Plinio Corrêa de Oliveira

 

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Nazismo e cavalheirismo

 

 

 

 

 

 

 

Legionário, 14 de julho de 1940, N. 409, pag. 2

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As ruas de Londres, em tempos que já vão bem remados, eram um conjunto de lamações e de poças de água. Pois foi exatamente dentro de uma destas poças de água suja que o coche real se deteve. A Rainha, que deveria presidir a importante solenidade vacilou um momento, ante a perspectiva de encharcar os sapatos no imundo lodaçal. Mas a vacilação só durou um breve momento, pois que Sir Walter Raleigh, que a esperava junto à portinhola, compreendendo prontamente a hesitação do vulto real, estendeu sobre o charco sua riquíssima capa de seda, recamada de pedras preciosas. E a Rainha de Inglaterra não sujou os pés na lama das sarjetas.

Esta curta cena, bastante conhecida e nunca assaz admirada, veio-nos espontaneamente à memória, quando as agências telegráficas nos trouxeram o resumo de um dos últimos discursos de Rosenberg. O doutrinador do nazismo, figura de inegável importância e prestígio no complexo ideológico-político do terceiro Reich, declarou, a propósito da projetada ofensiva à Inglaterra, que, assim como a Revolução Francesa havia acabado com o cavalheiro, a revolução hitlerista haveria de acabar com a estirpe dos “gentlemen”.

Ora, esta declaração é altamente esclarecedora. Por aí, o nazismo reconhece oficialmente, uma filiação pouco recomendável. Já ficou assentado, através de uma minuciosa investigação da paternidade, que o comunismo foi engendrado pela Revolução Francesa. Donde resulta serem irmãos nazismo e comunismo. Uma bela família, sem dúvida, unida pelos laços mais estreitos.

Nem se diga que o paralelo estabelecido pelo próprio Rosenberg assinala apenas uma semelhança histórica e não uma comunidade doutrinária, a manifestar-se gradualmente. Uma revolução tende a introduzir na vida prática, mais, na vida quotidiana, certos princípios teóricos novos. Para chegar a este fim, não basta alterar as instituições; é preciso atingir o homem. Assim, o auge da Revolução Francesa não foi a república; foi a extinção do cavalheiro, porque o cavalheiro representava um tipo de humanidade incompatível com o satanismo revolucionário. Da mesma forma, a figura do “gentleman” é incompatível com o nazismo.

O cavalheiro e o “gentleman” são radicais conquistas do espírito sobre a matéria, e representam uma intelectualização profunda da animalidade humana, tal como só se poderia conseguir com o auxílio sobrenatural da graça. São como que reconstituições da natureza humana anterior ao pecado original, tanto quanto é possível reconstituí-la em seus dotes puramente naturais, após a Redenção.

O “gentleman” é justamente um dos frutos mais notáveis do catolicismo, a perdurar através do protestantismo inglês. É por isso que contra ele se lança o paganismo hitlerista.

É verdade que há muitas coisas na Inglaterra que a fazem legitimamente condenável. Mas odiá-la por causa do “gentleman”, isto é, deste conjunto ideal de qualidades que deve possuir o verdadeiro “gentleman”, é uma abominação.


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