Legionário, No 376 , 26 de novembro de 1939

 

DE GRIGNION DE MONTFORT

Das mãos de uma editora católica, recebeu o “Legionário”, ultimamente, a obra traduzida do Bem-aventurado Luiz Maria Grignion de Montfort, sobre a Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Entre estas edições, chama atenção por suas qualidades a da Vozes, de Petrópolis, que teve a feliz idéia de traduzir, também, em apêndice, as orações que o Autor recomenda no seu livro.

As obras do Beato Grignion de Montfort já se impuseram, no seio da Santa Igreja, por seu excepcional valor e hoje em dia o Tratado da Verdadeira Devoção é geralmente reconhecido como um dos mais importantes trabalhos que jamais se tenha escrito sobre Nossa Senhora. Dados os extremos de respeito e de amor para com a Santíssima Virgem a que a obra do Beato Grignion de Montfort conduz seus leitores, alarmou ele, aliás sem o menor fundamento, alguns pensadores católicos receosos de que o autor tivesse chegado a exagerar o culto da hiperdulia que a Nossa Senhora se deve. A Santa Sé, a fim de acalmar os espírito timoratos, e permitir às almas piedosas que singrassem sem receio os oceanos de piedade contidos no Tratado da Verdadeira Devoção, declarou entretanto de forma expressa, explícita e oficial, nada ter aquele livro que colida com o pensamento da Igreja. É, pois, com apoio nessa garantia de supremo valor que se deve considerar e examinar a grande obra daquele grande Santo.

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Não tenho, evidentemente, o propósito que, partido de mim, seria descabido e temerário, de produzir um comentário que apresente algo de novo ou original a respeito de obra de tão grande importância teológica. O meu intuito, neste artigo, é apenas de apontar ao público algumas das qualidades daquela obra que mais facilmente lhe possam levar a obter leitores capazes de a ler, meditar e viver.

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Muito se tem escrito, em nossa época, por pena de leigo, sobre piedade. Entretanto, cumpre observar que raramente os livros dessa natureza, ao menos no Brasil, apresentam aquela solidez de pensamento sem a qual a piedade corre grave risco de se extraviar.

No fundo, essa deficiência decorre de uma concepção incompleta do que seja a piedade. Raciocinando de um modo simplista, pensa muita gente que como o anelo supremo de toda a vida espiritual deve ser a intensificação do amor de Deus, e como o amor que os Santos tiveram a Deus na vida terrena se manifestou por extraordinárias provas de sensibilidade afetiva, em última análise o amor será tanto maior quanto mais aguçada e mais viva for a sensibilidade. De sorte que a obra de um livro de piedade deve consistir em despertar a maior sensibilidade afetiva possível. Quanto mais terna a linguagem, quanto mais imaginosa, quanto mais rica de adjetivos, tanto mais eficaz.

Com isto, evidentemente, toda a estruturação doutrinária da obra sofre um sério prejuízo. A preocupação literária predomina sobre a clareza e a ortodoxia do pensamento, e o trabalho inteiro, se consegue uma vez ou outra tocar o leitor por um artifício feliz de linguagem, não deixa no fim uma única convicção sólida e profunda, uma única daquelas idéias claras e substanciosas, capazes de guiar uma vida e determinar uma reforma espiritual.

Nisto, como em tudo, a Santa Igreja deve ser nossa Mestra. Ninguém mais do que ela se esforça por estimular e formar a sensibilidade humana, nutrindo-a com todas as impressões capazes de lhe dar uma verdadeira elevação. Pelas imagens, pelos cânticos, pela música, pelos esplendores da Sagrada Liturgia, a Igreja fala incessantemente à sensibilidade dos fiéis, e, auxiliada pela graça de Deus que nunca lhe falta, bem como pelos recursos de grande talentos humanos, tem ela conseguido tais resultados neste terreno, que bem se pode dizer que ninguém, em toda a história, tem conseguido propor à sensibilidade humana temas tão altos e tão nobres, ao mesmo tempo tão fortes e tão suaves, quanto ela. Ao par disto, ninguém tem conseguido, ao mesmo tempo, comunicar a essas manifestações sensíveis um cunho tão apuradamente artístico quanto os grandes talentos inspirados pela Igreja.

Longe, e muito longe de nós, portanto, está a preocupação de ignorar o papel da sensibilidade na vida da piedade. Deixemos esta triste tarefa aos protestantes, e continuemos dóceis aos maravilhosos ensinamentos que, a este respeito, nos dá a Santa Igreja.

Entretanto, se não queremos reduzir em nada o papel da sensibilidade, também estamos muito longe de lhe atribuir na vida de piedade uma importância que ela não tem.

Como a vida de piedade se destina a santificar o homem, a importância que têm respectivamente a inteligência, a vontade e a sensibilidade é proporcionada à magnitude das funções de cada uma no homem.

Ora, se o papel da sensibilidade é grande, ninguém poderá, por pouco que reflita, deixar de reconhecer que a ação da inteligência e da vontade ainda é muito maior.

Assim, pois, a verdadeira formação de piedade não se deve contentar com ministrar à sensibilidade estímulos sobre estímulos. Ela só será sólida se se alicerçar sobre verdades claras, substanciosas e fundamentais, ministradas e assimiladas a fundo pela inteligência. E só será real se se servir destas verdades como meio para disciplinar vigorosamente a vontade, em um combate árduo e duro que, se bem que a alma seja espiritual, com toda a propriedade de expressões se pode chamar de sangrento. De nada vale a vida espiritual se ela prescindir de uma instrução religiosa sólida, e de uma luta efetiva, disciplinada, constante e intransigente conosco. Um exemplo que não me farto de repetir, e que aliás é corriqueiro, explicará tudo. Conheci uma pessoa que vivia em estado de pecado mortal habitual, e que, entretanto, cada vez que fazia uma Via Sacra, chorava copiosamente pelas dores de Nosso Senhor. Tentei mostrar a esta pessoa como deveria aproveitar esta compunção sensível para se afastar do pecado. Foi tudo inútil. A sensibilidade era viva, mas a vontade não era reta. O epílogo desta situação foi uma decadência moral que chegou até às últimas raias do que pode um homem fazer. Sensibilidade, não faltava. Mas, e o resto?

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É raro encontrar um livro que, de modo mais patente, tenha os dois predicados, o de esclarecer a inteligência, e o de estimular a sensibilidade, do que o do Beato Grignion de Montfort. Seu Tratado é uma verdadeira tese, com lampejo de polêmica. A argumentação é sólida, substancial, profunda. Jamais se nota nele que um arroubo de amor venha perturbar a indefectível serenidade e justeza do pensamento. Sua profundidade chega a ser tal que freqüentemente os leitores não iniciados na Teologia - e é este meu caso - têm de fazer um sério esforço de inteligência, para o compreender. Mas em compensação não há uma só frase inútil ou sem sentido em seu livro. Todas as palavras têm seu valor exato e calculado. E todos os conceitos geram convicções claras e profundas, que não despertam apenas sobressaltos de sensibilidade em momentos em que nosso temperamento se mostra propício a isto, mas idéias luminosas e substanciosas, que geram aquele amor sério e sólido, capaz de sobreviver heroicamente às mais implacáveis aridezes da vida espiritual.

Entretanto, não se julgue que o Tratado da Verdadeira Devoção é uma fria exposição de princípios. Em cada ponta de frase, o Beato Grignion de Montfort deixou gotejantes o suor de sua inteligência e o sangue de seu coração. Sua argumentação, se é lúcida, está longe de ser fleumática. Pelo contrário, é apaixonada, ardente, comunicativa. A cada demonstração vitoriosa, seu escrito toma acentos de gritos de triunfo e de júbilo. Sua linguagem lembra a de São Paulo. E por isto o grande Faber disse da obra de Grignion de Montfort que depois das Escrituras Sagradas, nada se escreveu de mais candente do que sua famosa oração pedido missionários de Maria.

Se há um trabalho em que se compreende aquela luz intelectual cheia de amor, de que fala Dante, esse é o de Grignion de Montfort.

Lê-lo é facilitar poderosamente o progresso na vida espiritual. Difundi-lo é acumular coroas de méritos no Reino dos Céus.