Legionário, N.º 226, 10 de janeiro de 1937

Paz

Nosso programa para 1937 deve ser a paz. Pode parecer estranha esta afirmação em um órgão como o “Legionário” que tem sido uma espécie de cadet de Gascognedo Catolicismo, um defensor duelista e briguento, que respira com delícias a atmosfera de combate de que nossa época está cheia.

E, no entanto, nosso programa é este: paz. Categoricamente, peremptoriamente, queremos paz.

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Expliquemo-nos.

É preciso “recatolicisar” o Brasil. A este respeito não há dúvidas para nós. E nem há dúvidas sobre um outro ponto importantíssimo: a “recatolicisação” do Brasil não é simplesmente um dos meios de salvação de que o Brasil pode lançar mão. Nem mesmo é o mais eficaz. Pura e simplesmente é o único.

Em outras palavras, significa isto que sem a ação do Catolicismo sobre os caracteres, profundamente deprimidos pela corrupção contemporânea, não é possível a reedificação do Brasil em ruínas. Sem a aplicação cabal dos princípios católicos em nossa vida econômica e social não é possível a reorganização de nossa fisiologia política e social, profundamente perturbada. Em tudo e por tudo, a salvação só pode vir com Catolicismo, e pelo Catolicismo.

Isto posto, pergunta-se: quanto tempo durará esta “recatolicisação”?

A pergunta, que é muito freqüentemente formulada, é ao mesmo tempo ingênua e angustiosa. Ingênua porque supõe que a reforma fundamental da estrutura moral, política, social e econômica de um povo pode ser feita de modo tão mecânico e tão regular que possa ser previsto o tempo que ela durará. Angustiosa porque  reflete o receio profundamente razoável de que, antes  de ser levada a cabo a obra da reforma religiosa, um cataclismo fatal possa destruir o Brasil.

Voltemos, porém, ao que afirmamos: só há para o Brasil uma salvação que está na Igreja. Se só há esta, é inútil apelar para outras. É preciso, de qualquer maneira, que venha da Igreja a atividade providencial que impedirá o desabamento definitivo de nossa Pátria. Não adianta apelar para outros meios. O caminho é só este.

Se o caminho é só este, a política dos católicos se define com simplicidade e clareza. É preciso, em primeiro lugar, evitar a todo o custo o cataclismo comunista. Assim, as hostes católicas encontrarão um ambiente em que possam livremente tratar da reconstrução do Brasil sobre a pedra angular de toda a verdadeira civilização, que é  CRISTO. E, dias mais ou dias menos, anos mais ou anos menos, o Brasil estará definitivamente reintegrado no seio amantíssimo da Igreja.

A grande obra dos católicos pode, pois, ser considerada sob dois aspectos diversos. O primeiro consiste na repressão ao comunismo. A segunda na obra positiva do reerguimento nacional sobre as bases católicas.

A primeira obra, os católicos podem e devem levá-la a cabo eficazmente organizando-se de forma moderna, ativa, vigorosa, à margem de preocupações partidárias.

O segundo, podem realizá-la por meio de uma  atividade intensa, metódica, racional e, quase diria, científica.

No entanto, uma e outra tarefa estão ameaçadas de um colapso funestíssimo: a deflagração de alguma revolução burguesa.

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Realmente não é difícil imaginar o transtorno que uma revolução burguesa traria à obra dos católicos.

 Em primeiro lugar, as agitações, as discórdias, as perturbações decorrentes da guerra civil preparariam um ambiente ideal para a propaganda comunista. Consta-nos até que a palavra de ordem da III Internacional para a América é favorecer a preparação de revoluções burguesas que prenunciem a grande revolução social.

Em segundo lugar, o regime constitucional seria provavelmente suspenso por tempo indeterminado. Com isto, a Igreja ficaria colocada sob o poder discricionário de algum Cesarete, isto é, sob uma nova e perigosa espada de Dâmocles. A atividade apostólica perderia sua liberdade. E, com isto, perderia muito de sua eficiência.

Em terceiro lugar, a inevitável desorganização da vida social, trazida por qualquer revolução, se refletiria na ação católica. Digam os Diretores de Congregação os transtornos que lhes trouxe a revolução de 32. Pode-se facilmente avaliar por aí os inconvenientes indiretos de uma revolução.

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Não espanta, pois, que nosso programa seja de paz.

Os maiores riscos e sacrifícios nos parecerão pequenos, se necessários para sua realização.

Concordam com nosso programa os leitores do “Legionário”?

Pensamos que sim. Mas gostaríamos de ouvi-los.