|
Plinio Corrêa de Oliveira Projeto
de Constituição angustia o País
1987
|
|
Proposta
da TFP – Como remediar a situação inautêntica, resultante da falta de
representatividade da atual Constituinte? Um referendum? Temas consensuais
e temas contestados
1. A possibilidade de um
referendum para sanar a falta de representatividade da Constituinte
Transcorridas as eleições-sem-idéias de
15 de novembro de 1986 com a grave carência que as caracterizou (cfr.
Parte II), como resolver a complexa e espinhosa situação de
inautenticidade constitucional por elas criada?
Essa pergunta saltou aos olhos do público, logo
nos primeiros dias da divulgação dos resultados eleitorais. E isso de
tal sorte que até mesmo políticos dos mais insuspeitos face ao assunto,
como o sr. Ulysses Guimarães (que além de Presidente da Constituinte e
ao mesmo tempo Presidente nacional do PMDB, é o artífice máximo da vitória
dessa organização partidária) se puseram a falar da necessidade de um
referendum popular para a nova Constituição. O que naturalmente só se
daria uma vez elaborada esta última (cfr. Parte II, Capítulo VIII, 5)
[1].
2. A Constituinte erra de
meta: procura popularidade mas desperta espanto e susto
A perspectiva de um referendum teria podido estimular
na Constituinte o empenho em fazer obra verdadeiramente consoante aos
pendores do eleitorado. Pois, em hipótese contrária, a nova Constituição
ruiria por terra.
Estimular,
se disse, e não suscitar. Pois esse desejo inegavelmente existiu e
existe na Constituinte, fundado em anelos patrióticos, como também no
empenho de cada membro, de obter um aumento de popularidade no decurso dos
trabalhos da Magna Assembléia.
Mas quais eram os anelos reais do eleitorado sobre
os vários temas tratados nas enciclopédicas produções preparatórias
sucessivamente chamadas Projeto Cabral, Substitutivo Cabral 1
e Substitutivo Cabral 2? Tal era um dos mais delicados
problemas a desafiar desde o início a argúcia dos srs. Constituintes.
Ora, sucedeu que, infelizmente, muitos deles se
equivocaram a esse respeito. Imaginando que a opinião pública brasileira
constitui um imenso caudal a caminhar gradualmente para a extrema-esquerda,
admitiram os Constituintes que as massas lhes seriam gratas se eles
lograssem tornar mais livre de obstáculos o caminho, e mais rápido o
percurso delas rumo ao tão anelado ponto final.
Isto eles o conseguiriam pela propositura de
dispositivos constitucionais acentuadamente progressistas. O que eqüivale
a dizer esquerdistas. A corrida para a esquerda tornou-se, para muitos
parlamentares, sinônimo de corrida para uma popularidade triunfal.
Não atentaram esses parlamentares para o
significado eloqüente do insucesso do PCB e do PC do B no último pleito
(cfr. Parte II, Cap. IV, 1 a 4). E, mesmo diante de tal insucesso, não
deixaram de cortejar vistosamente esses corpúsculos políticos
fracassados. Pois continuavam obstinadamente persuadidos de que quanto
mais se colorissem de esquerdistas, tanto mais ganhavam terreno na
simpatia popular.
Esta ilusão de grande número de nossos
Constituintes, habilmente manuseada por políticos autenticamente
esquerdistas, está tendo como resultado que a Constituição – cuja
linha geral provavelmente será a dos sucessivos “Cabrais” –
vai sendo acolhida pela Nação com estranheza e até com apreensão. E,
se a ação do Plenário não for francamente corretiva do Substitutivo
Cabral 3, cuja publicação se espera de um momento para outro, o povo
acolherá a nova Constituição, não com aplausos e vivas, mas com
desconcerto e até com susto.
É que os elaboradores dos vários “Cabrais”,
como os deputados que aprovarem o Cabral 3, terão errado sua
pontaria. Dentre eles, os que não sejam ideológicos terão posto a mira
de seus esforços na esquerda, esperando alcançar assim o desejado
sucesso. Equivocaram-se. O alvo de sua pontaria publicitária deveria
estar no próprio centro.
Aliás, este equívoco não foi só deles. Não
poucos Constituintes convictamente centristas (e quiçá alguns
direitistas) não parecem ter avaliado corretamente todo o potencial político
que teriam à sua disposição caso se opusessem com firmeza à esquerdização
dissolvente que vai arruinando o País. E por isto, as tomadas de posição
de muitos centristas (e também de eventuais direitistas) foram marcadas
por certo minimalismo hesitante e concessivo, que os levou a exigir o
menos possível, do modo mais apagado possível, e com o propósito de
entrar em composição com a esquerda logo que esta lhes tivesse feito
alguma pequena concessão. Nessa linha de conduta fizeram honrosa exceção
raras figuras, algumas delas, aliás, já ilustres. Com gosto é isso
acentuado aqui.
Poucos – na esquerda e
no centro – parecem ter atentado para o fato de uma importante
dualidade existente em todos os países ibero-americanos. A população do
Brasil, como a dos demais, se divide em duas camadas. Uma, que reluz na
publicidade, e é constituída pelos setores ricos, poderosos ou então
cultos da população, é fortemente cosmopolitizada pelo contato com as
“últimas modas” indumentárias, ideológicas ou outras,
sucessivamente lançadas nos grandes centros mundiais. Esses grandes
centros atuam à maneira de vulcões que ejetam assiduamente sobre o mundo
a lava de suas “últimas modas”. E, em nossos dias, para tudo há
modas, numa porfia de extravagância e também de arrojos esquerdizantes:
desde as jóias, os trajes (talvez fosse mais exato dizer “as
nudezes”) até ... as teologias. Nesses setores, a tendência para a
esquerda constitui verdadeiramente fator de popularidade. E nos clubes
mais ricos, como nos meios de comunicação social de maior projeção,
nas Universidades mais ilustres como em tantos Seminários e Noviciados,
é certo que os vanguardeiros da caminhada para a esquerda contam com
possibilidades eleitorais importantes
[2].
Mas, abaixo dessa superfície reluzente, há um
Brasil que é e quer continuar a ser autenticamente brasileiro, em legítima
continuidade com seu passado, e cujos passos se orientam na linha dessa
continuidade, para constituir um Brasil em ascensão, fiel a si próprio,
e não o contrário daquele que ele foi e é.
Esse Brasil profundo, marcadamente majoritário,
em quem a nova Constituição vai provocando susto e rejeição, tem pouca
presença na publicidade. Em Brasília e nas grandes capitais de Estado,
ele é sempre mais ignorado. Mas é ele o Brasil real. Como tudo quanto é
humano, a esse Brasil não faltam, a par das qualidades, também defeitos.
Ele é algum tanto introvertido, isto é, voltado sobre si mesmo.
Marcam-no certa indolência e o hábito enraigado da rotina.
Mas daí vem que ele nem atente muito para o que
se passa na superfície brilhante, que aflora nos grandes centros urbanos.
Em conseqüência, o Brasil profundo deixa-os irem “tocando o barco”
de nossa Federação.
À medida, porém, que o Brasil de superfície
caminhe para a extrema-esquerda, irá se distanciando mais e mais do
Brasil de profundidade. E este último irá despertando, em cada região,
do velho letargo.
E de futuro os que atuarem na vida pública de
nosso País terão de tomar isto em consideração. E, em vez de olharem tão
preponderantemente para o Brasil cosmopolitizado que se agita, terão de
olhar para o Brasil conservador que constitui parte da população dos
grandes centros, e se patenteia mais numeroso à medida que a atenção do
observador desce das grandes cidades para as médias, das médias para as
pequenas, e destas últimas, já meio imersas no campo, para nossas populações
especificamente rurais.
Objetar-se-á talvez que esta análise já não é
inteiramente real nos dias de hoje, pois a televisão está levando o fascínio
dos grandes centros até os últimos rincões do Brasil interiorano, ainda
há pouco conservador. E assim os vai transformando.
A objeção tem algo de real. Mas esta impregnação
progressista do hinterland brasileiro constitui fenômeno menos
simples do que à primeira vista parece. Há sinais expressivos de que nas
próprias macro-urbes a televisão, à força de se exibir, vai
desgastando seu poder de sugestão e, à força de se requintar na
pornografia e na estridência de todas as extravagâncias publicitárias,
vai se tornando “carne de vaca”. O que, por sua vez, aumenta a resistência
a ela no Brasil profundo.
Caso não sejam extremamente prudentes as próximas
votações no Plenário da Constituinte, chegar-se-á assim a um desacerto
gravíssimo entre o Brasil de superfície e o Brasil profundo, o Brasil
constitucional e o Brasil real. E tal desacerto será ainda maior à
medida que a aplicação das famigeradas reformas sócio-econômicas for
metendo as garras nos patrimônios dos particulares.
Esta afirmação não tem o caráter de uma
conjectura. A Reforma Agrária vai-se tornando cada vez menos viável, à
medida que mais amplamente se aplica. E já agora se acha em estado de
impasse evidente. Nesta situação, os sucessivos “Cabrais” se
atiram alegre e despreocupadamente à obra da Reforma Urbana, e deixam
entrever, num fim de horizonte não distante, a Reforma Empresarial.
Quando as três Reformas correrem paralelas, o que
se vai passando no Brasil profundo face à Reforma Agrária, se irá,
dando, sobretudo nas camadas conservadoras dos centros urbanos, com as
demais Reformas.
Qual o resultado de tudo isto? Empilhar os fatores
de incompreensão e de indignação uns sobre os outros.
Desse modo, indigne a quem indignar, custe o que
custar, doa a quem doer, certo Brasil de superfície nos irá arrastando
para o esquerdismo radical, com a fundada alegação de estar aplicando a
nova Constituição.
O reformismo festivo parece não se incomodar com
isto. Mas cada vez mais serão raros os partícipes de sua alegre farândola,
ganhos gradualmente pelo sentimento de inconformidade e apreensão
nascido, a justo título, das camadas mais profundas da população.
Mais uma vez surge aqui a pergunta: e daí?
3. Consenso e divisão entre
os brasileiros
Nessa conjuntura, abre-se diante do observador um
caminho para chegar à normalidade constitucional, sem recurso a qualquer
forma de ilegalidade – incruenta ou cruenta.
Com efeito, na atual Constituinte, os assuntos
colocados em debate, de naturezas aliás muito diversas, podem ser
agrupados em duas categorias distintas:
1º) os que dizem respeito a temas como
os poderes públicos, sua estrutura, seus fins, o sistema de escolha dos
seus titulares, a delimitação das respectivas atribuições, e ainda
outros conexos. Assim, que o Chefe de Estado seja igualmente Chefe do
Executivo e comandante supremo das Forças de Terra, Mar e AR; que o
Legislativo Federal se componha de Câmara e Senado; que todos os Estados
sejam representados pelo mesmo número de senadores, para garantir em
favor dos pequenos Estados o princípio do respeito às minorias; que o
Poder Judiciário se distinga entre federal e estadual, e os juizes de um
e outro gozem da tríplice vantagem de vitaliciedade, inamovibilidade e
irredutibilidade de vencimentos; que cada Estado tenha o seu Legislativo;
que os Legislativos estaduais se constituam de uma só Câmara; que os
Estados se dividam em Municípios, e cada um dos quais tenha Executivo e
Legislativo próprios, também este monocameral; que os Municípios, como
os Estados, gozem de autonomia nas respectivas esferas etc. Em suma, tudo
quanto diz respeito ao Estado brasileiro como entidade política soberana.
Quanto às linhas gerais de todas essas matérias,
reina na opinião pública um amplo consenso. Tal consenso não é rompido
pelo desacordo – em alguns pontos – entre propugnadores de teses
opostas. Pois se bem que seja importante o assunto da controvérsia, os
adeptos de uma solução não se sentirão golpeados a fundo se prevalecer
a outra. É o que acontece, por exemplo, no desacordo entre
parlamentaristas e presidencialistas. Com efeito, essa diversidade de
opiniões anima com um tema nobre nossa vida política. E de nenhum modo
cria o risco de dilacerar o País em duas correntes radical e
irremediavelmente antagônicas. Bem ao contrário do que vem fazendo o
reformismo agrário-urbano-empresarial.
2º ) amplas matérias de caráter
social e econômico, como as já mencionadas Reformas, as transformações
a serem instituídas na família – a abreviação de prazos para o divórcio
e subsequente “casamento”, as medidas legislativas fiscalizadoras e
coercitivas do pátrio poder e o planejamento familiar -, a opção entre
a índole confessional e laica do ensino público, o agravamento das condições
do ensino privado, a estatização da Medicina etc. – temas esses que
interessam presentemente muito mais o eleitorado.
A matéria constante do item 1º é
congênere com a temática sobre a qual dispôs a primeira Constituição
Republicana, de 1891. E que foi sendo mantida sucessivamente nas
subsequentes Constituições que o País tem tido.
Essa temática pode fornecer, sem maiores
problemas, ampla matéria para os trabalhos da Constituinte.
Mas importa especialmente notar que, acerca de
toda, ou quase toda a matéria elencada no item 2º, a divisão
de opiniões entre os brasileiros é muitíssimo mais acentuada.
Esse quadro leva à constatação de que desde seu
surgimento como nação independente, em 1822, nunca o País esteve na
contingência de tomar, de uma só feita, resoluções sobre problemas tão
numerosos, de tão imenso alcance, e capazes de despertar tantos
entusiasmos – e tantos descontentamentos – quanto os que compõem a
matéria sócio-econômica dos sucessivos Projetos de Constituição.
Ora, das grandes transformações sócio-políticas
ou sócio-econômicas que a História de nosso País registra (a passagem
do Ancien Régime português vigente no Brasil Vice-Reino ou
Reino-Unido, para o Estado liberal e politicamente igualitário, operada
como que automaticamente pela proclamação da Independência em 1822, a
libertação dos escravos em 1888, a proclamação da República em 1889,
a Revolução que derrubou a República dos coronéis-patriarcas rurais de
1930 etc.) nenhuma houve que se igualasse com a da passagem eventual do
Brasil-República liberal – com o regime sócio-econômico vigente,
baseado em sus grandes linhas na propriedade privada, na livre iniciativa,
na economia de mercado e no sistema capitalista – para um Brasil
comunista, ou quase tanto.
Não se diga que, por enquanto, só a Reforma Agrária
é uma realidade no Brasil e que as Reformas Urbana e Empresarial
constituem por ora meros espantalhos.
Propostas de Reforma Urbana já tramitam há anos
no Congresso. As espetaculares “ocupações” de imóveis urbanos,
ocorridas em vários pontos do País, nos primeiros meses deste ano,
provam que o reformismo urbano está longe de ter perdido a sua força
inicial de impacto. E o Substitutivo Cabral 2, como se viu (cfr.
Parte IV, Cap. IV), caminha decididamente para a implantação da Reforma
Urbana.
No ano de 1985 já foi aprovado no Senado um
projeto de lei que podia ser visto como passo inicial da Reforma
Empresarial[3]
.
Por sua vez, o Substitutivo Cabral 2
parece abrir sinal verde também para uma Reforma Empresarial –
que realize, na estrutura das empresas comerciais e industriais,
transformações compulsórias análogas às que a Reforma Agrária e a
Reforma Urbana pretendem levar a efeito, respectivamente na estrutura
fundiária do campo e na das cidades (cfr. Parte IV, Cap. V).
Aliás, a TFP sempre apontou uma conexão íntima
entre essas três Reformas, de tal modo que a implantação de uma abre
caminho para a implantação das demais
[4].
4. Perspectivas para a atual
Constituinte
Em tais condições, um referendum convocado pela
atual Constituinte, que convidasse os eleitores a dizerem sim ou não, em
bloco, à nova Constituição, colocá-los-ia em uma alternativa pungente.
Com efeito, responder sim implicaria na aceitação total de uma Constituição
contendo, eventualmente, dispositivos múltiplos opostos à voz da consciência
de muitos eleitores.
Tal poderia importar, de um lado, como foi dito,
em aceitar uma Constituição conforme o pensamento democrático
representativo vigente nos cem anos de tradição republicana do País e,
em diversos pontos, aos 67 anos de tradição monárquica. Algo com que,
pois, a grande maioria dos brasileiros é propensa a concordar sem esforço.
Porém, quanto aos dispositivos de índole sócio-econômica,
e notadamente quanto às três Reformas, de antemão se pode afirmar que
um muito ponderável número de eleitores provavelmente lhes é contrário
[5].
Outra parte do eleitorado está a favor de um ou outro aspecto deles e
contra os demais aspectos. Muito poucos, ou até quase ninguém, estaria
de acordo com a implantação conjunta e integral das três Reformas.
Colocar o eleitor, por meio de um referendum sobre
a Constituição globalmente considerada, na dura contingência de
aceitar, por exemplo, as três Reformas que ele repudia globalmente, para
conseguir a aprovação das inovações de índole meramente política com
as quais esteja de acordo (o parlamentarismo, por exemplo), será exercer
contra ele uma violência psicológica, moral e política que importaria
em grave ato de despotismo.
E, ademais, no referendum, o eleitorado
dificilmente se sentirá à vontade para votar contra a Constituição.
Mas se o fizer, criará ipso facto para os Constituintes – e
portanto para o País – outra situação sem saída. Pois, o que fazer
da Assembléia Constituinte em tal caso? Mantê-la, encarregando-a da
tarefa de elaborar mais uma Constituição, que represente enfim a opinião
do eleitorado, porém não a dos srs. Constituintes? Estes últimos, cuja
considerável maioria terá mostrado dificuldade em discernir essa opinião
quando da elaboração da primeira Carta Magna, como se aviarão para,
rejeitada no referendum a nova Constituição, descobrir o que quer o
eleitorado? Quererão, saberão, conseguirão estes incumbir-se de uma
tarefa contrária a suas próprias convicções? Terão para isto a
confiança do povo?
* * *
Isto posto, que fazer então? Proceder a um
referendum global para a parte política da Constituição, e em seguida
fazer um referendum para cada inovação de vulto, sócio-política,
social ou sócio-econômica?
Seria praticável essa seqüência de referendos?
Para onde conduziria ela?
Imagine-se que o resultado desses sucessivos
referendos fosse aproveitado para introduzir outras tantas emendas na nova
Constituição. Em que colcha de retalhos se transformaria esta?
E, se as emendas fossem muitas, muitíssimas até,
não eqüivaleriam a um voto de desconfiança na Constituinte?
Que autoridade moral teria então esta para agir
como autêntica representante do eleitorado, na ordenação complexa dessa
colcha de retalhos?
5. Solução saneadora: desde
já uma Constituição sobre as matérias consensuais (organização política);
complemento sobre matérias contestadas (de natureza sócio-econômica), só
depois de adequada preparação da opinião nacional
Ao que parece, todos esses aspectos dos problemas
criados a partir da eleição-sem-idéias de 1986, e agravados pelo
curso inautêntico dos trabalhos da Constituinte, sugerem uma só solução
verdadeiramente capaz de preservar o Brasil de ter de aceitar uma
Constituição – filha desta Constituinte – que ponha eventualmente em
grave risco a sua própria tranqüilidade interna.
Não sendo viável qualquer dessas hipotéticas
soluções, resta uma outra, que consistiria em que os Constituintes
votassem desde já uma Constituição dispondo sobre a organização política
do País, segundo uma linha geral em que facilmente se pode conseguir o
consenso notório de toda a população. A parte sócio-econômica seria
deixada pela própria Constituição para outra Assembléia, a ser eleita
com poderes constituintes especiais para dispor sobre tal.
É evidente que a elaboração da parte sócio-econômica
da nova Constituição não se poderia fazer desde já, em razão da notória
carência de informações e de debates, em que se acha nosso corpo
eleitoral a respeito de tais assuntos.
Mas se num prazo de três anos – por exemplo –
nosso eleitorado lúcido e ágil receber a preparação necessária para
opinar maduramente sobre tais assuntos, encontrar-se-á ele em condições
suficientes para eleger uma Constituinte autenticamente
representativa, na qual se refletirá com fidelidade – e portanto
com autenticidade – o que ele pensa e deseja sobre matérias sociais,
econômicas, sócio-econômicas e sócio-políticas. Essas convicções do
eleitorado se exprimirão, então, através da vitória nas urnas, de
numerosos candidatos-com-idéias, apresentados por partidos-com-idéias,
e verdadeiramente representativos do sentir dele.
Para que tal preparação seja eficaz, será
indispensável um esforço publicitário informativo e formativo de alto
quilate, e ao mesmo tempo de fácil compreensão pelo eleitorado, meta na
qual se empenhem a fundo todas as forças vivas da Nação.
Obviamente, tanto a parte política quanto a parte
sócio-econômica da Constituição seriam submetidas a referendum
popular, tão logo elaboradas e promulgadas.
6. Colaboração da TFP:
encontrar uma faixa de coerência institucional e de viabilidade para a
Constituinte
A TFP está certa de que a presente proposta
suscitará ao mesmo tempo aplausos e desacordos. Mas cumpre que os
opositores de tal proposta, os quais habitualmente não escondem seu
radicalismo exacerbado, não esqueçam o princípio pelo qual eles definem
a verdadeira democracia: “o direito de discordar”. Se eles não
respeitarem tal liberdade, não haverá democracia no Brasil. Os que
esperam uma democracia de unanimidades compulsórias, sonham com uma
utopia; em outros termos, com uma forma de governo que pode ser tudo,
menos democracia.
Não será justo que se queira ver, nesta
proposta, uma investida contra a atual Assembléia Constituinte. Pelo
contrário, representa ela precisamente a colaboração da TFP para
encontrar, em favor da presente Assembléia – eleita em condições tão
desfavoráveis, e cujos trabalhos se vêm desenvolvendo de forma tão anômala
– uma faixa de viabilidade que lhe proporcione a execução de parte de
sua alta tarefa, deixando-lhe ademais a iniciativa de abrir o caminho para
que, ao cabo de algum tempo, a outra parte também seja realizada.
Se ela se restringir a legislar sobre a matéria
política terá disposto sobre aspectos essenciais da vida pública do País.
E ao mesmo tempo terá evitado, sábia e patrioticamente, de penetrar em
campos nos quais ela declararia de modo nobre não ser suficientemente
representativa do pensamento do eleitorado. O que lhe evitará de atirar o
País num dédalo de complicações, provavelmente fatais para a boa
ordem, o desenvolvimento, e quiçá a soberania dele.
7. Divórcio entre o Estado e
a Nação
Se tal não ocorrer, convém insistir em que o divórcio
entre o País legal e o País real será inevitável. Criar-se-á então
uma daquelas situações históricas dramáticas, nas quais a massa da Nação
sai de dentro do Estado, e o Estado vive (se é que para ele isto é
viver) vazio de conteúdo autenticamente nacional.
Em outros termos, quando as leis fundamentais que
modelam as estruturas e regem a vida de um Estado e de uma sociedade,
deixam de ter uma sincronia profunda e vital com os ideais, os anelos e os
modos de ser da nação, tudo caminha nesta para o imprevisto. Até para a
violência, em circunstâncias inopinadas e catastróficas, sempre possíveis
em situações de desacordo, de paixão e de confusão.
Para onde caminha assim a nação? Para o imprevisível.
Por vezes, para soluções sábias e orgânicas que seus dirigentes
souberem encontrar. Por vezes, para a improvisação, a ventura, quiçá o
caos.
Disto é exemplo a Rússia contemporânea.
8. Um exemplo de nossos dias:
a “glasnost” soviética
É o que parece estar se patenteando com a experiência
de feitio aparentemente liberalizante conduzida na Rússia por Mikhail
Gorbatchev. A imensa maioria da população russa parecia dar discretas e
abafadas mostras de um descontentamento torrencial contra a “ordem”
legal vigente. Visando presumivelmente atenuar esse descontentamento por
meio de reformas liberalizantes, Gorbatchev deu início a sua glasnost.
Entretanto, pelo menos em
ponderável medida, o povo russo parece estar opondo a tais reformas uma
resistência desconcertante.
Como explicar essa contradição entre o
descontentamento simultâneo com a “ordem” existente e com a “ordem
nova” em vias de implantação?
A explicação mais provável talvez consista em
que, à margem da insuportável “ordem” vigente na era Brejnev, o
costume foi constituindo localmente, no imenso território russo, miríades
de pequenos hábitos locais, ilegais uns, extralegais outros, mas
constituindo – todos – uma vigorosa contextura de adaptações, sem as
quais o povo não teria conseguido sobreviver. À semelhança de certos
bancos de coral que se constituem gradualmente a partir das últimas
profundidades do mar, e chegam às proximidades da superfície deste, sem
emergir ainda das águas – pelo que não os nota o navegante desatento
– assim esses costumes podem ser ignorados pelos turistas que se
aventuram a viajar na Rússia. Mas ai do governo que os queira ignorar!
Quando a importância deles atingir um discreto auge na linha do seu
desenvolvimento, tal governo está fadado ao naufrágio, como os barcos
que se atiram contra esse recifes subaquáticos.
9. Um imprevisível desfecho
para o Estado brasileiro
É de encontro a todas essas incertezas e riscos
que estará exposto a naufragar o Estado brasileiro, desde que a Nação
se constitua mansamente, jeitosamente, irremediavelmente à margem de um
edifício legal no qual o povo não reconheça qualquer identidade consigo
mesmo.
Que será então do Estado? Como um barco fendido,
ele se deixará penetrar pelas águas e se fragmentará em destroços. O
que possa acontecer com estes é imprevisível.
É para evitar à nossa Pátria esta catástrofe
por antonomásia que a TFP, em espírito de concórdia e de cooperação,
dirige este brado de apelo, e esta cordial proposta aos Senhores
Constituintes.
E para que nos desvie de tantas e tão sinistras
perspectivas, pede a TFP a decisiva e materna intercessão de Nossa
Senhora Aparecida, gloriosa Rainha do Brasil. [1] Cumpre notar de passagem que, desde 1982, o autor deste trabalho já se pronunciara a favor do referendum, em artigos publicados na “Folha de S. Paulo”. Cfr. artigo Até isto sucedeu, de 27-2-85, o qual propunha que, depois de amplos e profundos debates, fossem submetidas a plebiscito as reformas sócio-econômicas; cfr. também Constituinte sem plebiscito – inautenticidade, de 20-6-86. Anteriormente, em entrevista publicada no mesmo órgão em 3-10-82, o autor se manifestara favorável à realização de referendos populares para as leis mais importantes que o Congresso aprovasse. Nos meios políticos, esses artigos não encontraram maior eco. Mas bastou que se patenteassem os primeiros resultados eleitorais para que a perspectiva de um plebiscito começasse a ser insistentemente focalizada nos mesmos meios políticos, como no público em geral. [2] Demonstraram-no, por exemplo, os resultados das eleições municipais na cidade de São Paulo em novembro de 1985. Por efeito delas, o candidato a Prefeito Municipal, senador Fernando Henrique Cardoso, ostensivamente apoiado pelos comunistas e socialistas, como pela esquerda católica, obteve definida maioria de votos nos bairros da alta e em parte dos bairros da média burguesia. Ao mesmo tempo, o candidato concorrente Jânio Quadros, que se apresentava com certo colorido centro-direitista, venceu principalmente pelos sufrágios obtidos nos bairros pequeno-burgueses e operários. Ainda no mesmo sentido, é sintomático o fato de que nos ambientes sindicais – ao menos dentre os mais conhecidos – sejam muitas as cúpulas notoriamente esquerdistas, a maior parte delas de um esquerdismo extremado e, não raro, proclives a modalidades de comunismo cada vez mais agressivas e incendiárias. Tais cúpulas obtêm fácil publicidade em meios de comunicação social centristas. Enquanto novas lideranças, que se apresentam como menos esquerdistas, não desfrutam – globalmente consideradas – de análoga repercussão nos mass media; e se o conseguem por vezes, estão longe de marcar efetivamente sua presença no panorama político como os ultra-esquerdistas. Dessa maneira, fica deformado aos olhos do público o quadro real da opinião nacional. [3] Trata-se do projeto de lei no. 133, de 1985 – Complementar, de autoria do Senador Cid Sampaio, que visava promover a remissão dos débitos fiscais e parafiscais das empresas, de modo a dar aos trabalhadores uma participação nas empresas, correspondentes a tais débitos. Remetido à Câmara Federal, o projeto não chegou a ser aprovado e foi arquivado. [4] Cr. Plinio Corrêa de Oliveira – Carlos Patrício del Campo, Sou Católico: posso ser contra a Reforma Agrária?, Editora Vera Cruz, 1981, p. 43; Plinio Corrêa de Oliveira / Gustavo Antônio Solimeo – Luiz Sergio Solimeo, As CEBs... das quais muito se fala, pouco se conhece – A TFP as descreve como são, Editora Vera Cruz, 1982, p. 48, nota 5; Plinio Corrêa de Oliveira, Guerreiros da Virgem – A réplica da autenticidade, Editora Vera Cruz, 1985, p. 8. Essas previsões se confirmavam com importantes pronunciamentos da CNBB. Com efeito, reunida em Itaici, de 9 a 18 de fevereiro de 1982, a CNBB aprovou o documento Solo urbano e ação pastoral (Coleção Documentos da CNBB, no. 23, Edições Paulinas, São Paulo, 1982, 48 pp.) no qual reivindicava uma drástica Reforma Urbana, pondo em xeque a própria legitimidade moral do direito de propriedade, e tentava justificar as ocupações e mesmo as invasões ilegais de terras. Já anteriormente, em fevereiro de 1980, o ilustre organismo episcopal havia divulgado o documento Igreja e problemas da terra, no qual se engajava ainda mais a fundo na campanha agro-reformista. Não é difícil entrever que a CNBB preconiza ainda uma Reforma Empresarial, análoga à Reforma Agrária e à Reforma Urbana. Pois em Solo urbano e ação pastoral, os srs. Bispos que aprovaram o documento deixaram claro que não se contentarão com as reformas ali propostas. Pleiteiam eles a mudança global do sistema sócio-político-econômico vigente: “A implementação das reformas necessárias não deve induzir à ilusão de que estas sejam suficientes. Para eliminar a situação de injustiça estrutural, importa visar a novos modelos de organização da cidade, o que exige, por sua vez, mudança do modelo sócio-político-econômico vigente” (doc. cit., no. 116). O que não se pode levar a cabo sem proceder também à Reforma Empresarial. [5] Desde o início dos trabalhos da Constituinte, a Reforma Agrária serviu de verdadeiro “divisor de águas” ideológico (cfr. “Jornal do Brasil”, 25-5-87; “Visão”, 19-8-87; “Folha de S. Paulo” 30-8-87). Essa divisão de águas não surpreendeu o ex-presidente do Incra e autor do primeiro PNRA, José Gomes da Silva: “Todo mundo sabia que a discussão do direito de propriedade iria polarizar essa Constituinte” (“Jornal do Brasil”, 25-5-87). Mas o clima emocional dos debates ultrapassou suas expectativas: “Não é surpreendente a divisão – disse – mas a violência com que estão ocorrendo os debates, tanto em plenário quanto no interior do PMDB” (ibidem). O que levou o senador Fernando Henrique Cardoso, líder do PMDB no Senado, a lamentar: “Acho que um dos grandes erros da Constituinte foi permitir que a questão da reforma agrária tomasse contornos ideológicos. Ficou o seguinte: quem é a favor da reforma agrária é contra a propriedade privada” (“O Globo”, 23-8-87). Quanto mais estarão divididas as águas por efeito da aplicação próxima da Reforma Urbana, e mais ou menos remota da Reforma Empresarial. |