Plinio Corrêa de Oliveira

 

O Minueto de Boccherini:

Uma visão sublimada e transcendente

  da realidade

 

Conversa, 1974

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

* Comentários sobre o minueto de Boccherini

 Eu não chegaria a dizer que a teoria que vou dar é válida para qualquer minueto. Talvez seja, mas eu não ouvi com senso crítico um número suficiente de minuetos, nem tive tempo para pensar bastante sobre a questão, para fazer uma afirmação genérica quanto aos minuetos.

Mas ao menos quanto ao minueto de Boccherini – que para mim é "o minueto", nenhum é minueto como o de Boccherini –, [ele] tem qualquer coisa no sentido de uma revista. Não é nem um pouco uma revista de tropa, mas é uma revista. Em que sentido uma revista?

Versalhes - Galeria dos Espelhos

Nós devemos imaginar uma sala de corte, o rei e a rainha nos seus tronos, os príncipes e as princesas da Casa Real em poltronas, os duques e pares – tão caros a Saint-Simon – em poltronas e tabourés sucessivamente, os príncipes em poltronas e os duques em tabourés; e devemos imaginar como se fazia o minueto em Versalhes, com a Galeria dos Espelhos, de um lado e outro, com arquibancadas com pessoas da nobreza ou da alta burguesia de Paris postas para verem dançar o minueto.

E então entrarem os pares vindos, digamos, do fundo da sala ou de uma sala ao lado, entrarem dançando o minueto, fazendo reverências uns para os outros, fazendo a reverência diante do rei quando passavam diante do rei, e circulando de novo. Era a corte, celebrando um ato, que era um ato – se quiserem – lúdico. Quer dizer, um jogo, um ato lúdico – não lúbrico, entendam bem – um ato lúdico no qual as pessoas eram passadas em revista no seu charme, no seu esplendor, na sua maior graça, na sua maior beleza, para a corte ter a fisionomia de si mesma, e deleitar-se com "ser" aquilo. Isso era propriamente o minueto.

É preciso notar que esses minuetos, muitas vezes, eram altamente hierarquizados: em tal momento o Duque de Sagan faz tal cumprimento para Madame la Princesse La Roche Bruyon, e lá vai aquela coisa. E mais adiante Madame la Princesse La Roche Bruyon faz tal cumprimento assim para o Duque la Rochefoucauld. Isso se espalha, a reciprocidade dos cumprimentos se multiplica como uma harmonia pela sala indicando uma harmonia de relações sociais – e uma harmonia hierárquica, porque harmonia quer dizer hierarquia – juntamente com a harmonia dos gestos, harmonia das atitudes, a beleza dos trajes, o esplendor das jóias, a nobreza das expressões fisionômicas, dos sorrisos, etc., etc.

Seria um pouco como um exército que precisa organizar uma grande revista para ver-se a si próprio. E o ver-se a si próprio, nesse sentido – não é como o de um homem faceiro e sobretudo uma mulher faceira que olha no espelho para ficar envaidecida consigo – é o conhecer a sua própria face para ver que perfeição Deus pôs nessa face, e amar a Deus em si. Isso é um alto grau de tomar consciência de si, e é uma coisa que no fundo tem um sentido religioso. 

* O minueto perfeito teria o esplendor de uma verdadeira cerimônia da corte, a graça de uma afabilidade, de um sorriso, de uma concepção amena da vida que fosse contrapeso do esplendor

 Agora, nesse estado de espírito, na situação cultural, etc., etc., do tempo do minueto, havia uma necessidade de fazer as coisas com muita solenidade, mas uma verdadeira necessidade de compensar essa solenidade com muita graça, com muito charme. E o minueto perfeito seria o que reunisse o esplendor de uma verdadeira cerimônia de corte com a graça de uma  afabilidade, de um sorriso, de uma concepção amena da vida que fosse o contrapeso do grande esplendor a que a vida tinha chegado, porque a vida tinha chegado a um tal esplendor que massacrava o homem se ele não tivesse esse complemento.

E Watteau [1] era, não um corretivo, mas o contrário, o oposto harmônico da majestade introduzida por Luís XIV em todas as coisas e que, em muitíssimos pontos, Luís XV e Luís XVI evidentemente continuaram.

Vê-se a coexistência de uma grande seriedade e, depois, de um sorriso, mas de um sorriso profundamente sério, porque é um sorriso de quem sabe quem é, e que do alto daquilo que é, por gentileza e bondade sorri como quem diz: "eu sou tudo isto, e é tudo isto que sorri para você". Não é, portanto, o sorriso do peralvilho que anda pela rua – eu escolho a palavra porque ela diz bem o que eu quero – e de repente vê um cachorrinho engraçadinho e "ahhhh"...

Não é o sorriso do peralvilho não, mas é o sorriso de quem sabe que é tanta coisa, que sorrindo faz um ato de bondade, e que oscula aquilo a que sorri como uma espécie de comunicação de todos os esplendores que tem dentro de si.

Vamos dizer, por exemplo (...) quando se entende que é o sorriso, o sorriso do homem, do senhor ou da senhora que, segundo a expressão muito interessante de Saint-Simon, se sent, quer dizer, sente-se [do verbo sentir]. Saint-Simon quando queria elogiar uma pessoa que tinha muito o senso da dignidade dizia "ele se sentia muito", quer dizer, ele sentia muito em si o que ele era, a respeitabilidade do que era. De onde o minueto, assim entendido, ser a música do respeito.

E é o meu gosto pelo minueto. O respeito está na grandeza, e depois, o respeito está no afeto, no carinho, no sorriso, do mesmo modo. Percorre de ponta a ponta a gama dos possíveis sentimentos humanos. E isto forma do minueto uma obra-prima.

Eu não sei se esta teoria do minueto está bem compreendida ou não. Bem, para que eu acabe de torná-la clara, é preciso notar bem isto: o minueto não é tanto uma dança – não é um pula-pula ignóbil de nossos dias, bem entendido – mas também não é tanto uma dança quanto falanges ou ondas vaporosas e perfumadas de gente que vão avançando ao longo de uma galeria vazia, e seguidas então de outros.

Bal masqué donné pour le mariage de Louis Dauphin de France avec Marie-Thérèse d'Espagne à Versailles en février 1745

Charles Nicolas Cochin (1745)

Para ouvir o minueto de Boccherini, os senhores têm que imaginar a Galeria dos Espelhos vazia, e no fundo os primeiros grupos se formando e avançando... eu quase diria "em cordão", mas em cordão de oito, de dez ou de quinze, fazendo piruetas uns para os outros, etc., e caminhando até o rei. Chegando diante do rei, fazendo uma profunda reverência, e depois virando e deixando lugar para outros. Quer dizer, a marcha progressiva está presente no minueto. E um pouco desta atitude do respeito feudal diante do rei, um pouco de quem diz "senhor, vede quem eu sou, eu me sinto, eu sou uma alta emanação de vós mesmo" e um pouco de súdito que faz diante do rei uma profunda reverência. As duas coisas existem juntas no minueto, e são um outro traço da graça do minueto, mais visível em Boccherini do que em todos os outros minuetos que eu conheço.

Bem, isto seria a digressão sobre os minuetos. Não sei se querem me objetar alguma coisa, perguntar... 

* Comentando duas diferentes gravações do Minueto de Boccherini

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[É feita a audição e comentário das gravações do Minueto. Como infelizmente não as temos, postamos apenas uma, escolhida ao acaso, para ilustração de nossos visitantes]

Notem que está indo para frente, não? E cada vez mais alto, porque está chegando diante do rei.

Do ponto de vista estritamente musical, essa interpretação é uma verdadeira maravilha de leveza, de graça, etc., mas não interpreta perfeitamente o espírito do minueto de Boccherini. O espírito é mais espanholado do que está aqui, isto está muito afrancesado... e era preciso talvez pensar mais em espanhóis do que em franceses dançando para compreender o que é que ele pôs na coisa. Para ilustrar um pouco a coisa, eu não tenho remédio senão tentar cantarolar com minha voz já desafinada, e o desafinamento agravado pela rouquidão com que estou. [O Prof. Plinio cantarola o minueto de Boccherini]

É sempre uma nota grave e altiva que se desfaz no sorriso e não é tanto a continuidade realmente muito harmoniosa e muito bonita posta aqui. Quer dizer: para quem quer fazer música, isto é no gênero, uma obra-prima, mas para quem quer fazer sociologia a coisa é diferente da música.

Então, me perdoem o desafinamento, mas eu vou pôr a coisa altiva [O Prof. Plinio cantarola o minueto de Boccherini] e não é tão corrido. Há sempre um intervalozinho entre cada nota. Quando chegou ao último do harmonioso, retoma o tema inicial. A gente vê a duquesa com o plumet e com o esplendor dos escudos, que se reergue do sorriso mais duquesa do que nunca. Eu não sei se nessa cantarolada horrorosa exprimo bem o vai e vem.

Este minueto daria uma interpretação da harmonia, da cultura daquele tempo, feita exatamente de alta distinção e grande suavidade. Eu considero que um minueto que fosse tocado assim interpretaria a meu ver o tempo e o lugar para o qual Boccherini tocou. Porque precisamos imaginar um nobre espanhol alumbrado com o olho preto aceso, e que vem avançando, pegando na senhora duquesa por la mano, e a toma à direita, e ela também é uma senhora das ilhas e das situações, está compreendendo... e que vêm avançando os dois na presença do rei.

O rei católico, no seu trono, olhando firme e sorrindo enquanto a coisa se desfaz numa gentileza. E que tanta gentileza contenha tanta majestade, e tanta majestade contenha tanta gentileza, aqui está o equilíbrio. Mas esse é o equilíbrio que eu quisera que as coisas do nosso entorno tivessem, e que eu acho que é ainda muito mais alto em São Luís [IX, Rei de França].

Nós temos que imaginar, no tempo da Idade Média, uma dança desse tipo dançada por aquelas senhoras que usavam aqueles chapéus cônicos, altivos, dos quais pendiam véus vindos do oriente e levíssimos, que qualquer brisa punha em movimento. Chapéus que eram mais ou menos como a sabedoria, quer dizer, um reflexo aqui atrás da cabeça, e depois aquele véu que desce. E os nobres com armadura, quase dançando de armadura e jogando com a espada.

Aí a gente compreenderia ainda melhor quais são as raízes psicológicas, morais e culturais de um minueto, imaginando um super-minueto medieval. 

* A grande beleza do gótico não é o que se vê nos álbuns, mas sim uma como que qualquer coisa que paira por cima do gótico 

Monte Fujiyama

A grande beleza do gótico não é a que dão os álbuns, mas qualquer coisa que paira por cima do gótico e que é o “cone Fujiyama” do gótico, diante do qual nós nos extasiamos. Por exemplo, entrando na Catedral de Notre Dame, o que ela tem de mais bonito não é a parte construída: é uma parte não construída que constitui uma espécie de complemento aéreo por cima dela e que vagamente nós intuímos, e de que aquela flecha, atrás, – é do Violet le Duc, mas é genial – dá uma certa noção. A gente olha para aquelas duas torres: "colosso"! É o real.

Depois, por detrás, aquela flecha fina, esguia, é o irreal. O irreal, entre aspas, porque é o auge da realidade. Então, a gente vê aquelas duas torres, e delas se destila, num ponto indefinido, algo de muito gracioso e superior, firme como uma ponta de lança, mas delicada como um sonho. É ali que o melhor da catedral de Notre Dame se põe.

Catedral de Notre Dame

Eu não sei se a maioria das pessoas que pára diante da Catedral de Notre Dame forma para si essa idéia. Bem, essa idéia fica meio confusa no espírito delas, mas tão confusa que não prestam atenção e não aproveitam quase nada.

Boccherini, Fujiyama, digamos, portanto, alta contemplação, ou a vida não é nada. É o que o Rei Luís II, da Baviera, quis fazer, construir isso. Ele terá sido mais feliz ou menos feliz, mas ele pelo menos teve o golpe de gênio de ter construído isso. E isso é uma maravilha.

(Pergunta: Aquele barco de cristal puxado por cisnes.)

(Pergunta: Trenó dourado no meio da neve.)

Trenó dourado no meio da neve, no qual vai o Rei da Baviera, o descendente dos Wittelsbach, bem, tudo isto são "bocheriníadas". Vamos dizer,  Garcia Moreno não é, apenas, o Presidente da República do Equador. Ele o foi, e dignificou o cargo. Mas, sobretudo, ele foi o "Boccherini" do Equador, o equatoriano ideal e perfeito no qual se resume e condensam todos os equatorianos que deveriam ter correspondido ou que algum dia corresponderão à vocação.

Óleo de R. Wenig, representando Luís II viajando de trenó, entre os castelos de Neuschwanstein e Linderhof.

Então, toda a história tem seus homens "Boccherini", tem suas damas "Boccherini", vamos dizer, até a cabanazinha do camponês que a gente imita no doce de Natal com pão de mel e com glacé de açúcar, até isto é algo de fabuloso, de "bocheriníaco" no gênero plebeu e camponês. E é sempre com o espírito voltado para essas coisas que a gente vive.

(Pergunta: Seria a idealização, a coisa como que vista através dos olhos de Deus, no seu aspecto mais nobre.)

Isso.

(Pergunta: Aquela flecha de Notre Dame, aquilo é a alma de Notre Dame, o resto é o corpo. Vê-se naquela flecha como que uma coisa meio etérea pela qual se vê a alma daquela catedral.)

É uma coisa que se chamaria irreal, mas que é o auge da realidade.

(Pergunta: Desse ponto de vista, nós afirmamos que o irreal é o auge da realidade.)

E não se realizou aquele que não comunicou aos homens o “aspecto Boccherini” de sua alma, porque se realizar é ter destilado dentro de si o “aspecto Boccherini” da própria alma, e fazer os outros sentirem. Isso é realizar-se.

Imaginem que a Catedral de Notre Dame fosse um ente vivo, que tivesse crescido em todas as direções, mas no qual não tivesse crescido a flecha. Não estava realizado. Ora, todos nós temos uma flecha que os outros deveriam ver.

(Pergunta: É a perfeição de Deus da qual nós somos príncipes herdeiros, não é?)

Príncipe herdeiro de si próprio. Todos nós temos essa flecha, e todos nós deveríamos fazer ver isso pelos outros, desde o mais humilde dos homens, até o efetivo príncipe herdeiro no país que o tivesse. Mas assim é que as pessoas deveriam ser.

A mim me distrai mais tratar disto do que fazer uma viagem, por exemplo. Se me oferecessem agora "quer ir a uma cidade do interior assistir tal coisa?", eu preferiria isto. Aqui a minha alma se expande, eu tenho a esperança que a alma dos senhores se expanda também, pelo menos um tanto, assim nós vivemos.


[1] Jean-Antoine Watteau, mais conhecido por Antoine Watteau ou simplesmente Watteau, ( 10 de Outubro de 1684, Valenciennes, França - 18 de Julho de 1721, Nogent-sur-Marne) foi um grande pintor francês do movimento rococó. Nasceu no centro da região de Hainaut, recém-incorporada ao território francês pelas tropas de Luís XIV. Morreu aos 37 anos, tendo sido uma das principais figuras deste período artístico; destacou-se pelas suas pinturas de temas pastorais inspirados na commedia dell'arte.