Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Nova et Vetera
 
Ainda a propaganda dirigida

 

 

 

 

 

 

 

Legionário, 27 de outubro de 1946, N. 742, pag. 5

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Evoluem os meios materiais usados pela propaganda dirigida. Os processos, porém, continuam a ser os mesmos. Há o aspecto positivo dessa campanha de mistificação e de deformação da opinião pública. São correntes religiosas, artísticas, políticas, econômicas, culturais que por assim dizer permeiam a sociedade através de todos os recursos da publicidade moderna. E quando falamos em publicidade não nos referimos apenas ao que mercenariamente é conhecido como tal, mas à veiculação das idéias que presidem ao trabalho intelectual de todo um importante setor do mundo hodierno.

Não menos ponderável, entretanto, é o aspecto negativo desta propaganda dirigida. É a terrível campanha de silêncio a que com tanta veemência fez alusão o Santo Padre Pio XI na “Divini Redemptoris”. Uma amostra de seu modo de atuar pode ser vista nas escassas referências ao martírio dos católicos alemães no Terceiro Reich, bem como no silêncio sepulcral em torno dos reais malefícios do comunismo para apenas, quando muito, lhe criticar as manifestações epidérmicas. E quantos volumes se poderiam escrever sobre os métodos diretos e indiretos dessa verdadeira internacional publicitária?

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Em nosso último número, como ilustração viva dos processos dessa propaganda dirigida numa época em que a técnica publicitária ainda estava na fase das lâmpadas de azeite, citamos o que era a Bastilha na realidade, em contraste com a versão demagógica e revolucionária que corre mundo.

Hoje, acompanhando os mesmos “Segredo da Bastilha”, de Funck Brentano veremos o que foi o 14 de julho, tão celebrado nos fastos da “liberdade”.

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“Apresenta-se a Revolução Francesa como obra do povo, como genuína explosão popular contra a ‘tirania’ e a opressão’. Eis, entretanto, o que diz Adolfo Schmidt, contemporâneo dos acontecimentos e testemunha ocular de muitos deles em seu livro ‘Paris durante a Revolução’: ‘Todos os acontecimentos caracterizadamente revolucionários, as jornadas de 14 de julho, de 5 e 6 de outubro de 1789, etc. foram obra de uma pequena minoria de revolucionários atrevidos e violentos. A sua vitória deve-se única e exclusivamente a que a grande maioria dos cidadãos se afastou do lugar dos acontecimentos ou assistiu inerte, movida apenas pela curiosidade, aumentando, assim, aparentemente, a importância do movimento’.

“Tomemos, para comprovar esta verdade, o 14 de julho.

“A escassez do trigo no início do ano de 1789 foi simples pretexto para a propaganda dirigida nas mãos dos mentores da revolução. Eis o que diz a respeito o já citado Schmidt: ‘Tal estado de coisas era aproveitado pelos perturbadores, que pretendiam levar o povo aos maiores excessos; esses excessos, por seu lado, intimidavam o comércio. Cessaram os negócios; numerosos trabalhadores ficaram sem pão’. Eis a propaganda revolucionária intensificando e dirigindo a fome contra a ordem estabelecida...

Nasce assim, em França, aquilo a que Taine deu o nome de ‘anarquia espontânea’, mas que foi tão espontânea quanto a entrada de touros selvagens em um picadeiro pela única porta aberta do curral.

Outro fenômeno curioso é a concentração de vagabundos e desordeiros em Paris. ‘Os bandos formavam-se em volta da capital. Nas primeiras semanas de maio, perto de Villejuif, uma quadrilha de quinhentos a seiscentos vagabundos tenta forçar a Bicêtre e aproxima-se de Saint-Cloud. Vêm de trinta, quarenta, cinquenta léguas de distância; tudo isto flutua em volta de Paris, que os absorve, como se fora um esgoto. Durante os últimos dias de abril de 1789 viu-se entrar pelas barreiras ‘um número espantoso de homens malvestidos e de sinistra aparência. Desde os primeiros dias de maio que se verifica uma grande mudança no aspecto da multidão. Estrangeiros vindos de todos os países, a maior parte esfarrapados, armados de cacetes, apareciam no meio da multidão, causando medo, tal era o seu aspecto’.

Eis a matéria prima para a tomada da Bastilha. Compreende-se que os vagabundos franceses se dirigissem para Paris, embora seja estranha essa convergência para um mesmo ponto, numa época de escassos meios de comunicação, sem a existência de mentores. Mas... e os estrangeiros? Quem os teria levado para o quartel-general da revolução? Como se abusa das palavras ‘povo’ e ‘patriotismo’!

“É a essa multidão de vagabundos e de mercenários que os demagogos da Revolução, com Camilo Desmoulins à frente, faziam suas incríveis arengas, prometendo aos vencedores ‘quarenta mil palácios, castelos, paços, dois quintos dos bens da França’.

“A 11 de julho, Camilo Desmoulins anuncia à turba que a demissão de Necker pressagiava uma ‘noite de São Bartolomeu de patriotas’. As calúnias contra a Corte e o governo repetiram-se de tal forma, que a Corte, para evitar até possíveis aparências de um ‘São Bartolomeu’, ordenou o afastamento das tropas, saindo ela própria de Paris.

“Paris fica entregue à horda de bandidos e vagabundos e começam os saques e depredações. Tornava-se urgente para combater essas desordens a organização da milícia burguesa. E na noite de 13 de julho, em vários distritos, burgueses e operários, médicos, escritores, calceteiros, marceneiros cuidaram de se armar e de policiar as ruas. O sr. Charavay, eminente erudito, falando do processo verbal de Petit-Saint-Antoine, diz: ‘Os burgueses de Paris, menos assustados com os projetos da Corte do que com aqueles aos quais se dava o nome de salteadores, organizaram-se em milícia com o fim de lhes resistirem: era esta a sua única preocupação. A revolta que no dia seguinte tomou a Bastilha talvez tivesse podido ser reprimida pela guarda nacional, se a sua organização fosse mais consistente’. Não se poderia dizer melhor.

“O dia 14 de julho veio encontrar a população de Paris com suas preocupações e seus receios. Ter armas era o desejo de todos os burgueses e os amigos da ordem para se defenderem dos desordeiros, de que uma parte fora desarmada, para novamente arranjarem meios de ataque e pilhagem. Correram aos Inválidos, onde existiam os mais importantes depósitos de armas. Foi o primeiro ato violento do dia. A multidão conseguiu dali levar vinte e oito mil espingardas e vinte e quatro bocas de fogo. E como se sabia que na Bastilha existiam grandes depósitos de munições de guerra, depois de se ter gritado Aos Inválidos! gritou-se: À Bastilha!

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É necessário distinguir, esclarece Funck-Brentano, os dois elementos de que se compunha a multidão que avançou sobre a Bastilha.

De um lado, uma horda de salteadores, de outro, os cidadãos honestos - e estes eram certamente minoria - que procuravam armas para organizar a guarda burguesa. A única razão que levou estes à Bastilha foi a procura de armamentos. Neste ponto todos os documentos de valor e todos os historiadores que estudaram o acontecimento estão de acordo. Não curavam de uma questão de liberdade, ou de tirania, de soltar presos ou de protestar contra a autoridade real.

A Bastilha não foi tomada à viva força, conta-o Elie, cujo testemunho não pode ser acusado de parcial a favor dos defensores da praça; rendeu-se, antes de ser atacada, pela palavra que eu tinha dado, à fé de oficial francês, de que nenhum mal seria feito àqueles que se rendessem”.

Sabe-se como foi mantida essa palavra, apesar dos heroicos esforços de Elie e de Hulin. Conhecem-se os crimes atrozes cometidos pela horda selvagem, pela lama da populaça que invadiu o castelo. De Launey, que tinha sido todo confiança e bondade, foi morto nas mais odiosas circunstâncias. E vários de seus companheiros tiveram igual destino.

No entanto, a maior parte dos triunfadores, passada a loucura dos primeiros momentos, escondeu-se como se tivesse cometido más ações.

“E quando, mal vencida a Bastilha, se registravam os vencedores, a maior parte não se atreveu a dizer o nome; logo, porém, que se viram seguros, passaram do medo à audácia”. Estas linhas são de autoria de Saint-Just, no seu “Espírito da Revolução”, cujo testemunho não pode ser suspeito.

Vários vencedores da Bastilha foram enforcados em consequência da lei marcial proclamada naquele mesmo dia, por crime de roubo e de assalto a mão armada. E se não tivessem essa infelicidade, veriam dois dias depois a fronte gloriosa coroada de louro e de flores...

Afirmam os agentes da demagogia que a Bastilha foi tomada pelo povo do Paris. Eis o que a este respeito diz Marat: “A Bastilha, mal defendida, foi tomada por alguns soldados e uma multidão de desgraçados, a maior parte dos quais eram alemães e provincianos. Os parisienses, eternos patetas, apenas lá foram por curiosidade”.

A lista das pensões que foram concedidas aos vencedores da Bastilha, entre cujos nomes se encontram alguns de prussianos, como Uphoff, confirma o testemunho do revolucionário redator do “Amigo do Povo”.

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Eis como a propaganda dirigida consegue deturpar os fatos, mesmo sem o aparato e os recursos da moderna técnica publicitária.

Resta saber como se operou a transformação dos bandidos do 14 de julho em grandes homens e em heróis nacionais, justamente num país como a França, para escárneo da civilização ocidental.

É o que veremos em nosso próximo número.