Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Entrevista ao "Correio Braziliense"

 

 

 

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 23 de janeiro de 1991

Entrevista telefônica para o jornal Correio Braziliense (de Brasília)

 

 

 

 

Na foto que ilustra a presente gravação, o Prof. Plinio encontra-se no escritório de sua residência

 

Plinio Corrêa de Oliveira (PCO) - Alô! 

Correio Braziliense (C.B.) - Dr. Plinio? 

PCO - Sim, é Plinio Corrêa de Oliveira.

C.B. - O Sr. está bem?

PCO - Bem. O Sr. como vai?

C.B. - Tudo bem. Quem está falando aqui é o Elmano. Sou repórter do Correio Braziliense.

PCO - Pois não.

C.B. - A gente recebeu uns telex, uns telegramas da TFP, anunciando algumas atividades dela, inclusive uma passeata que foi feita na semana passada. Isso suscitou de fazer matéria sobre a TFP, porque ela anda meio sumida do noticiário da imprensa. Primeiro, Dr. Plinio, o que está havendo com a TFP? Ela está sumida?

PCO - Vejo bem que, realmente, a imprensa está muito muda a respeito da TFP. Mas não é porque ela esteja sumida, mas porque a imprensa não tem querido publicar nada. Nós fizemos uma campanha colossal, internacional, abrangendo vinte e duas nações, com uma mensagem ao Presidente Vytautas da Lituânia, hipotecando todo o apoio dos signatários à causa da independência da Lituânia. Este abaixo-assinado alcançou mais de cinco milhões de assinaturas, em vinte e dois países, nos cinco continentes.

Recolhidas as assinaturas, elas foram levadas por uma comissão composta por membros de várias TFPs até a Lituânia, em Vilnius, para entregar ao Presidente Vytautas os microfilmes das 5,2 milhões de assinaturas obtidas. Passaram por Moscou, estiveram na Praça Vermelha, entregaram no Cremlin um relatório dessa campanha pró-independência da Lituânia, endereçado a Gorbatchev.

C.B. - Agora, me parece que a TFP está mais preocupada com a Lituânia do que com o Brasil. Isso é verdade, Dr. Plinio?

PCO - Nem um pouco! Acontece que os temas brasileiros de mais atualidade são os temas econômicos, temas a respeito dos quais a TFP é menos especializada, do que a respeito dos de caráter ideológico, que são mais os nossos. É a razão pela qual estamos à espreita. Vamos deixar os assuntos se desenvolverem e, conforme o caso, nos pronunciaremos.

C.B. - Dr. Plinio, como a TFP encara os acontecimentos no Leste europeu: fim dos regimes socialistas, a derrubada do Muro, o fim, enfim (sic), do socialismo burocrático daquela região?

PCO - A TFP encara evidentemente com muita simpatia a queda do prestígio internacional do comunismo que resultou daí. A queda da Cortina de Ferro abriu completamente o Oriente a todo o mundo que queira visitá-lo. A visita lá revelou uma situação tão infra-humana, que justifica inteiramente as palavras do Cardeal Ratzinger, o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em sua "Instrução sobre alguns aspectos da "Teologia da Libertação", de 6-8-84, a respeito dos países comunistas: "Não se pode desconhecer esta vergonha do nosso tempo: pretendendo proporcionar-lhes liberdade, mantêm-se nações inteiras em condições de escravidão indignas do homem".

O que o mundo tem visto em matéria de pobreza, e de que os jornais têm publicado alguma coisa, revela um tal fracasso do regime comunista do ponto de vista de atender à necessidade dos pobres, que se deve definir o regime comunista como aquele que não só não atende às necessidades dos pobres, mas reduz à extrema pobreza todos os que sob ele vivem.

C.B. - Dr. Plinio, aqui no Brasil, a gente vive no regime capitalista que, aparentemente, dá toda a liberdade de qualquer regime democrático, e a gente tem uma miséria que me parece mais colossal do que a miséria dos países do Leste europeu. Parece-me que eles são mais ricos... Com toda a pobreza deles, são mais ricos do que nós. Então, a situação do Brasil não é mais preocupante, não, Dr. Plinio?

PCO - Não acho nem um pouco. Acredito que o público teria toda a vantagem em se informar com mais cuidado sobre o que está se passando no Leste europeu. Por exemplo, essa comissão da TFP que esteve por lá agora, veio trazendo notícias e informações concretas da pobreza lá... É coisa simplesmente espantosa!

C.B. - Quer dizer, a União Soviética é mais pobre do que o Brasil?

PCO - Ah, muito mais! Eu lhe aconselho um livro. É um livro de uma autora francesa, que está tendo muita saída em Paris: “Le moment Gorbatchev”, de Françoise Thom. Este Thom é nome não francês. É publicado pela editora Pluriel, de Paris (1989). É um livro que está fazendo sensação, porque muito bem documentado, e mostra que a miséria na Rússia é simplesmente uma coisa espantosa.

Se o quiser se informar, pode mandar vir esse livro. Nele terá todas as informações necessárias. E verá que não tem nada de parecido com o Brasil. No Brasil, o Sr. tem uma classe rica e uma classe pobre. Exagerou-se muito o que é a miséria no Brasil: a classe miserável não é como dizem. Na Rússia, só há miséria.

C.B. -... como o Sr. vê o Gorbatchov? Gorbatchov representa o quê para o Sr.?

PCO - Representa, para mim, a ambigüidade suspeita de todas as más surpresas.

C.B. - Então, o Gorbatchov não é confiável?

PCO - Nada!

C.B. - Tudo o que ele está propondo não é confiável aos olhos da TFP?

PCO - Nada. Nem um pouco. Ele é desconfiável.

C.B. - Ele é comunista como o Stalin foi, como o Lenin foi? 

PCO - Não posso dizer isso, mas admito a possibilidade que o seja. 

C.B. - A possibilidade de quê? 

PCO - De que ele o seja! 

C.B. - Ele o seja... 

PCO - Então, qual a posição da TFP diante dessas mudanças do Leste? A TFP apóia ou não apóia?

As mudanças do Leste, ela apóia, uma vez que sejam encaminhadas para o restabelecimento de uma ordem, na qual a propriedade privada seja reconhecida e a liberdade de mercado também.

Se não forem reconhecidos esses dois fatores ou esses dois pilares de toda a ordem humana, a TFP não apóia.

Nossa opinião... Não é uma opinião, nossa suspeita a respeito de Gorbatchev é de que ele, como comunista, – que se tem, aliás, dito comunista mesmo depois da aproximação dele com os Estados Unidos – tenha a intenção de realizar o artigo 1 (um) da Constituição Soviética. Este afirma que a finalidade do capitalismo de Estado comunista é de preparar a autogestão. Eu acho que, para onde ele caminha, é a preparação do comunismo autogestionário.

A meu ver, mais censurável do que o próprio capitalismo de estado. 

C.B. - Agora, Dr. Plinio, o mundo hoje, ele se reordena política e economicamente: a Europa se reunifica em 92; os tigres asiáticos formam com o Japão uma outra força, e começam a articular-se como uma outra força econômica; e a União Soviética se abre, juntando-se com a Europa; a América do Norte tenta articular-se cada vez mais um intercâmbio com o Canadá e o México, trazendo para si a América Central, a América do Sul, inclusive o Brasil. Queria saber do Sr. o seguinte: como o Sr. vê a posição do Brasil dentro dessa nova ordem mundial? Que rumo [palavra imperceptível] o Brasil deve tomar? 

PCO - Eu acho que o Brasil deve estar de fora, sem hostilidade. Mas, de fora! Eu acho que nós somos – nós os da América lusa – já constituímos um conglomerado de regiões e estados muito vasto e, portanto, não precisamos de inserir-nos em nenhuma totalidade mais vasta. Nós somos nós. Nós nos bastamos a nós, e queremos ficar independentes e isolados. 

C.B. - Mas, Dr. Plinio, a tendência hoje apontada por autoridades de todos os países é a tendência da inter-relação econômica e do investimento do aperfeiçoamento das relações internacionais, ou seja, a criação de mercados entre países. Quer dizer, o Brasil não deve participar dessa nova tendência, se articulando a um desses campos? 

PCO - Acho que a pergunta deve ser a seguinte: convém ao Brasil participar? 

C.B. - Exatamente. 

PCO - Não é porque os outros fazem que a gente vai fazendo. O Brasil não é uma nação de maria-vai-com-as-outras.

Devemo-nos perguntar se a nós nos convém. Temos imensidades que, bem exploradas, podem bastar-se a si próprias. Em vez de nós pendurarmo-nos nos outros, no plano político, tratemos de ser nós mesmos em nossa casa. Não precisamos mais do que isso. 

C.B. - Agora, Dr. Plinio, eu queria saber a sua posição com relação a esse conflito que acontece no Golfo Pérsico. Qual a posição da TFP diante dessa guerra? 

PCO - A TFP faz uma distinção entre dois aspectos do assunto. Um é a simpatia que uma pessoa pode ter, por estas ou aquelas razões, por estas ou aquelas nações que estão no conflito. Por exemplo, uma nação como é a nossa, com fortes corrente imigratórias, que conservam vínculos afetivos com seus países de origem, compreendo que possam ter mais simpatia pelo lado árabe ou pelo lado judeu ou pelo lado sei-lá-o-quê, norte-americano etc., que estão envolvidos no conflito. Uma coisa é a simpatia, e outra saber quem tem razão.

Eu acho que no caso concreto – não tenho dúvida nenhuma – há alguém que não tem razão. Este alguém é o Iraque. Por mais que se tenha simpatia pelos árabes, eu compreendo que alguém tenha, admiração até, o Iraque agiu como uma potência totalitária, invasora e belicosa. 

C.B. - Os Estados Unidos também não têm essa tradição de invadir? Invadiu Granada, o Panamá, interviu (sic) no conflito do Vietnam. Os Estados Unidos também não têm “telhado de vidro” nessa questão? 

PCO - Não estamos fazendo no caso um processo para saber se estaríamos estado contra ou pró-Estados Unidos em tais episódios passados de sua História. Temos que tomar posição perante este episódio. Não se trata de fazer uma espécie de Nüremberg abrangendo toda a História americana. E depois também como é a História do Iraque? Por exemplo, o Iraque com o Irã tiveram uma guerra há pouco. Quem teve razão? É muito duvidoso pelo menos. A gente não tem tempo de acompanhar todas essas coisas. O que é preciso é tomar o fato concreto. 

C.B. - O Saddam Hussein seria o principal responsável pelas mortes, pela tragédia que ocorre no Golfo Pérsico, hoje? 

PCO - No caso concreto, não há dúvida! 

C.B. - Qual a posição da TFP? A TFP vai fazer alguma movimentação, lançar algum documento? Vai-se exprimir publicamente pela derrota do Saddam Hussein? 

PCO - Não. Como a TFP não está notando, por enquanto pelo menos, alguma coisa de suas tradicionais posições ideológicas, comprometidas no conflito, ela espera os acontecimentos se desenvolverem. A menos que seja necessário reivindicar os princípios de justiça internacional que foram violados pelo Saddam Hussein. Neste caso, entretanto, a ONU já tomou posição tão clara que não há vantagem em acrescentar a voz da TFP à da ONU. Deixemos a ONU falar. A TFP compreende a situação da ONU, e não compreende a do Saddam Hussein.

Outra pergunta correlata seria: o que eu acho da posição do Gorbatchev e da Rússia em face desse conflito?

Eu digo o seguinte: a posição, também nisto, do Gorbatchev é muito duvidosa.

Ele depende dos recursos que lhe fornece o Ocidente. Vamos falar português claro, ele depende das esmolas generosas e imprudentes que o capitalismo do Ocidente lhe está dando, para não se dissolver no caos e no magma completo da pobreza, a Rússia. Então, ele não pode atacar diretamente o Ocidente. Não pode colocar-se, portanto, do lado do Iraque, claramente. Mas, muito jeitosamente, ao que parece, ele levantou essa questão com os pequenos povos bálticos, de maneira tal que deu manifestações de espírito ditatorial e sanguinário muito declaradas que afastaram dele a simpatia de incontáveis ocidentais.

Bem, e com isso, ele se afastou do Ocidente e agrada o Iraque. Mas não se afastou em tais termos que os governos do Ocidente julguem prudente cessar o fornecimento de dinheiro a ele, e transformá-lo num automático aliado do Iraque. 

C.B. - Quer dizer que o Sr. acha que, no fundo, o Gorbatchov – por mais que ele faça essa política aparente de defesa do posicionamento da ONU – estaria torcendo ou estaria mancomunado com Saddam Hussein? 

PCO - Ele estaria encaminhando as coisas para favorecer Hussein. 

C.B. - O Sr. acredita que o Gorbatchov leva a União Soviética para um regime de liberdade de mercado, um regime em que a propriedade seja respeitada? Ou o Sr. acha que ele está fazendo uma mera maquiagem do regime soviético? 

PCO - Ele está fazendo uma evolução do regime de capitalismo de estado, do comunismo à Stalin, para a autogestão. A autogestão o que é ? É a dissolução da sociedade em pequenas comunas, de maneira tal que o grosso da população habite pequenas comunas rurais; ou forme, nas cidades, pequenos grupos populacionais que se auto-administrem a si próprios. E, com isso, o Estado como que desaparece, porque cada unidade dessas constituiria um como que pequeno Estado. Chegar-se-ia, por fim, à anarquia harmônica, que é o ideal dos anarquistas. 

C.B. - Agora mesmo, Dr. Plinio, o Gorbatchov mandou o Exército – não sei se na verdade foi o Gorbatchov ou a cúpula do Exército soviético – ou o Exército se locomoveu até uma República que está lutando pela sua emancipação. Não me lembro dela agora. Acho que o Sr. sabe mais que eu... 

PCO - Lituânia. 

C.B. - Já esteve na Lituânia, e tratou de forma arbitrária o movimento pela emancipação, inclusive com mortos. Treze mortos, me parece... Isso seria uma contradição? O Gorbatchov, que recebe hoje o prêmio Nobel da Paz, figura de destaque internacional, indubitavelmente e, ao mesmo tempo, está abrindo o regime fechado e burocratizado da União Soviética; e, por outro lado, acontecem atos como esse da Lituânia. Isto seria uma contradição, no seu entender? 

PCO - Eu acho que é uma contradição. E uma contradição na conduta de um homem dessa responsabilidade gera uma suspeita. 

C.B. - O Sr. não acha que deveria, o Sr. um representante... histórico do pensamento da liberdade de mercado, do pensamento em defesa da propriedade, do chamado pensamento da direita no Brasil... o Gorbatchov, hoje, não tende a fazer uma aproximação com o capitalismo, com o pensamento do liberalismo econômico, ou seja, não era mais salutar para o Sr., para a TFP apoiar Gorbatchov? 

PCO - Não! 

C.B. - Sob pena de Gorbatchov ser derrubado, haver um golpe e ganhar a ala mais dura, ortodoxa da União Soviética? 

PCO - A questão é a seguinte: o Gorbatchev fez essas promessas para ganhar dinheiro. Um homem que faz uma promessa no ato de ganhar dinheiro deve ser tido como discutível na sua promessa. Ora o que ele fez com o Presidente Reagan e depois com Bush foi isso. Depois faz com a Alemanha Ocidental, com o Khol, e tudo mais, é isto. 

C.B. - O Sr. acha, então, que é mero interesse econômico de ajuda econômica a do Gorbatchov, no sentido de abrir o Leste europeu? 

PCO - Eu pergunto ao Sr. o que o Gorbatchev fez no sentido de restabelecer a propriedade privada na Rússia? Nada. O que ele fez no sentido de estabelecer a liberdade de comércio? Nada. Quem é que conta o que ele fez? A gente sabe que ele pede dinheiro, recebe e embolsa. Não se sabe mais nada.

Como é que a gente vai confiar nele? 

C.B. - Tá... Ahn... Voltando à questão da guerra. Então, Dr. Plinio, o Sr. acha que o Gorbatchov, na sua posição, é duvidosa com relação ao conflito dos aliados contra o Iraque? 

PCO - É! 

C.B. - Hum-hum... O Sr. dá uma explicadinha... dá uma esticada maior sobre o seu pensamento? Por que duvidosa a posição dele? 

PCO - Eu julgo ter exposto ao Sr.. Ele pede dinheiro para fazer uma determinada coisa, que é a reabertura do comércio, da propriedade privada, da liberdade de mercado. Ele recebe quantias fabulosas para isso e não executa nada.

De outro lado, ele poderia ter começado a fazê-lo. O Sr. veja, por exemplo, na Alemanha Oriental. A Alemanha Oriental era toda comunista. Ela está recebendo subsídios enormes da Alemanha Ocidental, mas está começando a abrir-se para a propriedade privada, para a liberdade de comércio, gradualmente e com inteligência, como os alemães constumam fazer essas coisas. 

C.B. - Todos os países do Leste Europeu estão passando por esse processo: a Jugoslávia, a Polônia... 

PCO - A Polônia, sim. A Tchecoslováquia e a Hungria parece que vão passando por esse processo. Mas na Rússia isso não está acontecendo. Resultado, tem-se toda a espécie de desconfiança. 

C.B. - Essa desconfiança é de quê? É a desconfiança que ele queira, no fundo, manter o regime preceituado pela Constituição soviética, mas num estágio mais radical: não mais o comunismo, mas o anarquismo, ou seja, o socialismo autogestionário. Seria avanço nesse processo do socialismo? 

PCO - Exatamente. 

C.B. - Quando o Sr. falou da guerra... Lembrei-me agora. O Sr. falou (sic) que a guerra não é ideológica. Essa guerra, esse conflito no Golfo que caráter ele tem, se não é ideológico? 

PCO - Essa guerra poderá ter conseqüências ideológicas. Por enquanto, é uma guerra do petróleo. 

C.B. - Guerra de interesses econômicos. 

PCO - Econômicos. Poderá ter um caráter ideológico, se se der um conflito entre árabes e judeus. Então, no fundo, o Sr. terá uma guerra religiosa. 

C.B. - Religiosa... 

PCO - Ainda que a expressão possa parecer muito deslocada no século XX:  uma guerra religiosa! Aí, ela é ideológica. 

C.B. - A União Soviética, com esse processo de oxigenação política por que ela passou, me parece que há uma certa mudança no procedimento dela diante das questões internacionais, das questões mundiais. Por exemplo, no conflito do Golfo, a União Soviética que sempre tomava partido e enviava armas e tropas, ela ficou ausente do processo mais direto de negociação. Nas suas intervenções, Gorbatchov apelou para a paz; tentou negociar junto com o presidente da França, Mitterrand, uma solução pacífica e diplomática, mas não teve participação direta. A União Soviética parece-me que assiste à distância o conflito. Há uma mudança? A União Soviética deixou de ser aquele país aparentemente imperialista para deixar os Estados Unidos sozinho com esse rótulo, com essa conotação daqui para a frente, o país que vai reinar sozinho, ter condições de interferir nos conflitos mundiais, e decidir sobre esses conflitos? 

PCO - Essa pergunta, meu caro, não toma em consideração que ainda há dias um navio europeu – creio que espanhol – apreendeu um navio russo que levava armas para o Iraque. Isso foi denunciado ao mundo inteiro.

Então, onde está a tal neutralidade? 

C.B. - O Sr. acredita que a União Soviética está e continua abastecendo países em conflito, no caso o Iraque, agora? 

PCO - Eu suspeito, mas não tenho provas. Suspeito! 

C.B. - Saindo um pouco dessa dimensão mundial, Dr. Plinio, discutindo mais as questões locais, queria saber o seguinte: a TFP sempre se pronunciou contra a legalização dos partidos comunistas. É uma bandeira histórica da TFP. Hoje, o Brasil tem, nada mais nada menos, do que dois partidos comunistas legalizados, com bancadas no Congresso, atuando junto à população, organizando a população, em movimentos de massa. Existe ainda o PT que tem uma conotação socializante no seu programa partidário. Inclusive, em 89, na primeira eleição direta presidencial, depois de 64, quase elege Presidente da República o Luiz Inácio Lula da Silva, que foi o candidato apresentado por eles. Eu queria saber o seguinte: isso incomoda a TFP? Essa vigência legal dos partidos comunistas e do PT, apresentando essa proposta socializante ao nosso país, incomoda a TFP? 

PCO - Eu ficaria desolado se os partidos comunistas e o PT fechassem as respectivas portas.

Porque, então, teriam pretexto para não comparecer às eleições e não se patentearia a completa quebra eleitoral para a qual eles passaram. 

C.B. - Mas, o PT quase elege o Presidente!... Não pode negar isso, Dr. Plinio! 

PCO - É verdade. Mas, o Sr. não pode negar que depois disso houve o desprestígio da Rússia, o patenteamento completo da pobreza que reina lá e, com isso, um recuo enorme do povo em relação ao comunismo. 

C.B. - O Sr. acredita então que as propostas socialistas-comunistas, no Brasil e no mundo, estão fadadas ao fracasso? 

PCO - Não. Já fracassaram! Veja as últimas eleições para a Câmara dos Deputados o que eles levaram! Um número insignificante de deputados. Desde que o Brasil deixou o regime militar e passou para o regime liberal, democrático, os comunistas não têm tido senão num número insignificante de deputados. E mesmo alguns destes são escondidos, maquiados com legendas de partidos que não são comunistas. 

C.B. - Então, o Sr. defenderia a legalização para que esses partidos fossem desprestigiados, eleitoralmente, pela massa, demonstraria a sua pouca força política eleitoral? 

PCO - Tal e qual. Eu não defenderia a legalização. Mas eu lamentaria que eles fechassem. 

C.B. - Mas, há tempos atrás, o Sr. não pode negar que a TFP era radicalmente contra os partidos comunistas, ou seja, defendia a extinção completa desse tipo de ideologia. 

PCO - Não! É preciso ir devagar. O Sr. está dizendo isso, porque pareceria que estaria na lógica da radicalidade anticomunista da TFP desejar isso. Em certas emergências, a TFP achou necessário fechar o partido comunista. Mas são emergências raras. A TFP, em geral, achou que para o partido comunista o fracasso é deixá-lo concorrer às eleições.

C.B. - Qual a ideologia da TFP? 

PCO - A ideologia da TFP é a sociologia católica tradicional. 

C.B. - A ideologia da TFP é essa que o Sr. está colocando. Mas, digo político: que regime ideal pensa a TFP para o Brasil e para o mundo? Regime político, forma de organização política da sociedade, qual seria a ideal para o Brasil e para o mundo? Que pensa a TFP? 

PCO - Eu começo por achar que não se pode querer impor ao mundo inteiro um só regime. Os regimes variam de acordo com as circunstâncias. Santo Tomás de Aquino ensina que há três regimes igualmente legítimos, segundo a doutrina católica: o regime monárquico que é o governo de um só; o regime aristocrático, que é o governo de uma elite; e o regime democrático, que é o governo do povo. Esses três governos são legítimos. Entretanto, convém mais ou menos a este ou aquele povo, de acordo com as circunstâncias de cada povo. Mas, acrescento que a forma perfeita seria uma justaposição, num Estado, de elementos monárquicos, aristocráticos e democráticos. Cabe a cada povo escolher, o regime que mais lhe convenha. Eu penso inteiramente assim. 

C.B. - Em 93 acontece uma revisão constitucional. Inclusive vai ser discutido um tema com relação à forma de governo: se o governo seria parlamentarista, presidencialista ou até monárquico. A TFP faria campanha pela monarquia? 

PCO - Não. De acordo com o princípio que foi dado, nenhuma dessas três formas de governo colide com a doutrina católica. De acordo com o princípio que enunciei – princípio já ensinado por Santo Tomás, e que o Papa Leão XIII explanou com brilho numa de suas encíclicas – qualquer das três formas de governo é legítima. Portanto, a TFP não tem motivos para tomar posição a favor de uma ou de outra. 

C.B. - Ela não tem preferência por nenhuma das três? 

PCO - Nenhuma das três. Teoricamente falando, diz Leão XIII, a forma ideal é a monárquica. Mas, isso pode convir a um povo e não a outro. Não é necessariamente a melhor para todos os países. 

C.B. - O Sr. não arriscaria a dar um palpite, e dizer qual seria a melhor forma para o povo brasileiro? 

PCO - Repito: a TFP, como tal, não tem posição tomada. Mas, já antes da TFP ter sido fundada, eu era conhecido como um monarquista declarado e não-militante. 

C.B. - Dr. Plinio, o governo Collor agrada à TFP? 

PCO - A sua pergunta é embaraçosa, porque há uma hesitação entre os brasileiros a respeito da possibilidade que tenha o governo de realizar as suas promessas. Ele tem exigido do povo brasileiro duros sacrifícios. Só este bloqueio das contas bancárias e de poupança, já foi um sacrifício duríssimo. Agora, a sua política econômica se orienta de maneira a conseguir, de fato, os objetivos que tem em vista? Eu não sou especialista em matéria econômica, e não tenho segurança a esse respeito. 

C.B. - Quer dizer, a TFP... 

PCO - Não, isto não é a TFP. 

C.B. - Quer dizer, a TFP está “em cima do muro” com relação ao governo, é isso? Seria isso, Dr. Plinio? 

PCO - Se o Sr. considera que toda posição natural consiste em estar “em cima do muro”, o Sr. há de reconhecer que está “em cima do muro” em relação a muita coisa, e que o “muro” é habitado por muita gente. 

C.B. - O Sr. habita o “muro”? 

PCO - Em certos pontos, todo homem sensato habita o muro. [Risos do Repórter] 

C.B. - Então, eu perguntaria ao Sr.: a TFP dá apoio ao governo Collor, mas fazendo uma certa restrição? 

PCO - Não, não, não! Ela presencia de modo atento e interrogativo o curso das coisas. 

C.B. - Dr. Plinio, os militares hoje reivindicam aumento de salário. Já se organizam demonstrando uma certa insatisfação diante deste governo. Os militares compõem um segmento que tem uma certa tradição golpista no país. Imaginemos, numa hipótese, que os militares, desgostosos com este governo, resolvessem tomar o poder à força, e implementar um regime militar autoritário, a exemplo do que foi feito em 64. Que posição tomaria a TFP neste caso? 

PCO - O Sr. vai dizer que eu estou “em cima do muro”. Seria preciso ver como seriam as circunstâncias concretas, para ver se conviria ou não. Eu não sou dos que acham que um regime militar é necessariamente uma abominação. Vou lhe lembrar uma coisa que quase ninguém lembra.

Quando as coisas chegaram a ponto em que um parlamentar declarou impunemente, que num conflito entre ordens que recebesse do Kremlin e do governo brasileiro ele obedeceria àquele, então, se compreende que um militar diga: isso não pode continuar assim.

Portanto, não se pode dizer que qualquer golpe militar é necessariamente um mal. Quanto ao golpe de 64, eu achei que foi oportuno e necessário. Acho que o regime militar cometeu muitos erros. Um destes erros consistiu em que alguns de seus representantes submeteram os comunistas a maus tratos verdadeiramente absurdos. 

C.B. - Alguns mortos, inclusive. 

PCO - Inclusive. Estou no mais inteiro desacordo com isso. Mas deduzir daí que nunca, em caso nenhum se deve apoiar um regime militar é contrário à doutrina de Santo Tomás de Aquino sobre o direito de revolução. No momento presente, eu acho que um golpe militar não teria sentido.

Se o Sr. me perguntar se daqui a cinco anos poderá ter sentido ou não, eu digo ao Sr.: telefone-me daqui a cinco anos. 

C.B. - Ah! Ah!... Saindo da questão política para questão comportamental de costumes. Hoje, a gente vê a banalização do sexo nos meios de comunicação. Vê isso na televisão: cena de sexo, cena de nu. Cenas que chocam determinados segmentos da sociedade brasileira. Como é que a TFP – que se pauta por costumes mais rígidos, mais regrados – encara esse fatos e essa conjuntura nova? 

PCO - Com o maior desagrado e muita apreensão. Desagrado, porque se trata aí de uma violação, grave, séria, dos princípios da civilização cristã e apreensão, porque pode desarticular completamente o Brasil, afundando o país num maremagno de indecência. A esse respeito, a opinião pública começa a se manifestar de modo significativo. Eu recomendo ao Sr. que procure uma organização, que existe em São Paulo, chamada O Amanhã de Nossos Filhos, que está promovendo vitoriosamente um mass mailing muito poderoso junto às autoridades federais, para reprimir essa imoralidade.

Em outros países nota-se uma reatividade do público contra essa onda de permissivismo. Posso citar a ação desenvolvida pelo mass mailing francês do Avenir de la Culture, em Paris, uma das potências da França de hoje, no gênero. Depois, por outros países da Europa, que também estão realizando tais reações com êxito. A Itália, por exemplo.

O Amanhã de Nossos Filhos poderá dar ao Sr. todos os dados sobre a onda de indignação nacional que vai crescendo contra isso. 

C.B. - O Sr. defenderia a censura? 

PCO - Os meios de comunicação que abusam de seus direitos convidam e provocam o poder público a podar, pelo tempo necessário, o exercício desses direitos. Este é um princípio de Direito: quem abusa de seu direito se expõe a ser cerceado no exercício deste. Se a liberdade, que os meios de comunicação reivindicam a altos brados, for lesiva ao bem, é preciso que o país se defenda contra esses meios de comunicação. Mas os culpados serão os próprios meios de comunicação, e não o país. 

C.B. - No início da década de oitenta, a revista “Isto é” publicou uma matéria, uma reportagem, em que um ex-militante da TFP – rapaz que havia ingressado na TFP e depois saiu – fazia sérias acusações à organização, à TFP. Dizia que tinha sido maltratado, que tinha sido proibido de fazer sexo, porque a TFP achava sexo uma coisa imoral; que havia sido treinado para a luta armada; que havia uma prática militar dentro da TFP. Queria saber, primeiro, essas denúncias são verdadeiras? Depois, o seguinte: isso acontece ainda na TFP? 

PCO - Vamos andar devagar. "Proibido de fazer sexo", o que quer dizer? Na TFP, se explica aos respectivos membros que, se quiserem estar na sociedade – (pois não são obrigados a fazer parte da sociedade; entram, se quiserem; saem, quando entendem) – devem praticar a moral católica. Ora, a moral católica estabelece que o ato sexual é lícito, é um ato que está dentro da ordem da Providência para a perpetuação do gênero humano, desde que praticado no casamento. Praticado fora do vínculo conjugal, ele constitui pecado.

Resultado, um membro da TFP pode casar-se.

Temos entre nossos correspondentes numerosas pessoas casadas, e que colaboraram conosco. Temos vários casados nas fileiras da TFP.

Agora, se ele quiser continuar na TFP, mas freqüentar livremente qualquer casa de tolerância etc; se quiser mover-se livremente dentro da corrupção moderna, “fazendo sexo” como o Sr. diz, na TFP não pode ficar. Mas, isto não é coarctar a liberdade de ninguém. É garantir a liberdade da TFP de não ter nas suas fileiras quem tenha um procedimento dissonante dos princípios dela. 

C.B. - E aquelas acusações que o rapaz fez de que havia um treinamento de guerrilha, um treinamento militar dentro da TFP. Isso é verdade? 

PCO - É uma patota. Aliás, tem havido tanta difusão de mentiras da imprensa contra a TFP, que eu já não me lembro, nitidamente, o que a Isto é publicou. Nem me lembro da nossa resposta. 

C.B. - O rapaz falava isso: era obrigado a participar de exercícios militares. 

PCO - Isso é loucura, a maior mentira que pode haver. Não houve nada, nem há nada, de exercícios militares na TFP, feitos com manejo de armas. 

C.B. - Quantos militantes tem hoje a TFP no Brasil, Dr. Plinio? 

PCO - No Brasil, a TFP conta com cerca de 23 mil sócios (no sentido amplo e mais moderno do termo, que abrange também os supporters simpatizantes e quantos tomam parte, de um ou de outro modo, no esforço comum da TFP). 

C.B. - Isso em todos os Estados do Brasil, ou nos Estados onde existe TFP? 

PCO - Existem elementos da TFP mais ou menos em todos os Estados. 

C.B. - A TFP continua participando politicamente do momento da... conjuntura... da discussão... do baixo [?] político do país?... Parece que ela está meio ausente ou não? 

PCO - Não. A questão é a seguinte: O Sr. diz “a TFP está ausente”. A TFP tem a maior dificuldade em obter que os jornais abram suas páginas para ela. 

C.B. - Há um certo preconceito, uma certa censura contra a TFP, nos meios de comunicação, Dr. Plinio? 

PCO - É positivo. É nossa experiência diária: mandamos comunicados, notícias nada é publicado. 

C.B. - O Sr. atribui isso a quê? 

PCO - Não sei, porque não sou quem fecho essas portas. O Sr. pergunte a quem as fecha. 

C.B. - E que atividades, afora essa movimentação que foi feita a favor da motivação da Lituânia, tem feito a TFP, que justificassem notícias, divulgação nos meios de comunicação? 

PCO - Inúmeras. Por exemplo, atividades contra a Reforma Agrária. A TFP é contrária à Reforma Agrária socialista e confiscatória. 

C.B. - Está muito baixo aqui, Dr. Plinio, para ouvir. Reforma quê?... 

PCO - Reforma Agrária socialista e confiscatória. 

C.B. - A TFP está lutando contra a Reforma Agrária socialista e confiscatória? Lutando de que forma? 

PCO - Por meio de livros, de folhetos etc., que não conseguindo divulgação nos jornais têm como conseqüência que esses livros são difundidos por caravanas da TFP. Estas percorrem continuamente o território nacional. Nos últimos dez anos, fizeram o percurso que, somado, daria cinco vezes, ida e volta, o trajeto do mundo à lua. São campanhas sempre pacíficas e ordeiras. Nós temos guardados em nossos arquivos mais de quatro mil atestados de autoridades policiais, judiciárias ou municipais sobre a perfeita lisura e caráter pacífico das campanhas da TFP.

Ninguém responde a não ser por meio do silêncio.

A TFP, entretanto, percorre, nesse sentido, o Brasil inteiro, o que explica um fato que é record: a TFP tendo a mídia quase toda fechada para ela, entretanto é uma das organizações mais conhecidas do Brasil. O Sr. conversa com qualquer pessoa na rua, numa grande cidade como São Paulo ou Rio, ou numa Caixa Prego qualquer como as há tantas em nosso território, não encontrará um lugar onde não haja gente que não conheça a TFP. 

C.B. - Agora, Dr. Plinio, com todo o respeito, a TFP é uma entidade – isso desde criança eu ouço e as pessoas ouvem – conhecida como de extrema-direita, reacionária, fascista, que defende os regimes autoritários e antipopulares. A TFP é tudo isso mesmo? 

PCO - Que idade o Sr. tem? 

C.B. - 33 anos. 

PCO - Bem, 33 anos. A TFP tem mais ou menos 30 anos. O Sr. seria mais ou menos gêmeo da TFP. Antes do Sr. existir, já a TFP existiu sob a forma de um grupo cujos membros escreviam sucessivamente em dois órgãos católicos. O primeiro deles foi o semanário Legionário, oficioso da Arquidiocese de São Paulo, do qual eu fui diretor. Depois, esse jornal fechou-se, e começou-se a editar um  mensário chamado Catolicismo, do qual eu fui continuamente colaborador.

Em um e outro órgão, mas sobretudo no Legionário, mantivemos uma guerra acesa contra o nazimo e contra o fascismo. Se o Sr. quiser, vindo a São Paulo, pode procurar essas publicações em nossa coleção.

Além disso, há teses elaboradas e defendidas em Universidades, que se referem a essa luta contra o nazi-fascismo. Esses pesquisadores universitários nos têm procurado. E nós lhes franqueamos de bom grado as coleções que documentam nossa história. E em suas conclusões eles reconhecem que nós combatemos arduamente o fascismo e o nazismo.

Nessas condições, somos exatamente o contrário do que se diz. Apesar disso, essa mentira continua a circular or-ga-ni-za-da-men-te. 

C.B. - Dr. Plinio, o Sr. colocou a questão da Lituânia como sendo a questão que está sendo tratada pela TFP e a questão da Reforma Agrária socialista e confiscatória. Que outros temas a TFP está se empenhando em divulgá-los, debatê-los, ou até em se colocar contra os temas? Que outros temas, afora a Lituânia e a Reforma Agrária? 

PCO - O Catolicismo continua a publicar-se sob a forma de um mensário em declarada ascensão. Esse órgão dá todos os meses a opinião da TFP sobre os mais variados temas. Se o Sr. me der seu nome e seu endereço... 

C.B. - A TFP foi fundada quando e por quem? 

PCO - Ela foi fundada por um grupo de amigos, dos quais, de longe, o mais velho era eu. Por causa disso, era o chefe natural do grupo. 

C.B. - Quem eram os amigos que fundaram? 

PCO - Os amigos que constituem hoje o Conselho Nacional da TFP. São mais ou menos umas dez pessoas. 

C.B. - O Sr. é um dos fundadores? 

PCO - Eu é que tive a iniciativa de fundar a TFP, que lhe dei o nome, e reuni os amigos que constituíram seu primeiro núcleo. Ademais sou o Presidente do Conselho Nacional da TFP. 

C.B. - Está certo. Presidente Nacional? 

PCO - Nacional. 

C.B. - A TFP tem articulações internacionais? 

PCO - A TFP foi fundada no ano de 1960, em São Paulo. A TFP existe no Brasil. Mas com base em meu livro intitulado “Revolução e Contra-Revolução”, que publiquei em 1959, teve origem a fundação das TFPs. Esse livro foi traduzido para quase todas as línguas do Ocidente, e despertou a fundação de TFPs em vários países. As TFPs existem assim em vinte países. 

C.B. - E o Sr., representando a TFP do Brasil, mantem intercâmbio com essas outras entidades? 

PCO - Numa relação contínua de entidades co-irmãs, mas inteiramente autônomas. 

C.B. - Existe lá na União Soviética TFP? 

PCO - Não, porque não há nenhuma garantia para isso. 

C.B. - Nos países socialistas não existe TFP? 

PCO - Por enquanto, ainda não. Logo que tenhamos oportunidade, o Sr. querendo, eu lhe aviso da primeira TFP que tenha começado a existir naquele mundo. E o Sr. ficará sabendo que existe liberdades nesses países. 

C.B. - O Sr. publicou quantos livros, Dr. Plinio? 

PCO - Publiquei, mais ou menos, não fiz a conta exata, uns dez livros. 

C.B. - Todos versando sobre a TFP e questões, geralmente, ideológicas. 

PCO - Ideológicas, sim. Um desses livros, que causou mais rumor, foi um intitulado "Em Defesa da Ação Católica". Eu o publiquei nos anos 40. Foi ele objeto de uma saraivada de críticas da esquerda católica, mas recebeu uma carta de louvor do Papa Pio XII, escrita em nome dele pelo Cardeal Montini, Secretário de Estado, em nome dele. Esse Cardeal veio a ser depois o Papa Paulo VI.

Outro estudo que publiquei foi A Liberdade da Igreja no Estado comunista”, provando que ela não era possível. Ela me valeu uma carta de louvor do Cardeal Secretário da Congregação dos Seminários, Cardeal José Pizzardo. Era assinada também pelo futuro Cardeal Dino Staffa. Assim, as minhas publicações têm sido por algum lado muito louvadas e, por outro, muito combatidas. Pela esquerda católica, já se vê...

O Sr. fez-me uma pergunta a respeito da extrema-direita e eu não respondi, porque o Sr. me fez logo depois outra pergunta. 

C.B. - O Sr. pode responder agora. 

PCO - Respondo agora. O que é uma extrema-direita? É uma organização que está mais à direita de todas as outras que existem.

Quando é que uma organização deixa de ser da extrema-direita? Quando se funda uma mais ainda à direita. Bem, a TFP é uma extrema-direita? É uma organização que está mais à direita das que existem no Brasil. Não quer isto dizer que seja uma direita exagerada. O Brasil é um país de centro-esquerda, e a TFP é uma direita equilibrada, direita pacífica, direita categórica, coerente consigo mesma, mas que não chega a nenhum excesso. 

C.B. - Agora, essa direita que é a TFP, ela respeitaria a existência e a convivência com a esquerda? 

PCO - Já lhe respondi a propósito do partido comunista, meu caro. 

C.B. - Mas, queria saber agora. O Sr. coloca que aceita o partido comunista como uma forma de mostrar a sua falta de força. Mas, imaginemos que o partido comunista ou os partidos comunistas ganhem espaço junto à opinião pública e cresçam. O Sr. admitiria a hegemonia do partido comunista? E admitiria a convivência dessa sua direita com o partido comunista, com mais força? 

PCO - Por que o Sr. não leva a sua pergunta até o fim? Agora, sou eu que estou lhe entrevistando.

A pergunta é a seguinte: No caso de uma votação majoritária que se pronunciasse a favor do regime comunista... 

C.B. - Exatamente. 

PCO - ... o Sr. aceitaria esse regime? 

C.B. - Exatamente. O Sr. aceitaria um partido comunista no poder eleito pelo povo?

PCO - A minha resposta é: não! 

C.B. - Não aceitaria. 

PCO - Não aceitaria, por quê? Porque está na natureza humana ter direitos imprescritíveis que a ninguém é lícito tirar. Nem as massas têm esse direito. Se viesse, por exemplo, uma votação que estabelecesse a pena de morte para crianças, o Sr. aceitaria? Não. Embora, fosse uma maioria, seria uma monstruosidade, contra a ordem natural das coisas. 

C.B. - Então, o Sr. acredita que a democracia... 

PCO - Meu caro, deixe-me falar. 

C.B. - Pois não. Desculpe-me. Dr. Plinio pode continuar. 

PCO - É contra a ordem natural das coisas que isso seja executado. Então, a democracia vale, na medida em que ela não abuse. O abuso é contestar a ordem natural. Se eu sou dono de uma coisa, e a maioria acha que me deve arrancar, sem nenhum direito, eu defendo-me, porque essa maioria passou a ser uma maioria ladra. 

C.B. - Então, o Sr. entende que não é ordem natural o socialismo e o comunismo estar no poder? 

PCO - Ah, não é. Eles são contra a ordem natural. É doutrina católica. Não sou eu que entendo. 

C.B. - Por que é contra a ordem natural... Está certo. Agora, Dr. Plinio, o Sr. está com quantos anos de idade, mesmo?! 

PCO - O Sr. vai ficar pasmo: 82! 

C.B. - 82, com esse raciocínio lógico e organizado todo que o Sr. tem ainda. Então, o Sr. está muito bem de saúde, não está? 

PCO - Passavelmente. Vivo bem, graças a Deus. Se o Sr. for veraz, há-de confessar que não sou homem iracundo, mas bem humorado. 

C.B. - [O C.B. entendeu mal.] O Sr. não é mal-humorado, não. Pelo menos, o Sr. demonstrou na entrevista que é uma pessoa solícita. 

PCO - Mas, o que corre por aí é que sou uma fera. 

C.B. - É mesmo?! Por que as pessoas acham o Sr. uma fera? 

PCO - Porque há alguns que dizem que eu sou. 

C.B. - Mas, por quê? O Sr. já se portou assim? 

PCO - É a difamação... 

C.B. - O Sr. já se portou como uma fera? 

PCO - Não. Eu me portei como um homem que exerce sua autoridade. Fui professor muitos anos, exigia a disciplina na aula. Exigia que meus alunos estudassem. 

C.B. - O Sr. foi professor do quê mesmo? 

PCO - Fui professor de História na Universidade Católica de São Paulo, Faculdade de S. Bento e de Sedes Sapientia e na Faculdade de Direito do Largo S. Francisco, eu fui professor da História da Civilização, do C. Universitário da Faculdade de Direito. O Sr. vai pensar que os meus alunos me achavam uma fera. Então, vou-lhe contar um caso, de que deve ter documento nos meus arquivos.

Uma vez eu fui professor de uma turma em que quase todos os meus alunos eram judeus e residentes em Mogi das Cruzes. Vinham a São Paulo assistir às aulas e voltavam.

O diretor do Colégio no fim do ano procurou-me, dizendo que tinha uma mensagem dos alunos a respeito de minhas aulas. Ele disse-me de modo muito risonho que tinha um pedido da unanimidade da turma para eu ser encarregado de acompanhar a turma no Curso de História do ano seguinte, porque estavam muito entusiasmados e satisfeitos com o Curso de História. Como era um documento que me agradaria muito, ele me queria dar. Deve estar no meu arquivo. Esta é a “fera”... 

C.B. - Então, o Sr. deveria estar sujeito a difamações gratuitas. 

PCO - E sistemáticas. 

C.B. - Quem estaria interessado em ofender o seu caráter, o seu procedimento? Quem estaria interessado em desgastar a sua imagem, Dr. Plínio? 

PCO - O Sr. fez muito bem em falar em minha imagem. Porque, quanto ao meu caráter propriamente dito, nunca se disse nada. Como homem de caráter nunca se atacou a mim. Mas, se ataca muito a minha imagem.

Quem faz? São aqueles que não querem a ordem, a tradição, o rigor dos princípios morais tradicionais etc. Então, certas atitudes que tomo, não lhes agradam.

Eu lembro-me uma ocasião na Faculdade de Direito, também um fatozinho pitoresco. Eu estava lecionando na sala João Mendes. O Sr. conhece a Faculdade de Direito de S. Paulo? 

C.B. - Não, não conheço. 

PCO - É uma sala no andar térreo, com uma porta enorme que dá para um páteo. Ela tem assim várias folhas que se abrem e fecham. Eu estava dando aula, quando chega o bedel, e me avisa baixinho: "Professor está declarada uma greve de alunos. Eles daqui a pouco vão fazer barulho em sua porta, para o Sr. também suspender sua aula". Eu disse-lhe: "Eu não cedo a pressões demagógicas. Estou dando a minha aula, e a darei até o fim". O bedel: "Professor, ninguém resiste. Eles arrombarão a porta". Eu disse: "Você fique junto à porta, e espere. Quando eles chegarem lá, venha receber instruções".

Ele ficou junto à porta, e daí a pouco lá chegaram os grevistas. Começaram eles a bater na porta. Eu continuei a dar a aula impávido. Em certo momento, eles começaram a fazer força para arrebentar a porta. Aí eu disse ao bedel: "Abra a porta!"

O bedel abriu a porta largamente, e apareceu um maço de alunos. Eu interrompi a aula, e lhes perguntei: "O que é?" Mas falei com severidade. Eles ficaram, assim, parados, e os chefes do grupo responderam: "Não é nada, não." Eu disse-lhes: "Então, vão embora". Eles foram-se embora. Naturalmente, alguns deles devem ter dito que eu era uma fera. 

C.B. - Uma fera. 

PCO - Mas eu mantivera tão só o princípio de autoridade, simplesmente. 

C.B. - Está certo. Dr. Plinio, o seu dia hoje é preenchido como? O que o Sr. faz no dia-a-dia? 

PCO - Eu me levanto por volta das dez da manhã, e me deito às três e meia ou quatro da noite. 

C.B. - Da madrugada. 

PCO - Da madrugada. Entre uma coisa e outra, eu consagro mais ou menos uma hora, ou hora e meia, à oração. O resto do tempo não faço senão trabalhar na direção da TFP. Não tenho outra ocupação, nem loto o tempo noutra coisa. 

C.B. - O escritório da TFP funciona aonde, aí em São Paulo? Qual o nome do prédio e da rua, o endereço? 

PCO - Rua Maranhão, 341, bairro de Higienópolis. 

C.B. - O escritório é grande? A sede é grande? 

PCO - É uma sede grande, um prédio confortável e antigo. Venha. Venha visitar essa sede. 

C.B. - Eu queria saber uma coisa, Dr. Plinio: com esse aparente apaziguamento, aqueles atritos entre esquerda e direita antes da plena democratização do país, naqueles momentos, quando os embates ideológicos eram mais vivos, a TFP tinha uma participação maior. Agora que o País está democratizado e aparentemente em calma, com as instituições funcionando legalmente – Executivo, Legislativo e Judiciário – o governo eleito pelo povo, os partidos de direita, centro e esquerda funcionando legalmente, sem maiores problemas, ou seja, com essa conjuntura de tranqüilidade, a TFP parece que perdeu certo peso nacional. A TFP só cresce nos momento de atrito, de embate ideológico? 

PCO - Essa pergunta, baseada na impressão de que a TFP perdeu alguma coisa de seu peso, eu a ouço, a bem dizer, desde quando a TFP se fundou. De maneira que, se fosse verdadeira, deveria ter um peso negativo. [Riso do repórter].

A verdade é que esse é um dos boatos que se espalham. Pelo contrário, a TFP está em plena atividade e continuamente. Se o Sr. vier visitar a TFP, terá ocasião de ver as pessoas, de ver a sede... 

C.B. - A TFP está mais ou menos satisfeita com o regime que vigora no País, regime de liberdades democráticas, regime de possibilidades de decisão – até certo ponto – do povo nas decisões? A TFP considera-se resolvida a nível de regime político: "Olha, este regime está satisfazendo a TFP". É isso que pensaria o Sr.? 

PCO - O Sr. está sendo amável, e não está indo ao fundo da pergunta. 

C.B. - Qual seria então? 

PCO - O Sr. está dando a entender aí que a TFP bem poderia  se fechar, porque se já está feito tudo quanto ela quer...

O Sr. dá a entender aí que a TFP bem poderia fechar as portas, porque se lhe foi concedido tudo quanto ela poder querer, ela que liberte a atmosfera da presença dela. 

C.B. - Não é bem isso. Mas, eu pergunto ao Sr.: "Esse regime que está em vigor no Brasil satisfaz plenamente a TFP? 

PCO - De nenhum modo. Mas, o Sr. quer ver como são as coisas? O Sr. de que Estado é? 

C.B. - Sou paraibano. 

PCO - Viva! Meu pai era pernambucano. É de perto da Paraíba. Como jornalista – estou vendo que vivo e desembaraçado como todo o paraibano... 

C.B. - Muito obrigado, Sr. Dr. Plinio. 

PCO - É um predicado que nem todos os pernambucanos têm, e que torna muito pitoresco o paraibano.

Afinal de contas, o Sr. que é assim vivo e informado, diz que a TFP não está agindo e ignora as atividades da TFP. Sobre o regime vigente, eu escrevi um livro. Esse livro foi vendido em São Paulo e em todo o Brasil no ano de 87. Seu título é "Projeto de Constituição angustia o País", edição extra de "Catolicismo”, com 60 mil exemplares de tiragem.

Nesse livro faço severas admoestações e observações, não contra o regime, mas contra o modo pelo qual este vem sendo vivido por nós, porque salvo as raríssimas exceções, a classe política é, entre nós, a-ideológica. A propaganda que os políticos fazem costumeiramente é da respectiva cara. Eles não apresentam um princípio, não dão uma meta, não articulam nenhum programa. É uma cara com bigodinho, sorrindo. Ou outra cara, com olhar wagneriano, como quem promete ao Brasil um futuro gigantesco. E daí para fora. São caras, caras e caras; nomes, nomes e nomes... e só.

Eu me lembro de um candidato – eu falei de Wagner há pouco, vamos usar um pseudônimo de alguém que não existiu: "Parsifal é federal". Quer dizer, Parsifal é candidato a deputado federal. Mais nada. A cara dele era o único argumento para ser eleito.

De onde decorre isto que é o maior sintoma da inautenticidade da democracia: o voto obrigatório. O voto obrigatório é mais ou menos a mesma coisa que, quando o indivíduo oferece um jantar, os convidados serem obrigados a comer o que ele oferecer. Isso quer dizer que ele sabe que a comida é ruim. 

C.B. - O Sr. defende o voto livre? 

PCO - O voto livre, de tal maneira que, quando o povo está em desacordo com os candidatos oferecidos pelos partidos políticos, ele possa não votar, e, assim, obrigar os partidos a apresentar uma tabela, uma lista de candidatos que o povo queira engolir. O voto obrigatório é a maior coerção que se faz contra a opinião pública.

O Sr. sabe qual foi a tiragem desse livro em que eu dizia isto? Foi vendido em praça pública por elementos da TFP. Houve dias em que chegou a ter a tiragem de mil exemplares por dia. 

C.B. - É mesmo?! 

PCO - Mas, o Sr., em seu escritório de Brasília não sabia disso. Eu não o culpo. 

C.B. - Devia ter penetrado nos meios de comunicação. Não vou ser eu o culpado por isso, certamente. Enquanto jornalista me oriento pelos veículos legais, que são: os jornais, os livros, as publicações, as revistas e todas as publicações que estão sendo apresentadas ao público. Neste sentido, a TFP não tem tido espaço suficiente para que essas informações... 

PCO - Cheguem ao Sr.. 

C.B. - ... Então... 

PCO - Não estou lhe culpando. Estou querendo que o Sr. desconfie de que a realidade não cabe inteira na mídia. E que a mídia tem o que, outrora, se chamavam "patrulhas ideológicas" que impedem certas coisas de circular. Depois, chama-se isto democracia. É uma democracia inautêntica, controlado pela mídia, de um lado; e, de outro, obrigando o povo a votar numa lista de candidatos que ele não quer. 

C.B. - Em que candidato para Presidente da República a TFP votou? 

PCO - Collor. 

C.B. - O Sr. falou dos políticos. A classe política não agrada à TFP, Dr. Plinio? 

PCO - A presente classe política não tem o entusiasmo de ninguém no Brasil. 

C.B. - O Sr. vê saída que não seja através da política para o País? 

PCO - A saída seria que os que vêem a situação como eu, falassem. Eu não vejo que falem. Eu, que falo, sou boicotado. 

C.B. - Está certo. Dr. Plinio, então muito obrigado pela atenção. 

PCO - Eu tive muito gosto em conversar com o meu entrevistador paraibano. 

C.B. - O prazer foi todo meu.


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