Plinio Corrêa de Oliveira
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Legionário, 5 de março de 1944, N. 604, pag. 2 |
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Há pouco tempo, a “Folha da Manhã”, em sua seção “Sombra amiga”, publicou uma interessante descrição do “Homem equilibrado”. A caricatura é tão saborosa que não queremos perder o ensejo de apresentar alguns traços. O “Homem equilibrado” é absolutamente simétrico, pois seu equilíbrio reside única e exclusivamente na simetria. Assim, ele não usa jaquetão, mas apenas paletó saco, com duas botoeiras e duas flores; usa dos monóculos, duas alianças, duas correntes de relógio, dois guarda-chuvas, etc. Às refeições, serve-se de dois garfos e duas facas simultaneamente. Estende ambas as mãos para cumprimentar os amigos. Seu chapéu tem dois laços. Acende o cigarro com dois fósforos, um em cada mão. Anda aos pulos como o canguru, e tendo perdido uma perna, fez amputar a outra. Aí está o tipo ideal dos estados totalitários. Apenas o “Homem equilibrado” não é o “homo sapiens”. É uma besta quadrada. Para que apresentamos esta caricatura? Não foi por ociosidade, embora possa parecer. Sob a descrição grotesca do “Homem equilibrado” se aninha uma raça de gente que tem proliferado extremamente nos últimos tempos, e está pondo em risco a civilização. Para esta gente, o equilíbrio é puramente uma simetria, não mais uma simetria externa como a da caricatura, mas uma simetria de atitudes mentais não menos ridícula.
Descendo do avião o premier Neville Chamberlain exibe como um vitória o tratado da capitulação realizado em Munique (1938), grande prólogo da mais mortífera Guerra Mundial Por exemplo, Chamberlain foi um “Homem equilibrado”: afinal, ele queria ver se equilibrava a paz europeia mais ou menos como seria equilibrado andar aos pulos de canguru. O tipo clássico do “Homem equilibrado” é o que, entre duas ideologias irreconciliáveis, não quer abraçar nem recusar nenhuma, ou a ambas; ele cobre então a sua perplexidade desfibrada com o manto grave de uma atitude sensata, prudente, “equilibrada”, que não é mais do que um tempero indigesto de antíteses, uma espécie de angu frouxo e encaroçado: pulos de canguru. Outros há que não tem coragem de aceitar as últimas consequências das premissas que adotaram, mas também não querem abandonar as premissas. “Equilibram”, fazem uma prestidigitação barata, e sorriem do alto, com superioridade, como se ninguém percebesse a tramoia: mais pulos de canguru. O mais interessante é que estes “Homens equilibrados” ficam sempre nervosos na hora de fazer o equilíbrio. A atmosfera em que se estabelece a sua sensatez é uma trepidação de nervosismo confuso e alarmado, senão zangado. Mas depois eles ficam muito bem consigo mesmos e com o mundo. Dormem bem, e digerem melhor. E ai de quem lhes perturbar a digestão! |