo de bom para o outro ela fica aborrecida. É evidente. Segundo: tristeza pelo bem que sucede com o outro. É forçoso. Se o bem que sucede aos outros aproxima os outros da gente, ou seja, faz os outros poderem rivalizar conosco, a gente não pode gostar.

Imaginem, por exemplo, um homem que é muito pretensioso porque tem - vamos dizer - quinhentos mil contos, o que aliás hoje não é nenhuma fortuna grande. Mas com muito menos do que isto muita gente fica pretensiosa. Vem alguém e conta radiante para ele: “Você sabe aquele primo seu assim? Deu uma tacada e ganhou um milhão de contos!” Ele, sendo pretensioso, fica alegre ou fica triste? Ele fica aborrecido: “Que história é essa?! Meu primo então vai ficar mais rico do que eu? Onde é que se viu?!”

Suponham que um chega para outro que tem quinhentos mil contos, que é muito pretensioso e lhe diz: “Olha aqui: sabe aquele seu primo que tinha um milhão de contos? Fez um mau negócio, ficou reduzido a duzentos mil”. Ele dirá naturalmente: “Coitado... Não diga isso?”  Ele quer ser o primeiro em tudo, vê um rival cair no caminho, ele ficará aborrecido? Não pode ser, é impossível!

Imaginem um rapaz que se tenha em conta... não sei... de muito bonito. Tem um outro que também se tem em conta de muito bonito e figura na mesma roda. Chega alguém e conta: “Você não imagina o que aconteceu com aquele! Pegou uma varíola e ficou com a pele toda marcada”. Esse vai ficar triste? Dirá: “Ó, coitado!...”  No fundo: “Eu estou sozinho!” É a miséria da vida, não é? Chega para um outro, diz: “Aquele lá, você sabe, que era o leão da roda social que você freqüenta, está caolho; está com algo a la Moshe Dayan no rosto” (um tapa olho colocado). O que o sujeito dirá? “Coitado!...” pois ninguém é um monstro de dizer que ficou contente, mas no fundo... é um concorrente que ficou de lado. O pretensioso está numa perpétua concorrência com todo mundo, e quem está assim só pode estimar que os outros fiquem de lado. Não tem conversa!

De outro lado, indiferença total em relação aos que estão fora do circuito da pretensão. Quer dizer o seguinte: hoje sobretudo é a época das rodinhas e das “panelinhas” e cada um procura ser galo daquele galinheirozinho, não é? Vamos dizer que o sujeito é estudante da Faculdade de Direito e um outro é um “leão” da Faculdade Politécnica. Ele nem se importa com o outro, porque não aparece na Faculdade dele, não tem nada com sua faculdade.... Ele nem toma conhecimento, porque quer saber é daquela sua plateiazinha da Faculdade de Direito. O resto disso, que estoure uma bomba, que arrebente, que aconteça... oh! não tem nada! Porque como o centro do mundo é ele e seu mundinho acaba uns poucos metros além dele, o que for além disso não tem importância! Isto é o pretensioso.

Está claro isto, meus caros, ou alguém quer perguntar algo? Eu acho que é tão dolorosamente evidente, é até tão banal, que vale a pena apenas fazer uma lista.

O despretensioso naturalmente é benévolo, tem alegria pelo bem dos outros, tem tristeza pelo mal dos outros e tem interesse por todo mundo.

Mas qual o meio de ser despretensioso a não ser amando a Nossa Senhora?  Eu não conheço!

Os frutos da pretensão na atitude do homem para consigo mesmo: mera preocupação consigo; indiferença para com doutrinas e princípios.

Por que o pretensioso é indiferente para com doutrinas e princípios? Quem me dá a explicação disso?

(Eu não sei, mas os princípios são muito impessoais, de maneira que a pessoa não vai ligar para uma coisa que não tem relação com ela...)  

É isso. O princípio é uma coisa que não diz respeito diretamente a ela. E o pretensioso só procura envaidecer-se, não se incomoda com mais nada. Chegar para um pretensioso e lhe dizer: “Você admite o princípio de contradição?” - “Não sei! Se ficar bonito para mim, eu admito. Se não ficar, pouco me incomoda! Por que me incomoda o princípio de contradição? Que vá às favas!”

O pretensioso é tolerante para com os defeitos dos que o lisonjeiam ou bajulam. É natural. Elogia o sujeito o que ele quer... ele está sempre naquele medo de não merecer tal elogio. Vem um e elogia, ele: “Ah!...” fica todo “doce”: “Aquele é bom...”

Querem que eu explique isso melhor ou está claro? Quem quiser que eu explique, levante a mão.

Os senhores imaginem uma pessoa que tenha a pretensão por exemplo de... não sei, de ser pontual. Pontualidade é uma virtude. Luiz XVIII dizia que a polidez dos reis é a pontualidade. Mas imaginem uma pessoa que tenha a mania... que ponha nisso seu ponto de honra, mas chega sempre pontual e nunca ninguém percebe.

De repente, alguém diz: “Chegou o britânico impecável da sua pontualidade! Luiz XVIII dizia, a pontualidade é a polidez dos reis”. Ele fica... ele depois disso vai dizer: “Esse sujeito me disse aquela amabilidade, e eu não gostar dele porque ele não vai à Missa aos domingos ... Uhm! A Missa que se arranje como puder! Ele comigo foi justo! Pouca gente é justa comigo; comigo ele foi justo”... (risos) Não sei se eu explico bem esse reflexo?

O despretensioso se preocupa só com princípios. Depois é indiferente para consigo mesmo.

(Dr. Plínio, ele se preocupa só com princípios?)

Quer dizer, principalmente com os princípios. É indiferente para com o modo pelo qual os outros o veem. Ele é indiferente à adulação, não tem rivalidades.

Eu quero acabar com esse assunto da pretensão logo, de maneira que vou dar rapidamente aos senhores umas normas para aproveitarem esse quadro.  Para se aproveitá-lo bem, não deve começar aplicando a si, porque ninguém é bom juiz em causa própria. A gente deve procurar aplicar aos outros, ver esse defeito nos outros primeiro. Compreendo que lhes espante, mas é assim. Depois que a gente está bem familiarizado a ver esse defeito nos outros, volta o holofote sobre si mesmo, porque aí se conheceu bem o defeito; é a segunda fase que se condensa nessas palavras: E eu?

Alguém da geração muito nova me disse que há algumas coisas que causam pretensão. Eu não sabia disso; também não garanto que seja inteiramente objetivo, porque não é o forte da geração nova uma objetividade à toda prova, à prova de bala. Mas ouvi dizer que passa... - é uma coisa extraordinária! - passa por ser muito bonito ter problemas espirituais complexos para dar para eu resolver... Isso eu acho uma coisa do outro mundo! Mas, inteiramente impossível não é.

(Pergunta inaudível)

Quer dizer, uma pessoa que - parece que é assim - precisa ser atendida muitas vezes pelo Dr. Plinio “porque tem problemas sutis, terríveis”! Isso me lembra um pouco um tempo no século dezenove em que era moda ser tuberculoso... A coisa é um pouco parecida com isso.

O bonito é servir à Nossa Senhora com toda alma. Se para isso é preciso falar muito ou pouco comigo, dá na mesma! Isso é um meio, não tem importância nenhuma! O que é preciso é servir à Nossa Senhora! Isso é que é. O resto não é nada; o quê é o resto? Quer dizer, isso é doentio...

Eu não sei se na época dos senhores se usa essa palavra, na minha se usava: “caraminhola”. Ainda se usa isso ou não? Morreu a palavra é? Mas ela diz muito! Caraminhola é uma idéia toda encaracolada, voltada sobre si mesma e que... Os senhores sabem um certo modo de cabelo que forma cachos e que gente não consegue alisar. Uma caraminhola é uma idéia que corresponderia a este gráfico. Isto é uma caraminhola, não há fundamento nenhum nesta forma de pretensão.

Parece que uma outra coisa da qual se faz pretensão é ter muito “thau” ["Thau" é uma palavra tirada do profeta Ezechiel 9:4. O profeta a usou no contexto de descrever sua época de corrupção. Ela é usada na TFP para designar aqueles que discernem e rejeitam as abominações no mundo de hoje e estão dispostos a reagir contra elas]. É a coisa mais infundada e antiteológica que imaginar se possa! Por que razão? Porque o “thau” é totalmente gratuito. Nossa Senhora dá o “thau” à pessoa quando Ela quer e sem mérito da pessoa. A pessoa pode corresponder melhor ou pior ao “thau”. Há mais de um caso de gente com muito “thau” que não corresponde tão bem quanto outros com pouco “thau”. Há muitos casos de gente que tem muito pouco “thau” e que corresponde melhor do que outros com mais “thau”.

O que importa aqui é a correspondência. A gente se ufanar do “thau” é como se os senhores vissem que eu estou todo envaidecido porque meus pais me batizaram quando eu era pequenino...! Que eu tenha muita ufania de ser católico, está bom, mas não devo ficar vaidoso porque eu sou católico; meus pais é que me batizaram; o quê eu estava fazendo na hora em que fui batizado? Babando, chorando, estava me enrolando nos braços de uma ama qualquer; é isso que eu estava fazendo.

Eu vou me ufanar disso? Vou me orgulhar como se fosse uma coisa vinda de mim?  Não.  Vou agradecer o tesouro que Nossa Senhora pôs em mim, fazendo-me filho da Igreja Católica. Eu quero passar a eternidade agradecendo isso, isso sim! Tanto mais que eu de nenhum modo merecia. Eu fui concebido no pecado original, Nossa Senhora por bondade me conseguiu essa graça, a maior de minha vida, a maior, a maior, a maior! Não tem dúvida, mas eu me ufanar de ter “thau”...! Onde é que se viu isto?!

Não sei, meus caros, se isto está bem claro, ou se pediria uma explicação? A pessoa alegrar-se de ter “thau”, agradecer a Nossa Senhora está bem. Mas deve gostar que apareça constantemente gente com mais “thau”.

Numa noite que houve a recepção ao Cardeal Slypjy, numa rodinha que se fez na Sala da Tradição [na então sede do Conselho Nacional da TFP à Rua Pará, n. 25, em Higienópolis, n.d.c.] eu fiz uma pergunta sumamente antipática. Eu a faço aqui aos senhores.

Qual seria a reação de cada um de nós nessa sala, se eu chegasse e dissesse o seguinte:

“Eu vou lhes contar uma novidade espetacular, simplesmente extraordinária: tive conhecimento de um grupo mais numeroso do que o nosso, mais equipado do que o nosso, com incomparavelmente mais “thau” do que o nosso, e que corresponde a esse “thau” incomparavelmente melhor do que nós, a tal ponto que eu resolvi trabalhar também nesse grupo. Uma parte do meu dia - hélas! - e uma parte das noites da semana, vou consagrar a esse grupo também. Mas eu acho que eles estão tão acima de nós, que até eu não vou logo pôr os senhores em contato com eles. Daqui a alguns anos, depois que os senhores progredirem bem... talvez”.

Nós ficaríamos encantados? Nós diríamos: “Mas que esplêndida notícia! Então, Nossa Senhora afinal encontrou quem A sirva como nós quereríamos servi-La!”? Ou nós ficamos meio encafifados? Não acham interessante fazer esse exame de consciência? Eu acho esse exame de consciência muito interessante!

Ponham de lado a idéia de que eu passasse parte de meu tempo nesse grupo. Não, eu continuo a dar todo o meu tempo - não vamos personalizar isso - dou todo o meu tempo ao Grupo. Apenas digo que é um grupo incomparável e que até não vale a pena estabelecer contatos por enquanto, só daqui a alguns anos. E depois, toda noite eu chego aqui e conto uma maravilha deles: fizeram tal maravilha e tal outra etc. etc.”

Isto que reação produziria em nossa alma? Júbilo incontido ou encafifamento? Eu tenho a impressão que se pode fazer essa pergunta... Então, se produz encafifamento é porque há alguma pretensão.

Eu faço esse exame de consciência continuamente. Se aparecesse alguém e me dissesse: “De lado! Agora o chefe sou eu; eu sou o Profeta Elias”. Eu ficaria encantado ou ficaria encafifado? Se eu ficar encafifado é melhor eu deixar a chefia desde já, porque então eu não estou correspondendo à graça.

Outra coisa é - isso é mais compreensível que cause muita tentação de pretensão - exercer tarefas importantes, que exigem muito talento ou muita capacidade de ação ou muita dedicação ou que dão - ó delícia das delícias! - mando sobre muita gente. É claro que este não é o amor de Nossa Senhora; por amor à Nossa Senhora, em princípio, a gente prefere ser mandado a mandar, para imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo, que foi “obediente até à Morte e Morte de Cruz”. Esta é a formação que nós devemos ter.

Bom, meus caros, com isso está terminada a exposição.

Nota: Para aprofundar o assunto, vide, por exemplo:

* Como se vence a inveja (com áudio e texto).

* Orgulho e excitação. Calma e despretensão (idem).


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