Legionário, N.º 382, 7 de janeiro de 1940   

O “BLUFF” RUSSO

Não é preciso ser grande militar nem grande político para medir toda a extensão do fracasso russo na Finlândia. Um povo pequeno, dotado de recursos militares na aparência insuficientes, resolveu, em um gesto heróico, enfrentar outro povo incomparavelmente mais forte quer pelo número dos homens, quer pela abundância dos recursos materiais, quer ainda pela superioridade incontestável dos armamentos. A todos, pareceu isto uma temeridade. Mas a temeridade se transformou em heroísmo e o heroísmo em vitória, de tal maneira que já hoje, seja qual for finalmente o vencedor, é a Finlândia quem, moralmente, ganhou a guerra.

Solidários com a atitude da Santa Sé, que verberou energicamente a agressão soviética contra a Finlândia, e com a solidariedade que o Brasil exprimiu oficialmente àquele país, não poderíamos deixar de nos rejubilar com os resultados da luta. Ainda que ela termine com o fracasso final da Finlândia, uma coisa está provada agora, de modo mais exuberante do que nunca: é que as qualidades do comunismo não passam de um imenso "bluff".

* * *

Algumas considerações não serão supérfluas para mostrar a extensão desse "bluff". Como ninguém ignora, a Rússia é um país totalitário, o que, em linguagem mais chã, significa que ali vigora uma tirania mil vezes mais absoluta do que a monarquia dos czares. O próprio dos países totalitários é de suprimir todos os direitos individuais em benefício da coletividade. É claro que, em última análise, como a coletividade se compõe de indivíduos, os totalitários não têm remédio senão afirmar que estes são beneficiados com a supressão de seus direitos. A tese é chocante. Mas é este o pensamento totalitário. De sorte que toda a argumentação contra o totalitarismo se deveria voltar para o seguinte ponto preciso: a supressão dos direitos individuais não acarreta vantagem para os indivíduos, quer considerados individualmente quer em massa.

Evidentemente, o totalitarismo, por mais elementares que sejam os dotes intelectuais dos que o dirigem, deve produzir alguns frutos vistosos, de grande aparato no exterior. Mas o que se trata de saber é se tais frutos correspondem a um benefício concreto para os indivíduos. Porque, em última análise, o Estado que se manifesta radicalmente incapaz de prover às necessidades temporais dos homens é um Estado que não merece existir.

Será preferível exemplificar com dados concretos. Suponhamos um Estado totalitário que queira resolver a seu modo - isto é totalitariamente - o problema dos víveres. Ele confiscará todas as propriedades individuais e as transformará em um imenso domínio público, explorado diretamente por funcionários. Depois, fechará o pequeno e o grande comércio de víveres e o substituirá por armazéns oficiais, de tamanho monstro, em cada bairro. Finalmente, entregará ao respectivo Departamento de Propaganda - órgão indispensável de todo Estado totalitário - uma notícia aparatosa: o Estado constituiu um grande domínio rural de X hectares, produzindo víveres em quantidade X, e X armazéns-monstros que distribuem diariamente toda a produção à cidade. Evidentemente, o público, impressionado com o vulto dos algarismos, poderá julgar que se trata de um grande feito. De mais a mais, os turistas que queiram visitar tal domínio rural serão conduzidos rigorosamente a certos pontos onde o Estado, que dispõe de recursos nababescos terá organizado uma lavoura-standard, que embasbacará os jornalistas ingênuos (?) e os levará a repetirem no exterior que realmente é uma maravilha o que a administração totalitária organizou. E assim os outros países se sentirão tentados a, por seu turno, se "totalizarem".

Mas... E entra aí o "mas" impertinente, manhoso e inexorável, apesar de tantos e tantos armazéns, tantas e tantas culturas oficiais, tantos e tantos "Departamentos de Propaganda", os indivíduos sofrem fome. É que a terra produz menos do que produzia, a distribuição é imperfeita porque os funcionários que a fazem engordam a olhos vistos enquanto a população deperece, e, finalmente, o "Departamento de Propaganda" pinta as coisas mais róseas do que são. Há países em que o "Departamento de Propaganda" se deveria chamar oficialmente o “Ministério da Mentira para Utilidade Pública”.

E, assim, aos olhos de qualquer observador, o castelo de cartas da propaganda totalitária se desmorona inteiramente.

* * *

Mas há um campo no qual o Estado totalitário não tem, já não digo razões, mas nem sequer pretextos para ter insucessos. É o campo militar.

Efetivamente, quase todos os inconvenientes decorrentes da socialização, no Exército, se mostram muito menos agudamente. E, por outro lado, a onipotência do Estado arma o governo de todos os recursos convenientes para se ter um aparelhamento militar perfeito. São necessários canhões? Diminua-se a já exígua ração de trigo dos camponeses, aumente-se o número de horas de trabalho nas minas e nas fábricas, vendam-se a estrangeiros, a preço vil, as mercadorias que em outra época poderia encontrar colocação melhor. E o dinheiro surgirá necessariamente, se bem que, como fruto disto, se encham mais, neste ano, os hospitais e os cemitérios. É esta a lógica totalitária em todo o seu rigor. E tem de ser. Porque se um governo se arma de uma onipotência absoluta para melhor servir a coletividade e, depois disto, não é capaz de prestar à coletividade o mais elementar dos serviços, como seja de assegurar a defesa do País, do que vale ele?

* * *

Ora, exatamente neste ponto, a Rússia fracassou. Ela teria pretextos relativamente verossímeis para explicar sua falência econômica. Mas sua falência militar é uma dessas grandes humilhações que desmoralizam totalmente um regime, e destroem de vez seu prestígio.

Isto posto, algumas considerações não podem deixar de ser feitas.

Lembram-se ainda os leitores do “LEGIONÁRIO” dos comunistóides e dos liberalões coniventes com o comunismo, que, há algum tempo atrás, de boca cheia, apregoavam a eficácia das armas soviéticas? Onde estão eles, agora, para que os possamos interpelar? Como explicam esse fragoroso insucesso da Rússia?

E os outros liberalões, os que achavam que a França e a Inglaterra deveriam realmente usar de todas as cautelas para com a Rússia porque este era o país mais poderoso do mundo, onde estão eles? Como explicam eles agora as cumplicidades, as molezas, as transigências de tanto e tanto governo liberal-democrático com a diplomacia soviética?

Finalmente, onde estão os totalitários que procuravam justificar com meras razões de caráter militar a aliança teuto-russa?  Agora que se verificou que a Rússia é um imenso "bluff", onde estão as vantagens dessa aliança? Por que motivo continua ela tão estreita? E por que motivo a França e a Inglaterra não ousam, a despeito disto, declarar a guerra à Rússia?

São estas algumas perguntas que dificilmente poderiam ter resposta adequada. É que a resposta só é do conhecimento dos que, nos laboratórios da alquimia bancário-política internacional, parecem ser os únicos a conhecer a meada intrincada que desnorteia hoje todos os prognósticos.