Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Por que a verdade desperta o ódio?

 

 

A Cruz, Rio de Janeiro, 7 de maio de 1972

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Santo Agostinho, Doutor da Igreja (354-430)

Um leitor simpático me pede que explique por que a Igreja – apesar de ser a pregoeira da Verdade – tem sido tão combatida ao longo de sua história. Quer ele saber também por que são tão combatidos, em nossos dias, os católicos verdadeiros, que não pactuam com os erros do século, e se mantêm fiéis ao ensinamento imutável de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Parece-me que o leitor poderia ter ampliado ainda mais o campo de sua pergunta. As perseguições feitas contra a Igreja e os verdadeiros católicos de nossos dias são prolongamento histórico das que sofreu Nosso Senhor Jesus Cristo. Como explicar que o Homem-Deus, que é a Verdade, o Caminho e a Vida, tenha sofrido perseguição, a ponto de ser crucificado entre dois vulgares ladrões?

A essa pergunta, responde luminosamente um dos maiores Doutores de todos os tempos, o grande Santo Agostinho, bispo de Hipona. Reproduzo aqui – adaptando-o ligeiramente para mais fácil intelecção do leitor contemporâneo – o ensinamento do Doutor dos séculos IV e V.

Comentando a célebre palavra de Terêncio: "a verdade engendra o ódio", Santo Agostinho (Confissões, Livro X, Cap. XXIII) pergunta como explicar fato tão ilógico.

Com efeito, diz ele, o homem ama naturalmente a felicidade. Ora, esta é a alegria nascida da verdade. Assim é uma aberração que alguém veja um inimigo no homem que prega a verdade em nome de Deus.

Assim enunciado o problema, o Santo Doutor passa à explicação. A natureza humana é tão propensa à verdade que, quando o homem ama algo de contrário à Verdade, ele quer que este algo seja verdadeiro. Com isto, cai em erro, persuadindo-se de que é verdadeiro o que na realidade é falho.

Assim, cumpre que alguém lhe abra os olhos. Ora, como o homem não admite que se lhe mostre que se enganou, por isto mesmo não tolera que se lhe demonstre qual o erro em que está.

E o Doutor de Hipona observa: Por esta forma, certos homens odeiam a verdade, por amor daquilo que eles tomaram por verdadeiro! Da verdade eles amam a luz, não porém a censura... Eles a amam quando ela se lhes mostra, eles a odeiam quando ela se lhes faz ver o que eles são.

- Por sua deslealdade, tais homens sofrem da verdade a seguinte punição: eles não querem ser desvendados por ela, e sem embargo ela os desvenda. E contudo ela, a verdade, continua velada aos olhos deles. "É assim, é precisamente assim que é feito o coração humano. Cego e preguiçoso, indigno e desonesto, ele se oculta mas não admite que nada lhe seja ocultado. Assim lhe sucede que ele não consegue fugir dos olhos da verdade, mas a verdade foge dos olhos dele". Com estas palavras, conclui Santo Agostinho o seu magistral comentário.

Quer o meu simpático leitor um ilustração do que ensina Santo Agostinho? Vamos, para isto, a um fato contemporâneo.

Não são raros, em nosso País nem no Exterior, os que se proclamam adeptos da política de quebra das barreiras ideológicas. Segundo eles, tais barreiras não passam de um anacronismo. O pressuposto desta atitude é que a luta ideológica vai desaparecendo do cenário contemporâneo. Pois, a não ser assim, a quebra das barreiras implicaria obviamente em uma vergonhosa entrega de pontos.

Ora, segundo notícias publicadas pela imprensa diária na semana passada, vai se tornando cada vez mais fundada a impressão de que o governo marxista do Chile está transformando Santiago numa verdadeira sucursal de Cuba para difusão do comunismo no Continente. Isto posto, torna-se claro que a queda das barreiras favorece a ação de Allende e Fidel Castro. De onde decorre que tais barreiras nada têm de anacrônico. Pelo contrário, são perfeitamente necessárias.

Vá meu leitor explicar isto aos adversários das ditas barreiras, e terá, o mais das vezes, uma dolorosa surpresa: será recebido de cara amarrada e colocado desde logo na amável opção entre calar-se ou ir-se embora. Por que isto? – Evidentemente porque os fanáticos da derrubada das barreiras estão profundamente apegados a seu ponto de vista. De outro lado, por um imperativo da própria natureza, têm eles um amor – pelo menos platônico – à verdade. De onde, não querendo estar com a verdade, querem que a verdade esteja com eles. E assim se aferram, contra toda a evidência, à tese de que as barreiras devem desaparecer.

Se alguém lhes prova que, pelo contrário, essas barreiras não devem desaparecer, ficam furiosos. E começam a combater o adversário da queda das barreiras, tachando-o de intransigente, retrógrado, descaridoso, etc.

Eis, meu ingênuo leitor, por que motivo atrai a perseguição quem diz a verdade.

- E assim se explicam a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e os vinte séculos de história da Igreja.

Baixando desses grandes temas para um assunto muito pequeno da vida quotidiana, quero aqui dar uma explicação a outros leitores.

"O Estado de São Paulo" do dia 22-3-72, noticiando o desenrolar de um incidente entre o Conselho Seccional do Rio Grande do Sul da Ordem dos Advogados do Brasil, e duas universidades do mesmo Estado, afirmou que sou professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na Pontifícia Universidade de Porto Alegre. E que a esse título, tomei posição ante o referido incidente.

A leitores espantados de me verem investido em cátedras de universidades tão distantes do lugar onde resido, e metido em assunto tão alheio a meu âmbito de ação normal, devo explicar que aquela notícia carece de fundamento.

Nem sou professor das referidas universidades. Nem tomei qualquer atitude diante da questão entre elas e a OAB gaúcha.

Lapso de imprensa, sem dúvida.


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