24 de julho de 1968

Entrevista para a Rádio Tupi - São Paulo, para o programa "Música muito importante"

Rádio Tupi - ... Defesa da Tradição, Família e Propriedade.

Plinio Corrêa de Oliveira A Sra. vê que o título é ultraconservador.

RT - Entrevistador: O Sr. nunca foi à televisão?

PCO - Já. Tive até uma vez um debate com o Paulo de Tarso. Quais são as perguntas que a Sra. quer fazer?

RT - Não. Vou perguntar desde quando começou esse movimento etc., porque eu estou por fora. Para mim é surpresa. Existe há pouquíssimo tempo, não é isso?

Bem, agora está gravando: Alô. Temos a satisfação de receber em nossos estúdios o Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, que está à testa da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Boa tarde, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, como está?

PCO - Bem, obrigado. Tenho muito prazer em falar por esse programa, em saudá-la e me dispor às perguntas que a Sra. queira me fazer para os senhores telespectadores.

RT - Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, o povo está assim meio surpreso com essa Sociedade Brasileira de Defesa de Tradição, Família e Propriedade. Inclusive tenho ouvido muitos comentários e muita gente não está a par, não conhece essa Sociedade Brasileira. Eu queria saber há quanto tempo existe e qual é a finalidade.

PCO - A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade existe desde 1960 como pessoa jurídica, considerada de utilidade pública pelo governo do Estado de São Paulo. Ela tem como finalidade específica, no campo cívico, de lutar contra o socialismo e o comunismo, de modo positivo e de modo negativo. De um modo positivo, realçando os três valores que o comunismo e o socialismo põem em cheque, que são: a tradição, a família e a propriedade. De um modo negativo, fazendo a publicação de obras que ponham em evidência os erros e os inconvenientes do socialismo e do comunismo. Essa Sociedade, assim, já realizou várias campanhas e eu tenho certeza que os telespectadores, ouvindo falar dessas campanhas, se lembrarão certamente do nome dessa Sociedade.

[A repórter diz ao entrevistado que é preciso começar tudo de novo.]

RT Alô. Temos a grande satisfação de receber o Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, Presidente da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Boa tarde, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, como está?

PCO - Bem, obrigado. Eu aceito com muita satisfação seu amável convite para falar aqui aos ouvintes da Rádio Tupi.

RT - Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, parece que o povo paulista ainda não está bem a par da finalidade da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. E eu, como jornalista, tenho encontrado com pessoas que nem acreditam que exista essa Sociedade. Eu não sei se o Sr. sabe que tem acontecido isso.

PCO - A mim me causa um pouquinho de surpresa, porque a Sociedade, por várias atividades que tem realizado, é muito conhecida. Mas eu aproveito a oportunidade para torná-la ainda mais conhecida do que já é, através da Rádio Tupi.

A Sociedade tem realizado algumas campanhas e eu estou certo que as pessoas que eventualmente não se lembrem do nome da Sociedade, a conhecerão através da menção dessas campanhas. A Sociedade foi fundada em 1960 e já a partir de 1962 nós começamos a nos empenhar numa campanha muito grande contra a Reforma Agrária socialista e confiscatória.

Eu estou certo de que muitos dos senhores ouvintes da Rádio Tupi devem lembrar-se do livro Reforma Agrária - Questão de Consciência, que foi publicado nessa ocasião, mais especialmente em 1964, da autoria de Dom Geraldo de Proença Sigaud, arcebispo de Diamantina, Dom Antônio de Castro Mayer, bispo de Campos, eu mesmo e do economista Luís Mendonça de Freitas. Esse livro, que foi um best-seller no momento, em quatro meses tirou quatro mil exemplares, o que é muito raro para uma obra de caráter doutrinário-técnico-econômico.

Esse livro marcou profundamente no debate agro-reformista e, creio eu, foi um dos elementos fundamentais para evitar que o Brasil tivesse uma reforma agrária socialista e confiscatória em vigor.

Posteriormente a isso, no ano de 1966, a Sociedade fez um grande abaixo-assinado contra o divórcio que ia ser aprovado na Câmara dos Deputados por um projeto de Código Civil introduzido pelo governo Castelo Branco. Nós realizamos esse abaixo-assinado, o maior da história brasileira, e obtivemos em menos de duas semanas 500 mil assinaturas. Chegamos a um milhão de assinaturas e o governo retirou o projeto. De outro lado, o público paulistano deve conhecer muito as bancas de nossos jovens vendendo obras anticomunistas. São jovens que se apresentam com um estandarte rubro, marcado com um leão dourado, onde se encontram inscritas as palavras: Tradição, Família e Propriedade. Então, ligando essas várias imagens, que devem estar na memória de vários dos senhores ouvintes da Tupi, eu reapresento a Sociedade e estou disposto a responder às perguntas que a amável repórter queira fazer.

RT - Dr. Plínio Corrêa, o grupo da Sociedade de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, digamos, é um grupo que trabalha voluntariamente?

PCO - A Sra. entende "voluntariamente" em que sentido?

RT - Que não perceba nenhum salário.

PCO - Nesse sentido, não tem dúvida. Quer dizer, nós temos um ou outro funcionário de secretaria, que toda organização tem. Mas os militantes que se apresentam em rua para fazer a propaganda das nossas obras, os diretores da Sociedade etc., não recebem salário nenhum.

RT - Dr. Plínio, parece que há uma parte da imprensa que está expondo a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, em termos meio antipáticos. Como é que o Sr. tem recebido isso?

PCO - Ontem mesmo nós publicamos um comunicado nos principais jornais de São Paulo, em que pusemos em realce que em alguns jornais - é preciso também não exagerar - em alguns jornais a acolhida dispensada à Sociedade e o noticiário da Sociedade é - vamos dizer - é, pelo menos, sem imparcialidade; falta-lhe a imparcialidade, que é própria à imprensa verdadeiramente informativa. No que consiste essa parcialidade? É que notícias de críticas feitas à Sociedade são publicadas com muito realce.

Pelo contrário, as notícias da Sociedade ou não são publicadas, ou são publicadas com um espaço mínimo e com uma apresentação gráfica muito ruim. Assim, por exemplo, nosso abaixo-assinado que já passou de trezentos mil assinantes no Brasil inteiro, e que vai atingir certamente um total igual ou maior do nosso abaixo-assinado do divórcio, constituirá, com o abaixo-assinado do divórcio, os dois maiores abaixo-assinados da história brasileira.

Ora, órgãos de imprensa que consagram, às vezes, a fatos mínimos - um homem que caiu na rua e quebrou a perna ou qualquer outra coisa - noticiário relativamente extenso, noticiam isso em caracteres minúsculos. Mas imediatamente ao lado, com caracteres grandes e com títulos de muito realce, colocam críticas feitas à Sociedade. A mim não me cabe, de modo nenhum, indagar quais as razões dessa atitude. Eu devo simplesmente dizer que essa atitude sendo parcial, - mas conhecendo eu o temperamento afável e a cordura que caracteriza o trato do nosso povo - eu fiz um apelo cordial a essas folhas para que mudassem de orientação e posso dizer que algum efeito esse apelo já teve. Aliás, me compraz em dizer que o "Diário de São Paulo" tem tido a esse respeito uma atitude muito correta.

RT - Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Sociedade é subvencionada por quem?

PCO - A Sociedade se mantém fundamentalmente com o recurso de seus sócios. Entretanto, para suas obras de assistência, quando tem necessidade, recorre aos donativos do comércio. Quando terei oportunidade de dizer daqui a pouco, ela às vezes precisa de alguma contribuição em gêneros para seu restaurante sem fins de lucro; ou ela precisa de móveis para suas pensões, que também não visam lucro, etc., então ela pede artigos desses para os produtores ou para os intermediários.

RT - Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, dizem que a sede da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, lá na rua Pará, é uma sede elegantérrima, que lembra os móveis e o gênero... o estilo da sede lembra assim o tempo da monarquia. É verdade que os associados são rapazes aristocratas e muito ricos? Há veracidade nisso?

PCO - A sede não é como a Sra. diz "elegantérrima"; é uma sede confortável e bem mobiliada. Esta sede está franqueada ao uso de todos os membros e militantes da Sociedade. Esses membros e militantes pertencem às mais diferentes classes sociais. Nós temos pessoas que são realmente das camadas mais abastadas da população, temos pessoas de classe média, temos operários, temos tudo. E todos freqüentam algumas das nossas sedes.

Nós temos entre sedes, pensões e restaurantes, 17 em São Paulo. Esta sede central, que a Sra. alude que é a mais bem instalada, está franqueada a todos os de nossas sedes regionais. E nós vemos nisso uma vantagem para as pessoas também de classe social mais modesta, porquanto eu estou em desacordo com a opinião de que ao povo só se deve dar, sob pretexto de popularidade, coisa vulgar. O povo, ainda mais um povo intuitivo e inteligente como o povo brasileiro, é capaz de compreender o bom e o melhor e lucra com isso.

Já foram feitas experiências, por exemplo, de que o povo aprecia muito música clássica. É um erro pensar que ele aprecia apenas a música popular, que também é legítima e tem sua razão de ser. Então, na nossa sede esses rapazes se beneficiam, rapazes de todas as classes, de um ambiente verdadeiramente de um apurado bom gosto.

RT - É. Infelizmente que eles muitas vezes não podem ter em casa. O Sr. sabe o nosso salário mínimo a quantas anda.

PCO - É bem verdade. Se eles pudessem ter em casa não valia a pena nós termos aqui para eles. Nós temos aqui para eles porque eles não podem ter em casa.

RT - Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, qual é a sua cantora predileta.

PCO - Inezita Barroso.

RT - E o cantor que o Sr. mais aprecia, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, qual é?

PCO - Silvio Caldas.

RT - Agradecemos a presença do Dr. Plínio Corrêa de Oliveira em "Música muito importante", na Rádio Tupi de São Paulo.

PCO - Sou eu que agradeço a gentileza da entrevista e ao terminar gostaria de ressaltar aquilo a que me referi apenas de passagem que são as obras sociais da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Sociedade. Nós existimos em 50 cidades do Brasil e tendemos a nos ramificar para outras cidades ainda. Nelas todas tendemos a ter, e já temos em várias, além de ambulatório médico gratuito para os militantes, restaurante gratuito para os militantes, restaurante sem fito de lucro para os militantes, que são todos eles jovens universitários, estudantes, operários ou comerciários.

RT - Muito obrigada, boa tarde.