São Frei Galvão (IV) – Trechos de livro escrito por ele

Folha de S. Paulo, 28 de julho de 1974

Plinio Corrêa de Oliveira

A nuvem, a onça e o mancebo

Aconselhei, em meu último artigo, que não o lesse certo estilo de pessoas; e que, pelo contrário, o lessem as do outro estilo.

Entro em pormenores. Quem é afeito a duvidar e zombar de quanto é sobrenatural, sublime, ou gracioso, pare aqui a leitura. Pois, terminada esta, dirá que perdeu seu tempo. Quem, pelo contrário é firme no rationabile obsequium da Fé, e ávido das certezas que ela proporciona quem é sedento de sublime e de gracioso, encontrará, nos fatos que narrarei, alento, repouso e esperança. Quão oportuno seja isto em meio à ofensiva geral das poluições materiais e morais de nossos dias, não preciso dizê-lo.

A credibilidade dos fatos que evocarei repousa inteiramente sobre a fé humana, que merecem informantes de assinalada maturidade intelectual e relevante valor moral.

Frei Antônio de Sant’ana Galvão, o franciscano morto em São Paulo, em odor de santidade, no ano de 1822, nos deixou uma “Vida de Madre Helena Maria do Espírito Santo, mestra e fundadora do Recolhimento da Luz – da cidade de São Paulo” (cf. “O Convento da Luz em São Paulo, pelo Servo de Deus Frei Antônio de Sant’Ana Galvão”. Edição do Mosteiro da Luz, 1974). Todos  os fatos contidos no trabalho, conheceu-os o judicioso autor, ou por observação pessoal, ou por testemunhas de sua inteira confiança.

A história nos faz recuar desde logo para cerca de 250 anos atrás. Ela se inicia em Apiaí, então região longínqua do sertão paulista.

“Um homem fidedigno e bom católico, por nome Francisco de Paiva” – afirma Frei Galvão – divisou uma nuvem branca com aspecto sobrenatural, que cobria uma casa do lugar. Já era tarde da noite. E assim, no dia seguinte, foi ele indagar o que se passava. Soube então, que nascera uma filha do casal, que lhe deu o nome de Helena.

Desde a idade da razão, deu esta prova de virtudes excepcionais. Entre estas destaco o espírito de penitência, que o santo frade, justamente maravilhado, assim descreve: “Por espaço de anos inteiros usou de cilícios sobre a carne, dormia com eles sobre a terra fria, macerando seu corpo com jejuns quase não interrompidos, rasgando suas carnes com disciplinas de ferro”. Bem sei que este procedimento profundamente cristão dará a impressão de desequilibrado a quanto freudista ou semi-freudista me ler. Pelo contrário, Frei Galvão, varão prodigiosamente equilibrado, e por isto mesmo muito entendido em equilíbrio, via nisto apenas virtude. Também de virtude entendia ele como muito poucos…

A tão grandes penitências, correspondia Deus com graças especiais. Certa noite, Helena se embrenhara pelo mato, à procura de inteira solidão para melhor rezar. Apareceu-lhe aí o terror das selvas, uma onça pronta a devorá-la. A menina invocou com piedade o nome de Jesus, e a fera, que não temeria os homens mais bravos e bem armados, desabalou em apavorada corrida. A cena mereceria ser pintada por Fra Angélico, e oferece matéria à altura do talento de um Camões.

Acompanhando certa ocasião seus pais nas longas caminhadas dos paulistas de então – narra ainda Frei Galvão – Helena, “indo por um caminho em que faltava água de beber, sentiu uma grande sede, e pedindo a seu Criador lhe diminuísse a sede, pois receava não ter forças para sofrê-la, foi então que lhe apareceu um mancebo muito formoso com um púcaro de água e, bebendo ela, nunca mais teve sede em toda a sua vida”. É fácil divisar nesse mancebo um Anjo do Céu, enviado para dessedentar a piedosa menina, que na ocasião tinha presumivelmente sete anos.

Não é de admirar que, seguindo por essa senda espiritual, aos dezessete anos se apresentasse ao Recolhimento de Santa Teresa, onde se consagrou por anos inteiros, com piedade e esmero, ao ofício de servente.

Outra visão, mais graciosa ainda que as anteriores, veio significar-lhe, entretanto, que Deus tinha sobre ela mais altos desígnios.

Expo-los-ei a seguir.

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