Fevereiro de 1993

O V Centenário face ao século XXI

Cristandade autêntica ou revolução comuno-tribalista

A grande alternativa de nossa época

Comissão inter-TFPs de Estudos Hispano-americanos, Artpress, São Paulo, 1993

Prefácio

Quando em minha remota infância, ouvia falar de índios, a versão que deles me chegava era ambivalente. De um lado, eram eles mencionados como sendo uma raça digna de simpatia, pelo fato de terem sido os primeiros ocupantes do solo brasileiro. Portanto – se se quiser – seriam os nossos compatriotas mais antigos, a quem deveríamos votar um sentimento de solidariedade nacional. Desse ponto de vista, cumpria considerá-los com benevolência especial.

De outro lado, porém, ao examinar-se a vida dos indígenas em seu estado primitivo, errando por nossos campos e nossas matas, e ao se tomar em conta seus costumes, sua moral, o sistema pelo qual obtinham o que precisavam para viver – produto mais bem de sua inação do que de seu trabalho, pois que eram avessos a toda atividade metódica –, a generalidade das opiniões era rotundamente desfavorável.

Tal quadro contrastava com outro, incondicionalmente elogioso, que certas máquinas de fabricar opinião difundiam acerca do progresso moderno. Este ultimo era o grande mito dominante da época hollywoodiana que despontava em minha infância, quando o mundo ocidental – especialmente a Europa e a América do Norte – era apresentado da maneira mais favorável e otimista, como gerador de um estado de ascensão contínua, que haveria de melhorar indefinidamente a vida dos homens.

E – vaticinavam alguns – esta se aperfeiçoaria de tal maneira que, com os progressos da medicina, antes do fim do século ou enato no decurso do século XXI, surgiria um meio de restituir a "saúde" – até lá chegava esse otimismo! – aos homens que tivessem morrido.

Com efeito, o materialismo hollywoodiano entendia a morte, não como uma separação da alma e do corpo, mas como um estado arquimórbido do organismo humano que o levava a se decompor em temperaturas normais. Pensou-se então que, guardando-se em frigoríficos os corpos de que a "saúde" desertara, eles conservariam um certo estado vital. E chegaria o dia em que poderiam ser tratados pela medicina como corpos enfermos e, consequentemente, ser "ressuscitados".

Desse modo ocorreram – sobretudo nos Estados Unidos – casos de milionários ou pessoas que levavam vida fácil e agradável e que, ao morrer, deixaram legados especiais para despesas com sua eventual "ressurreição". Tais legados incluíam cláusulas específicas sobre como deveriam ser guardados seus corpos em câmaras frigoríficas, por empresas constituídas ad hoc desde os anos 60, para que estivessem em condições de serem trazidos novamente à vida.

Este exemplo extremo ilustra até que ponto chegou a euforia do progresso, e o desejo de viver indefinidamente esta vida que, hollywoodiananamente falando, em deliciosa.

Isso induzia incontáveis pessoas a se entusiasmarem com o progresso e a se esforçarem em levar adiante o sonho do crescimento científico e tecnológico indefinido.

Para tal ótica, a situação dos índios – como também das tribos primitivas da África, Ásia e Oceania que permaneciam em estado selvagem – representava o grau zero de progresso, em comparação com a situação dos homens que viviam segundo Hollywood, a qual seria, digamos, o grau mil.

Assim, durante várias décadas, falava-se de vez em quando de massacres perpetrados pelos índios, de assassinatos, de canibalismo, de como sua vida errante era perigosa, do risco que haveria em encontrar-se com eles nas selvas etc.

Sem embargo, em certo momento, o tema índios começou a sair da atenção geral, e gradualmente foi-se tratando cada vez menos dele.

Ao cabo de um intervalo em que o assunto permaneceu submergido em um mar de silêncio e de olvido, começou-se a ressurgir, mas já então sob um prisma completamente diferente. Para as mesmas correntes ideológicas que, com o objetivo de demolir a civilização cristã, interessara em certo momento promover o mito neo-pagão de Hollywood, passou a convir a demolição do mesmo mito, e da civilização com base nele edificada, a fim de dar um salto adiante no processo revolucionário, rumo à anarquia neo-tribal.

Para este novo objetivo, era preciso então apresentar as condições de vida dos índios do modo mais favorável possível.

Disso fui testemunha: começaram a surgir menções a tal autor, que asseverava ser exagerada a versão de que todos os índios fossem canibais; ou a tal outro, que sustentava nunca ter havido canibalismo entre eles, e, pelo contrário, exaltava que possuíam estas ou aquelas qualidades. Assim, elogios à arte, cultura e civilização dos índios foram se tornando cada vez mais freqüentes, e caminhando para o hiperbólico.

De fato, pode falar-se francamente de uma arte e de uma civilização indígenas, se se consideram, por exemplo, os incas e os astecas, que tiveram impérios organizados, uma verdadeira arte, e elementos culturais dignos de menção. Sobretudo é verdade que, em toda a América, depois de convertidos à verdadeira Fé, os índios manifestaram um talento que os capacitou a produzir coisas boas e até relevantes. Era neles uma capacidade natural latente, que, como fruto do batismo e da civilização, e como resultado do contacto com os eclesiásticos e com o elemento civil de Portugal e da Espanha, se transformou em qualidade patente.

Falar-se, porém, de arte indígena pré-colombiana fora dos astecas e dos incas, e de alguma outra exceção, é extremamente questionável do ponto de vista historiográfico.

Essa retomada, em tempos mais recentes, do tema indígena, culmina agora com a virtual glorificação do índio e de suas condições de vida milenar, promovida pelas esquerdas. A ECO’92 foi uma manifestação muito curiosa, muito aguda e muito sistemática dessa glorificação que, por sua vez, o movimento contrário à celebração dos 500 anos do Descobrimento da América levou até o paroxismo.

* * *

Por tudo isso, tornara-se de imperiosa necessidade opor a essa propaganda comuno-tribalista uma exposição séria e documentada do que eram os costumes dos índios pré-colombianos. Inclusive daqueles que, em comparação com os demais selvagens, podiam considerar-se civilizados, como os incas e astecas. Pois, se bem que as civilizações criadas por estes fossem, em certo sentido, um tanto desenvolvidas, em outro sentido estavam impregnadas de manifestações categóricas e extremadas de barbárie.

Tal exposição deveria, ao mesmo tempo, desfazer as calúnias que a dita corrente comuno-indigenista lança contra a colossal obra missionária e civilizadora empreendida pela Igreja Católica e pelos tronos de Portugal e da Espanha, no Novo Mundo.

Tive a alegria de ver que essa obra, que eu julgava tão necessária e tão benemérita, fora empreendida por uma comissão ad hoc de cultos e inteligentes estudiosos, cada um deles pertencente a alguma TFP ibérica ou ibero-americana, coordenados merecidamente pelo meu amigo, Alejandro Ezcurra Naón, aos quais felicito pela documentação excelente, vivacidade do texto e linguagem impecável, que desfaz esse novo mito esquerdista, precisamente quando vai levantando vôo.

Juntamente com minhas felicitações a seus autores, auguro para essa obra, tão oportuna e de tão autêntico apostolado, a mais ampla e bem sucedida difusão, para o bem da Igreja; da civilização cristã, e dos próprios índios, eles mesmos gravemente prejudicados pela propaganda malfazeja aqui denunciada.