Legionário, N.o 767,  20 de abril de 1947

7 DIAS EM REVISTA

A hora em que se realizou a instalação do Crucifixo na Assembléia Constituinte, este jornal já estava impresso. Assim publicaremos em nosso próximo número uma reportagem sobre essa cerimônia.

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Aplaudimos sem restrições o decreto federal que negou autorização para o funcionamento legal da chamada "Juventude Comunista". Inútil será insistir sobre os motivos que fundamentam nossa opinião, já que os temos explanado pormenorizadamente sempre que se nos tem oferecido oportunidade para pedir o fechamento do Partido Comunista.

Em resumo, temos lembrado que a Igreja não admite a liberdade de pensamento, no sentido em que a definem os liberais. Há doutrinas que não é lícito nem professar, nem propagar. E o Estado tem, mais do que o simples direito, o imperioso dever de agir contra os que as propagam. A esta consideração doutrinária, que devem expor franca e fortemente, sem disfarces, nem diminuições, se acrescenta outra consideração de ordem prática, que também é importante.

Não exageremos a força do comunismo. Depois de um ano de propaganda escancarada, promovida por um partido que sem dúvida é o mais “técnico” e organizado de quantos militam em nossa política, o número de eleitores comunistas caiu. Rádio, imprensa, cinema, livro, tudo se utilizou para atrair a opinião pública. E, no fim, o resultado foi francamente negativo. Não parece pois que a liberdade de movimentos seja clima favorável para o comunismo, em nosso país nos dias que correm. Contudo, o perigo que vemos no comunismo não decorre da possibilidade de uma vitória legal conquistada nas urnas. Vitória assim, jamais a obteve o comunismo em nenhum país do mundo. Basta-lhe que sua propaganda habitue a opinião pública à idéia de um Estado totalitário, e que as minorias vermelhas fortemente organizadas, sejam capazes de um golpe de mão, para que ele intente a escalada do poder pela força, na primeira oportunidade. Contra um tal adversário, nossa política só pode ser preventiva. Se, por nossa cegueira liberal, o comunismo continuar a funcionar, e dentro de um futuro, aliás provavelmente não muito próximo, provocar greves, distúrbios, não nos lamentemos pelo sangue que então se derramar: teremos nós mesmos as mãos tintas nesse sangue.

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Consideramos com a maior simpatia a atitude enérgica e inflexível assumida por Marshall em Moscou. Pode-se dizer que, se hoje em dia a URSS não tem sob seu jugo o mundo inteiro ou quase inteiro, deve-se este fato à previdência e energia que o Departamento de Estado dos EEUU está demonstrando na presente situação.

Cumpre acrescentar que o procedimento de Bidault e de Bevin merece aplausos muito menores. O interesse que a França e a Inglaterra tem na manutenção do equilíbrio mundial é manifesto. Antes da guerra, essas grandes e gloriosas nações ocupavam um papel preponderante. Já hoje em dia, extenuadas pelas provações e interiormente corroídas pela crise econômico-social, são incapazes de desenvolver na política internacional os esforços que lhe assegurariam influência igual à de outrora. Se amanhã a URSS se jogasse contra elas, na tentativa de conquistar todo o continente europeu, nada poderiam fazer sem o apoio dos Estados Unidos. E mesmo se os Estados Unidos não tivessem assumido a atitude corajosa em que estão, é bem provável que a URSS a estas horas estaria movimentando tropas em direção ao Sena, ao Ebro ou, mesmo, quiçá ao Tejo. É esta a realidade. A vista disto, a prudência política mais elementar levaria o Quai d’Orsay e o Foreing Office a apoiar calorosamente o Departamento de Estado. Em lugar de agir assim, se bem que apoiasse em linhas gerais a ação americana os Srs. Bidault e Bevin tomaram uma atitude tíbia e pouco corajosa, de quem achava no fundo que os Estados Unidos estão exagerando.

Percebe-se que, no fundo, sua manobra consiste em deixar enfraquecer na luta recíproca uma e outra potência, isto é tanto a USA quanto a URSS para tirar proveito desta situação. Mas haverá algo de mais cego do que isto? De fato, a URSS não se está enfraquecendo de modo algum. Pelo contrário, quanto mais se adia o tratado de paz tanto mais se prolonga a ocupação soviética na Europa oriental e central. Só quem tem a perder são os Estados Unidos, e, com eles, inevitavelmente, a França e a Inglaterra.

Mas parece que o “espírito de Munich” continua a pairar sobre a Europa.

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Causa indignação a atitude do Sr. Wallace, que está em viagem de propaganda antiamericana através da Inglaterra. O conhecido prócer norte-americano tomou a si a tarefa ingrata de persuadir aos ingleses de que a política anticomunista do Departamento de Estado é fundamentalmente errada. A conseqüência sistemática de todos os seus discursos é esta: a Inglaterra não deve seguir a orientação norte-americana mas adotar para com o comunismo uma atitude de benignidade, clemência e simpatia.

Perante o nazismo a atitude desastrada e ridícula do Sr. Chamberlain não foi outra. Enquanto a Alemanha se armava incessantemente, e desenvolvia na Europa central e oriental um vasto programa de anexações; enquanto nos campos de concentração se enchiam de vítimas infelizes e nos sanatórios se trucidavam eletricamente os inocentes entregues em holocausto à doutrina nazista, o Sr. Chamberlain com [erro tipográfico] de meninota de treze anos, tentava desarmar a fera nazista. Sua fórmula, diante de cada agressão hitlerista, era sempre a mesma: com mais uma caricia Hitler ficará paralisado. O imperialismo germânico  só tem uma causa: é que o mundo ocidental vê o nazismo com desconfiança. Confiemos amplamente, inteiramente,  de coração aberto no nazismo e nós o teremos desarmado.

Enquanto isto, Hitler montava por toda a parte a quinta coluna, e preparava tudo mais que se conhece.

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O Sr. Wallace é o Chamberlain que prepara a segunda catástrofe. Tem a mesma linguagem, apregoa o mesmo otimismo fácil e falso, presta ao comunismo o mesmo serviço que ao nazismo prestou Chamberlain. Mas tudo isto com uma agravante singular: é que o Sr. Wallace leva a desfaçatez - não há outro termo – a ponto de fazer no exterior uma tournée política contra o governo de seu próprio país.

Se o Sr. Wallace fosse comunista declarado não poderia prestar ao comunismo serviço igual ao que lhe presta mantendo-se aparentemente nas fileiras anticomunistas. Tudo isto posto, não é demais que formulemos a respeito dele a mesma pergunta que formulamos há anos atrás, mutatis mutandis a respeito do Sr. Chamberlain: que relações haverá entre a quinta coluna russa e esse homem que, se pertencesse à quinta coluna, não faria em prol dos vermelhos mais nem melhor?