Legionário, N.o 575, 15 de agosto de 1943

7 DIAS EM REVISTA

O Eminentíssimo Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa, acaba de baixar um decreto em que declara “escritor perigoso para todos os que professam a fé católica” o Dr. Alfredo Pimenta, conhecido intelectual português, geralmente conceituado por suas simpatias para com a doutrina da Igreja.

Ninguém ignora que o Catolicismo consta de verdade a bem dizer simétricas, que se completam para constituir o todo divinamente harmônico que é a doutrina da Igreja. Considerada de modo unilateral qualquer destas verdades, o espírito humano se transvia através de erros dos mais perigosos. São freqüentes hoje os escritores que tecem ao Catolicismo louvores ditirâmbicos, iludindo facilmente a boa fé dos ingênuos. Analisadas suas obras, vê-se, porém, que eles só admiram, só aplaudem, só apoiam um aspecto da verdade, com o que, implicitamente, negam, desprezam, odeiam o outro. Em escritores tais, não se pode reconhecer uma verdadeira simpatia para com a Igreja, uma tendência real para a conversão. Eles desfiguram as verdades que aplaudem, tentam desarticular a doutrina com a qual parecem simpatizar, e servem em geral apenas para semear a confusão e a cizânia no campo católico.

Dotado de indiscutível e superior talento, o Dr. Alfredo Pimenta soube por em relevo notável vários dos aspectos de nossa doutrina. Sua unilateralidade mereceu-lhe, entretanto, severa condenação que acima estampamos.

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A este propósito, o ilustre Patriarca de Lisboa escreveu:

“Esse escritor, numa revista recentemente publicada em Lisboa, teceu comentários falsos, tendenciosos e desrespeitosos sobre as decisões da Hierarquia Eclesiástica, inclusive a respeito do próprio pontífice, ousando descrever como maquinações políticas o que está inspirado pelo mais puro espírito do Evangelho, isto é, as orações pela conversão da Rússia; ao passo que mais uma vez se aventurava a negar as solenes declarações do Papa e dos bispos alemães sobre a existência de perseguições religiosas na Alemanha.

Por conseguinte, é nosso infeliz dever declarar, em nossa qualidade de doutor e juiz da doutrina e disciplina católicas, no patriarcado de Lisboa, que censuramos a atitude de Alfredo Pimenta como incompatível com os deveres de católico; que não o reconhecemos como autor católico, em harmonia com a mentalidade da Igreja, e que o denunciamos como escritor perigoso para todos os que professam a fé católica”.

Como se vê, unilateralidade em tudo. Odiar o comunismo, odiá-lo a fundo, energicamente, intransigentemente, meticulosamente: nada melhor. Desgostar-se por isto com orações pela Rússia, nada mais errado, sobretudo porque estas orações nunca foram nem poderiam ser pelo comunismo, mas pelo povo russo. Censurar por isto o Pontífice, nada é mais digno de reprovação. Afirmar que na Alemanha não havia e não há perseguição religiosa é dar mostras de uma unilateralidade chocante, que além de injuriosa para o episcopado germânico que tantas vezes afirmou o contrário, é um ultraje para a santa memória de Pio XI, autor da Encíclica Mit Brenender Sorge, em que foram estigmatizados todos os erros nazistas e formalmente denunciada a perseguição religiosa movida pelo III Reich.

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Não podemos deixar de considerar com muita apreensão a notícia de que se planejam alterações na presente estrutura política alemã, de forma a diminuir os poderes do Sr. Hitler, transferindo-os em parte para uma ou duas comissões que funcionariam ao lado do gabinete, e como que em concorrência com este. Com efeito, pode haver aí um mero expediente para substituir gradualmente o Sr. Hitler no poder, conservando um governo composto de nazistas que procure tratar com os aliados, e, depois da paz, perpetuar-se na direção do Estado, ainda que, eventualmente, com o apoio de alguns dos antigos partidos políticos germânicos. A camarilha nazista precisa ser destituída por completo. Se algum de seus elementos for aproveitado para a reconstrução da Alemanha de amanhã, infeccionará toda a obra, e tornará inútil a vitória tão laboriosamente alcançada pelos aliados. Com efeito, a verdadeira vitória destes não consistirá em mutilar a Alemanha, nem em empobrecê-la ou humilhá-la, mas em destroçar de uma vez por todas os representantes do espírito militar pagão e protestante que vem triunfando de Frederico II a Hitler, passando por Bismark. E, qualquer remanescente do regime nazista poderá tornar inútil todo esforço que neste sentido se venha a tentar.

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A este propósito, fala-se muito no reinício das atividades políticas do glorioso partido do centro, que era o partido dos católicos alemães. Entretanto, é absolutamente preciso que sejam alijados de sua direção os ingênuos, os chefes tolos e imprevidentes que não souberam evitar o nazismo.