Plinio Corrêa de Oliveira

 

Santo Edmundo, Rei e mártir
 
Os grandes cargos exigem grande espírito de dedicação e de sacrifício

 

 

 

 

 

 

Santo do Dia, 20 de novembro de 1970

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

 

Santo Edmundo (ajoelhado) é mostrado com Santo Eduardo o Confessor, São João Batista e Ricardo II

A ficha é tirada do livro "Os Santos Militares", do General Silveira Mello. A síntese biográfica é a seguinte:

“Edmundo era filho de Opa, rei da Estânglia. É um dos pequenos reinos que compunha a Inglaterra primitiva - e nasceu por volta de 840 quando o cristianismo já estava disseminado nos estados ingleses. O rei, seu pai, homem de grande piedade, quando viu o filho com 15 anos, abdicou em seu favor e retirou-se para Roma a fim de consagrar seus últimos dias ao recolhimento e à oração.”

“Edmundo, que fora muito bem-educado na Religião Católica, tornou-se modelo de cristão para seu povo. Justo e bom, era homem de invulgar energia. Percebeu cedo o perigo que representava os escandinavos para seu país e preparou-se militarmente, assim como dispôs seu povo, para uma possível guerra.”

Os escandinavos eram, naquele tempo, o grande perigo dos povos civilizados. Hoje tão pacíficos, foram no passado os tiranos dos mares. Eles ocupavam a Escandinávia e deitavam aquelas migrações pelos mares, que iam descendo pelos vários lugares da Europa e que representavam, vamos dizer, a última leva se quiserem, das invasões bárbaras na Europa.

Para se ter uma idéia um pouco de qual era o espírito deles, alguns usavam o título de reis do mar, porque eles eram reis de povos que viviam em barcos e fazendo pirataria de um lado e de outro, de maneira que então reinavam no mar; era mulher, filhos, tudo mais, iam em barcos. Aliás, uns barcos com umas proas lindas, de uma audácia e de uma arrogância de que a Suécia e Dinamarca perderam completamente o segredo. Com a queda das proas, caiu tudo. Falam de “figuras de proa”; a gente poderia dizer que cada povo tem a proa que merece. E quando um povo já não tem mais coragem de ter proa é porque já não vale mais nada.

Eram, entretanto, os grandes inimigos daquele tempo. De maneira que então preparar o povo dele contra essa invasão, era enfrentar o inimigo por excelência.

“Não se enganou em suas previsões. Atacaram os dinamarqueses o Reino inglês. No primeiro combate foram duramente rechaçados, mas unindo esforços num grande número venceram a Santo Edmundo e o aprisionaram em Oxon.” 

Santo Edmundo representado na catedral de Salisbury (Inglaterra)

Era naturalmente porque foi uma primeira leva que atacou o Reino dele, mas eram muitos os que tinham desembarcado em vários pontos da Inglaterra. Concentraram-se e naturalmente esmagaram por seu número grande.

“O chefe e adversário fez várias propostas de paz ao santo rei, que ele recusou por ser contra a Religião Católica e os direitos de seus súditos. Foi duramente supliciado e por fim decapitado. Foi martirizado a 20 de novembro de 870. Um Concílio nacional reunido em Oxford em 1122 tornou obrigatória a festa do mártir. Suas relíquias, inclusive um saltério que usava diariamente, foram venerados na Abadia de Cluny até o surto da heresia protestante.”

Os senhores estão vendo de que se trata. Esse homem foi preso e levado para Oxon, que se não me engano, é na própria Dinamarca e ali ele foi intimado a fazer negociações de paz pelas quais entregava seu reino aos vencedores.

Ora, acontece que ele não queria fazer essa entrega porque seria ceder aos pagãos e favorecer o restabelecimento do paganismo naquele local. Ele resistiu, então e foi martirizado.

Os senhores veem a alta consciência que tinha esse homem - entretanto um filho de bárbaro - do papel de rei, de suas obrigações e das relações entre os assuntos políticos e religiosos.

Hoje se fala frequentemente em separação da política e da Religião... ao mesmo tempo que a Religião mais do que nunca intervém na política e que a política tem pânico de intervir na religião... Naquele tempo, os senhores veem a noção que Santo Edmundo tinha. Sua queda, a implantação de uma dinastia de reis pagãos trariam a paganização do Estado e dos indivíduos. Seria, portanto, a apostasia daqueles povos, a perdição das almas. O nexo entre a vida política, a forma do Estado e a forma religiosa, como ele compreendia isso bem e como então se manteve fiel até o fim. E apesar de ser maltratado por causa de sua fidelidade a Nosso Senhor, assim perseverou, sendo depois martirizado.

Por que razão queriam que renunciasse? Naturalmente porque ele continuava a ter prestígio, senão sua renúncia não adiantaria de nada, era difícil consolidar a conquista enquanto não houvesse uma prova de que o Rei renunciara.

Talvez quisessem até levá-lo ao seu próprio reino para ele declarar aos seus súditos que tinha renunciado. E se ele não quis fazê-lo, foi pela esperança de que seus súditos organizassem uma reação, uma espécie de guerrilha contra o ocupante para salvar a Fé. E Santo Edmundo regou, assim, com seu sangue a esperança de uma restauração católica.

 

Iluminura medieval referente ao martírio de Santo Edmundo

Os senhores considerem que lindo exemplo para os governantes modernos, seja para os civis, seja para os eclesiásticos.

De outro lado, os senhores também observem como o sangue desse rei valeu porque de fato a Inglaterra acabou se cristianizando inteira e até o protestantismo foi uma nação católica que durante algum tempo se chamou a “ilha dos santos”, tal foi o número de santos que lá floresceram.

Com esses dados devemos pedir a Nossa Senhora que proporcione muitos homens de Estado e muitos homens de Igreja que tenham esse espírito.

Porque enquanto os povos católicos, no campo temporal e sobretudo no espiritual, não são governados por homens dispostos a derramar seu sangue, não são dirigidos por quem preste. Só governa bem quem está disposto a ir na fidelidade a seus princípios até o martírio, na fidelidade a seu cargo até o martírio, do contrário não vale de nada.

Assim como um militar que não está disposto a morrer é igual a zero, assim um bispo, um príncipe, um rei, um alto governante que não esteja disposto a morrer para o cumprimento de seu dever é igual a absolutamente zero.

Os altos cargos exigem a alta coragem. São os cargos pequenos que podem se acomodar com o valor moral normal.

Os grandes cargos exigem o grande espírito de dedicação, o grande sacrifício.

Os grandes cargos... Deus o que dá de mais alto a um homem é um cargo? O que vale mais: um cargo ou uma vocação? Não há situações em que uma vocação vale mais do que um cargo?

Pensemos no exemplo desse rei para termos sempre a deliberação de sermos fiéis até a morte, à vocação que a Providência chama a cada um.


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