Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

A Sagrada Eucaristia e a Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo

 

 

 

 

 

 

 

Santo do Dia, 8 de abril de 1971, Quinta-feira

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A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.


 

Os senhores devem tomar em consideração, pensando na Santa Ceia, o seguinte fato que me ocorreu uma vez: se uma pessoa assistisse à Crucifixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e visse todas as coisas se passarem como se passaram ─ uma pessoa que tivesse Fé e que soubesse que Nosso Senhor Jesus Cristo era Deus ─ feita a Crucifixão, e sabendo que depois haveria a Ressurreição e a Ascensão, esta pessoa poderia se perguntar o seguinte: posta a Ascensão, nunca mais Ele virá à terra? Então, até o fim do mundo, Ele estará ausente da terra? Isto é uma coisa arquitetônica? É uma coisa razoável? Uma vez que Ele fez pelo mundo tudo quanto ele fez, pela humanidade tudo quanto Ele fez?

Uma vez que Ele imolou a Sua vida desse modo terrível, uma vez que Ele resgatou todo o gênero humano, uma vez que Ele contraiu, quis contrair, condescendeu em contrair com os homens que Ele salvou essa relação tão especial, de Ele ser a cabeça do Corpo Místico, que é a Igreja, e estar continuamente pela graça com todos os homens, até o fim do mundo. De maneira que Ele viria a ser a alma de nossa própria alma, o princípio motor de toda a nossa vida, no que ela tem de mais nobre, de mais elevado, que é a vida sobrenatural, a vida espiritual. Uma vez que isto é assim, então nós deveríamos aceitar ser verdadeiro que Ele subisse aos Céus e que a presença real d'Ele na terra nunca mais fosse sentida e nunca mais fosse observada?

Quer dizer, tanta união de um lado, e uma tão completa, tão prolongada, tão irremediável separação do outro lado? Eu não quero dizer que a Redenção e o sacrifício da Cruz impusessem a Deus em rigor de lógica, se assim se pode falar, a instituição da Sagrada Eucaristia. Me parece que a afirmação seria excessiva. Mas pode-se dizer que tudo clamava, tudo bradava, tudo suplicava por que Nosso Senhor não se separasse assim dos homens.

E que uma pessoa com senso arquitetônico deveria entrever que Nosso Senhor arranjaria um meio de estar sempre presente, e presente sempre junto a cada um dos homens por ele remidos. De maneira tal que houvesse a Ascensão, ao mesmo tempo ele estivesse sempre no Céu, no trono de glória que Lhe é devido, mas que Ele acompanhasse, passo a passo, a via dolorosa de cada homem aqui na terra. De maneira que Ele estivesse com cada homem durante todas as dores da vida e até o momento extremo em que o homem dissesse por sua vez: "Consummatum est".

Como é que esta maravilha se faria? Uma pessoa não poderia adivinhá-lo. Mas essa pessoa deveria ficar sumamente suspeitosa de que uma maravilha assim se realizaria. De tal maneira está nas mais altas conveniências da qualidade de Redentor de Nosso Senhor Jesus Cristo, de nosso Pai, de nosso Protetor, de nosso Médico, de nosso Divino Amigo, está nEle de fazer por nós essa maravilha.

E eu creio que se eu assistisse a Crucifixão e soubesse da Ascensão, ainda que eu não soubesse da Eucaristia, eu começaria a procurar a Jesus Cristo pela terra, porque eu não conseguiria me convencer de que Ele tivesse deixado de conviver entre os homens.

Esse convívio verdadeiramente maravilhoso se faz exatamente por meio da Eucaristia. Em todos os lugares da terra, em todos os momentos, Ele está presente. Ele está presente nas catedrais opulentas, Ele está presente nas igrejinhas pobres. Quantas vezes, viajando em estrada de rodagem, encontramos umas capelinhas miseráveis, minúsculas, que dão para colher apenas uns vinte ou trinta caipiras, dispersas ao longo de descampados tremendos. Passa-se por lá e a gente se comove pensando: Nosso Senhor Jesus Cristo esteve ou está ou estará ainda realmente presente nessa capela. Presente com toda a glória do Tabor, com toda a sublimidade do Gólgota, presente com todo o esplendor da divindade, nessa minúscula capelinha. De tal maneira Ele multiplicou pela terra a Sua presença adorável.

A gente olha para as pessoas que encontra na rua, e pensa: este comunga, aquele comunga, aquele outro comunga também, digna ou indignamente, Nosso Senhor Jesus Cristo esteve naquela pessoa presente. Talvez nesta semana ainda, talvez hoje ainda, talvez vá estar presente amanhã. A gente olha e pensa: aqui está um homem no qual Nosso Senhor Jesus Cristo esteve presente ontem, estará presente amanhã, estará presente tantas e tantas vezes. Um homem que vai ser transformado, embora por minutos, num sacrário vivo. Mas muito mais do que num sacrário, porque o sacrário contém as espécies, mas o sacrário não comunga as espécies. Enquanto nós vamos comungar as sagradas espécies, que vão estar postas em nós.

Aí nós podemos medir bem a obra de misericórdia prodigiosa que foi feita por Nosso Senhor, com a instituição da Sagrada Eucaristia. Tanto quanto a presença d'Ele tem um valor infinito, tanto assim também tem valor infinito o fato de Ele estar presente realmente sob as Sagradas Espécies por toda a terra, e em todos os homens que queiram condescender de O receber.

E tanto tem valor também imaginarmos as horas e horas e horas que Ele passa abandonado nos sacrários, adorando “apenas” pelos Anjos, pelos Santos do Céu e por Nossa Senhora. Os homens ausentes e distantes. Ele à espera de que um homem queira vir recebê-Lo, com uma docilidade, com uma humildade, com uma flexibilidade que é verdadeiramente de desconsertar, quando a gente pensa que Ele é o Rei do Céu e da Terra. E é o criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Apresenta-se a nós sob a forma de um discozinho de farinha, colocado pelas mãos de homem em um cálice feito por mãos de homem, e à espera de um homem queira vir recebe-Lo. De tal maneira o Infinito se sujeita ao que é finito, Aquele que é a própria pureza e a própria perfeição, se sujeita às boas disposições e, o que é pior, às vezes às más disposições daqueles que bem mal O querem receber.

Um pouco que se pense nisso, e nossa alma não pode deixar de transbordar de reconhecimento, de enlevo, de gratidão por aquilo que Nosso Senhor operou na Sagrada Ceia. Só uma inteligência divina poderia excogitar a Sagrada Eucaristia e poderia imaginar esse meio de estar presente por toda a parte, e de entrar em todos os homens. Só mesmo um Deus podia realizar isto. 

* O papel de Nossa Senhora na instituição da Sagrada Eucaristia 

E no dia em que se instituiu esse milagre ─ em que se institui esse Sacramento, quero dizer ─ no dia em que se institui, por mais que essas verdades sejam sabidas, é imperioso, é obrigatório que nós detenhamos sobre elas a nossa atenção, e que nós, por intermédio de Nossa Senhora, demos graças enormes a Deus, pela instituição da Sagrada Eucaristia.

Só por intermédio de Nossa Senhora? Nós A devemos utilizar apenas como intermediária dessas graças? Se é verdade que todo dom vindo do Céu para os homens é um dom que foi pedido por Ela, porque sem isto o dom não teria sido dado, é verdade que Nossa Senhora pediu a instituição da Sagrada Eucaristia a Nosso Senhor Jesus Cristo. E que foi pelos rogos d'Ela que Ele a instituiu.

É verdade portanto, que nós devemos agradecer a Sagrada Eucaristia também a Ela. A Ele que condescendeu em instituir a Eucaristia, a Ela que, movida pela graça, pediu a Deus esse favor transcendentalíssimo, e obteve esse favor para nós. É este pensamento que não pode deixar de estar presente nos nossos espíritos no momento.

Há um segundo pensamento, que também deve estar presente. É o que diz respeito à Missa. A Eucaristia é, por assim dizer, um corolário da Missa. Os senhores sabem bem que a transubstanciação se opera no próprio ato em que Nosso Senhor Jesus Cristo renova a Sua Paixão. Quer dizer, a essência da Missa, que é a renovação da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, a essência da Missa se dá na transubstanciação. É o ato pelo qual o pão e o vinho se fazem Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelas palavras sacramentais pronunciadas pelo sacerdote. É este ato, que ao mesmo tempo é o oferecimento, é imolação e é também o ato determinante da presença real, que depois se conserva nas Sagradas Espécies, nos sacrários.

Nós devemos pensar no valor infinito da renovação do sacrifício da Cruz. O sacrifício da Cruz tem, de si, um valor infinito. E cada vez que ele é de novo oferecido por Nosso Senhor Jesus Cristo ao Padre Eterno, de novo se repete o sacrifício da Cruz.

Então, uma pessoa que olhasse, depois do Consummatum est, depois que as santas mulheres receberam o corpo, que Ele foi embalsamado, que Nossa Senhora chorou sobre Ele, que Ele foi levado depois até o sepulcro, depois que a Cruz ficou sozinha sobre o alto do Gólgota, e que todo mundo foi embora, um homem que ali ficasse solitário, com o espírito cheio de Fé, compreenderia que aquela Cruz era o símbolo de um ato que também tinha que se repetir, de um ato que, pela mesma lógica, convinha enormemente que se multiplicasse. E de um ato que de fato se multiplicou de um modo prodigioso por toda a terra, e até o fim do mundo.

Os teólogos dizem que o Sacrifício da Missa tem um valor de tal maneira inapreciável e infinito ao pé da letra, que se em um determinado dia o Santo Sacrifício da Missa deixasse de ser celebrado, a justiça de Deus cairia sobre o mundo e arrebentaria com todas as coisas.

De maneira que houve um pintor ─ não me lembro qual ─ que pintou um quadro muito bonito, representando a última Missa sobre a terra. Então, é no meio de um caos e de uma desordem, um padre que celebrava a Missa e que oferecia a Deus o sacrifício. Nesse momento, todos os anjos prontos para cair sobre a terra para executar a vingança de Deus no fim do mundo. Mas todos parando ainda, à espera de que a última Missa tivesse sido celebrada. Porque tal é a reverência do próprio Deus para com o sacrifício d'Ele mesmo e a Ele mesmo oferecido, que nem a necessidade de acabar com o mundo faria Deus precipitar a ­Sua vingança, antes de o seguinte estar concluído.

* O dia da instituição da Eucaristia encerrou em si dois aspectos: a alegria da festa, a tristeza da Paixão que se aproximava 

Nós devemos considerar ainda que esse foi o dia da instituição do sacerdócio. O poder de consagrar foi conferido aos apóstolos nesta ocasião. Foram três maravilhas, portanto, conexas umas com as outras, às quais se deve juntar o Lava-pés. Tudo isso junto no mesmo dia em que Nosso Senhor Jesus Cristo, por assim dizer, termina essa série de maravilhas que é a Sua Igreja.

Entretanto, o dia da Eucaristia, que deveria ser um dia de alegria, o dia da primeira Missa, que deveria ser um dia de júbilo, é um dia de júbilo misturado com tristeza. Tristeza por causa da Paixão de Nosso Senhor que se aproxima, tristeza por causa do ódio satânico e bestial que fervia em torno mesmo do salão do Cenáculo, onde Nosso Senhor Jesus Cristo estava por essa forma consumando a Sua obra. Tristeza por causa da tibieza dos apóstolos, da fraqueza deles, que eram, entretanto, os primeiros e os mais imediatos beneficiários de todas essas maravilhas. Tristeza por causa do filho da perdição, que estava sentado entre os apóstolos e que ia executar o crime nefando, o pior crime de toda História, que foi o de vender por trinta dinheiros a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus, com a pré-ciência de todas as coisas que iam acontecer, entretanto não trepidou em acumular tantas maravilhas sobre as pessoas desses pobres miseráveis, que daí a pouco iam fazer tudo quanto fizeram, e do canalha por excelência, que fez tudo quanto fez. 

* Uma misericórdia fixa da parte de Deus, que nada consegue abalar ou demover

Aí os senhores estão vendo o que é a vocação. Aí os senhores estão vendo o que é uma misericórdia fixa da parte de Deus, que nada consegue abalar ou demover. Ele tinha o intuito de fazer daqueles apóstolos os pilares de Seu reino. Ele tinha o intuito de construir o reino sobre a terra. De fato, Ele cumulou de dons esses apóstolos. Eles foram infiéis, mas esses dons não se perderam. Os apóstolos acabaram sendo fiéis e as intenções de Nosso Senhor Jesus Cristo, o plano d'Ele acabou se realizando.

Aqui nós temos uma ideia do que pode ser a misericórdia para aqueles a quem Nossa Senhora deu uma grande vocação. E temos um argumento para nós nos estimularmos no meio de nossas incontáveis fraquezas. Também sobre nós Nossa Senhora tem acumulado – conservadas as proporções – verdadeiras maravilhas. Entretanto, que desempenho nós temos dado a essa vocação?

Quantas razões hoje para nós batermos no peito. Quantas razões para nós considerarmos ─ já não digo outras coisas ─ as nossas confissões apressadas, sem o arrependimento verdadeiro, as nossas comunhões mecânicas e apressadas, sem uma piedade verdadeira. Quantas razões para pensar nas mil ocasiões em que nós estivemos abaixo de nossa vocação.

Entretanto, Nossa Senhora continua a nos proteger, continua a nos ajudar, continua a nos conceder graças de toda ordem.

Que Ela obtenha um análogo trato para nós da parte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quer dizer, que fechando os olhos às nossas fraquezas e às nossas misérias passadas e presentes, e até mesmo àquelas que de futuro nós possamos ter, que ela queira não romper conosco esse pacto de misericórdia que Ela quis entabular. Que Ela queira manter esse pacto e fazer chegar logo o dia mil vezes feliz em que Ela nos confirme na fidelidade. E em que nós possamos afinal ser para Ela razão de uma alegria estável, permanente, durável, sólida e séria, por nossa grande fidelidade.

 


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