Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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 "Folha de S. Paulo"

 

 

 

 

 

 

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13 de novembro 1984

Brasil-"fiction", não

 

Invariavelmente arredio das competições partidárias, tinha eu o propósito de me calar sobre os vaivéns dos debates sucessórios. E isto tanto mais quanto, até há pouco, a diferença de matizes ideológicos entre um e outro candidato era imprecisa, impalpável até, de maneira que não se prestava a um comentário consistente. Ora, a não ser do ponto de vista doutrinário, qualquer intervenção minha nesse grande "brouhaha" não teria sentido. Pois não tenho eleitorado arregimentado que confira importância política ao meu pronunciamento. E minha presença ante a opinião pública brasileira só tem sentido ideológico ou doutrinário.

Acontece, porém, que de algumas semanas para cá, o quadro da controvérsia política vem apresentando transformações sintomáticas. Durante bastante tempo, a posição do Sr. Tancredo Neves era preponderantemente esquerdista, embora – sem dúvida para satisfazer o eleitorado conservador de sua terra – ele tivesse um ou outro pronunciamento direitista. O Sr. Paulo Maluf tinha atitudes discretamente direitistas, com uma ou outra declaração esquerdista. Podia-se pois notar, dentro do esfumaçado do quadro, uma tal ou qual simetria de posições.

* * *

De uns dez ou quinze dias para cá, o Sr. Paulo Maluf vem tornando sensivelmente mais esquerdistas as suas declarações, sem que, entretanto, o Sr. Tancredo Neves haja caminhado, por sua vez, para a direita. A simetria se rompeu. E, a continuarem as coisas como estão, a competição entre ambos os candidatos se terá transformado em uma corrida para a esquerda. Eles parecem imaginar que ganhará quem chegue mais adiante na linha do esquerdismo.

Bem entendido, nenhum dos dois parece resolvido a desembocar assim no comunismo; mas tão-só a atingir aquele maximum de dosagem de esquerdismo que permita ao candidato... não chocar demais a direita.

Sob este ponto de vista, a competição lembra, não uma corrida, mas um torneio de habilidade linguística. Tudo está em encontrar fórmulas que atraiam o maior número possível de esquerdistas; e, ao mesmo tempo, de não assustar o centro e a direita.

Para um observador especialmente preocupado com os aspectos doutrinários da sucessão, nada de menos interessante... 

Entretanto, neste preciso momento, sinto uma necessidade irrefreável de dizer uma palavra dentro do "brouhaha". Ei-la.

Todo esse jogo parece proceder da convicção, comum a ambos os candidatos, de que o grosso da população brasileira é esquerdista, de sorte que o candidato que ganhe para si as esquerdas, terá ganho o Brasil. E é só porque um e outro receia não atrair para si uma indiscutível maioria esquerdista, que ambos têm interesse em conservar também alguma votação de direita, a ser somada aos votos que da esquerda obtenham.

Ora, isto a mim me parece substancialmente errado. Explico-me.

A meu ver, neste nosso querido e singular Brasil, chama-se de "classe conservadora" uma certa elite econômica, em cuja dianteira estão industriais, seguidos mais ou menos de perto por comerciantes. Vêm em seguida os profissionais intelectuais com êxito notavelmente lucrativo nas respectivas profissões.

Em seu conjunto, tudo isto constitui um magma humano que inclui – mais ou menos – a classe alta e a classe média alta. Vem depois a classe média propriamente dita, e abaixo dela o operariado.

Ora, segundo uma visão perfeitamente folclórica das coisas, certos observadores políticos se apegam ferozmente à ideia de que, quanto mais alta a classe, tanto mais ela é reacionária. Parece tão natural que seja assim! Pois quem há de ser mais ferrenho partidário da propriedade do que o proprietário?

A partir desse postulado, todo teórico, concluem os observadores que, quanto menos propriedades tem o brasileiro, tanto mais ele tende para a esquerda. A classe média-média e a classe média-baixa já seriam então muito mais flexíveis face às pressões ou solicitações do comunismo. Quanto ao operariado, seria propriamente o imenso feudo eleitoral de Marx e de Lênin, dominado pelos semi-marxistas da "esquerda católica". Portanto, há que ser marxista, se se quer ganhar uma eleição. E daí todo o resto.

Ora, para mim que, por força de minhas funções na TFP, tenho contínuo contato com elementos de todas as classes no Brasil inteiro, esse quadro é absolutamente contestável. A proporção de esquerdistas é muito mais acentuada na classe dita alta do que na média. E na média, mais do que nos cortiços e nas favelas. Aliás, os resultados eleitorais do último pleito a governador o demonstraram com especial clareza em São Paulo, pela votação esquerdista no Morumbi e nos Jardins.

E, sobretudo, em todas as classes, a porcentagem esquerdista se mostrou menor do que muitos observadores imaginavam.

* * *

Espantoso? – Não sei porquê. Na noite em que escrevo, Reagan está sendo reeleito com uma maioria avassaladora. Todos os setores da opinião norte-americana, que vão desde o centrismo até a direita da direita, se rejubilam. E o eco da alegria deles já vai despertando sincrônicas manifestações de simpatia nos correlatos setores do mundo inteiro. A eleição de Reagan não é, porém, um fato isolado, e exclusivamente norte-americano. Todos sabem que desde a eleição da conservadora Thatcher, na Inglaterra, a esquerda tem sofrido duros revezes. Basta pensar na derrota de Trudeau no Canadá. E, na França, no ocaso de Mitterrand, cujo vistoso topete autogestionário, em boa hora derrubado, simboliza a dura perda de eleitorado que ele sofre a cada teste de opinião pública.

Por que não haveria de acontecer o mesmo na opinião pública do Brasil? Tudo isto conduz a uma conclusão. Para vencer, não devem os candidatos procurar ajustar suas campanhas eleitorais ao quadro-fiction de uma opinião pública brasileira socialo-comunista. Falem com timbre claro, leal e valente, a linguagem que os setores centristas e até reacionários da opinião pública gostam de ouvir. E as urnas lhes dirão que terá vencido o candidato que falou ao Brasil real, e não o que tenha falado a um Brasil irreal, um Brasil-fiction, paraíso dos comunistas e de seus vizinhos ideológicos.

Nota: Os negritos são deste site.