Plinio Corrêa de Oliveira

 

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Vocação errada

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Legionário, 8 de junho de 1941, N. 456, pag. 2

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O Almirante Darlan é, evidentemente um caso de vocação falseada. É menos chocante o sr. Horthy ser almirante num país sem marinha, do que Darlan envergar uniforme de chefe naval. Não vai nisso nenhum desdouro. Se não conhecemos nenhum grande feito militar de Darlan, entretanto, são bem apreciadas de todos as admiráveis aptidões dramáticas do almirante. Quando Darlan, na ribalta da política internacional, desempenha os seus grandes lances de efeito, parece-nos ver Romeo, descabelado e romântico, a declamar para o balcão de Julieta.

Porém, onde os dotes artísticos do grande ator alcancem o apogeu, é na representação do grande drama em atos, que se intitula “A honra de Vichy”, paráfrase invertida do “Rei Lear”, de Shakespeare. Todos ainda se lembram daquele momento épico, que manteve todos os espectadores em suspenso, em que Darlan, trágico e sublime, reclamava trigo para a França, ameaçando obtê-lo pela força, contra tudo e contra todos (contra todos, sim, exceto contra a Alemanha). Mais tarde se soube que a escassez de gêneros na França não ocupada tinha por única responsável a Alemanha, que para lá estava despejando todos os indesejáveis ao nazismo. Isto não obsta, no entanto, que Darlan tenha representado um lance de magnífica dramaticidade.

Agora, nos vem a notícia de mais uma cena. O embaixador de Vichy nos Estados Unidos, sr. Hayes, protestou briosamente contra a insinuação feita por alguns jornais norte-americanos, de que os 210 alemães que viajavam a bordo do navio francês “Winnipeg”, interceptado por uma belonave inglesa, nas proximidades da Martinica, eram “turistas”, que se dirigiam para aquela ilha. Segundo a versão do sr. Hayes, estes alemães estariam apenas de passagem pela Martinica, pois, na realidade, seriam imigrantes que se dirigiam para vários países sul-americanos, com passaportes devidamente visados.

Ora, se para o governo de Vichy tudo isto não passa de uma representação bem ensaiada, para nós, sul-americanos, aquela informação do sr. Hayes se reveste de uma grande importância. Sabe-se, com certeza, que entre as levas de alemães, expulsas de sua pátria pelo nazismo, costumam infiltrar-se disfarçadamente membros da “quinta-coluna”, agentes perigosíssimos à segurança dos países em que se instalarem. É lamentável que a “honra” de Vichy, tão abundante contra os Estados Unidos, a Inglaterra e a própria França seja tão escassa quando se trata de favorecer a expansão nazista.


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