Plinio Corrêa de Oliveira

 

Comentários ao

"Tratado da verdadeira devoção

a Nossa Senhora"

 

Capítulo III - Escolha da verdadeira devoção à Santíssima Virgem

 

1951, Conferência

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio, em 1951, para os futuros sócios-fundadores da TFP brasileira.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

 

Este capítulo do livro de São Luís Grignion de Montfort apresenta um aspecto de particular importância para nós.

Uma das causas de estranheza de alguém que tome contato com contra-revolucionários autênticos está na posição perante os problemas religiosos. Com efeito, uma série de problemas que nos meios católicos comuns costumam ser considerados sem muita reflexão, são considerados muito raciocinadamente, dentro dos hábitos mentais, do modo de agir e de pensar dos contra-revolucionários.

O modo de considerar determinadas devoções, por exemplo, é muito significativo. Alguém resolve espalhar a devoção a São Judas Tadeu, ou a devoção a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Em geral tais resoluções são expressões de sentimentos puramente individuais. Uma pessoa recebeu uma graça de determinado santo - ou ao menos julga ter recebido - e, movido por um sentimento de gratidão, empreende uma campanha com o fim de divulgar a sua devoção.

Existe certo "do ut des" ou "facio ut facias" nestas atitudes. Como tal santo me fez um favor, divulgo a devoção a ele. Estou assim aumentando o meu “crédito”, com melhores possibilidades de obter futuros favores. Não se pode afirmar que tal modo de agir seja sempre mau. Mas é em função disto que certos católicos, não raras vezes, organizam suas atividades de piedade.

Como é que muitos fiéis escolhem seu campo de devoção, de piedade? Há um conjunto de novenas, de bênçãos, que se estabeleceram ao longo de sua vida, fruto de certa rotina. Eles se apegam a elas, e ficam nisso. Não há nada de propriamente raciocinado, ponderado à luz da Fé, planejado em relação aos atuais interesses da Igreja e das almas. Ora, é evidente que, se o homem pode tornar racionais as suas ações, ele as deve tornar.

Diante da atitude com que um certo número de fiéis costumam considerar suas atividades, é muito raro notarmos a preocupação de analisá-las, de montar um quadro completo, de considerar suas próprias falhas, de traçar uma linha de conduta coerente, inteligente, ordenada.

Quando alguém entra em contato com alguma família de almas contra-revolucionária, nota uma posição diversa. Nota análise - análise exata, e até às vezes aguda - de determinadas falhas, e um sistema de ação calculado para sua correção; encontra uma atitude de apostolado, e até de piedade, refletida e ponderada. Correntemente vê-se, pelo contrário, apenas atitudes de apostolado e de piedade inteiramente instintivas.

Esta diferença, creio ser muito sensível para quem passa de certos ambientes  para o de uma família de almas verdadeiramente católica. 

 

É próprio da verdadeira devoção denunciar e combater as falsas 

Em seu apostolado, São Luís Grignion teve um conhecimento perfeito das falhas da devoção a Nossa Senhora, na sociedade para a qual pregava, e procurou insistir nos pontos necessários para fazer ruir aquelas falhas. Na difusão da piedade, não se deixou levar pela rotina ininteligente. Com a inteligência com que Vauban montava o cerco de uma praça para conquistá-la, São Luís Grignion agiu nos ambientes em que lhe era tolerado falar, como um homem sábio que quer conquistar a opinião pública.

 

Fortificação elaborada em Camaret sur Mer (França), pelo estrategista militar Sébastien Le Prestre, Marquês de Vauban (15-5-1633 – 30-3-1707)

Tal posição serve de antecedente para justificar a atitude racional - e não racionalista, o que seria completamente diferente - com que procuramos estudar estes temas. Este é o ângulo pelo qual é interessante considerar a arte do livro de São Luís Grignion, que passamos a comentar.

Começa ele (tópico 90) por estabelecer o princípio de que o demônio age com muita inteligência na perdição das almas. Assim como um falsário não falsifica moedas de metal ordinário como chumbo ou cobre, mas sim de ouro ou prata, assim também o demônio não falsifica devoções secundárias para a salvação das almas, mas prefere falsificar as de grande importância. Isto explica que ele produza grande número de atitudes falsas na piedade mariana, ao contrário do que sucede com as devoções a outros santos, em que tais atitudes interessam muito menos para a salvação das almas.

Estamos aqui diante de uma série de pressupostos eminentemente contra-revolucionários. Primeiramente, a idéia de que o demônio não ataca as almas procurando apenas arrancar-lhes a Fé, mas também procurando incutir-lhes formas de devoção falsas. É um conceito muito contra-revolucionário a idéia da falsificação da doutrina católica e da Religião, como meio empregado pelo demônio para perder os melhores.

São Luís Grignion parte deste princípio, de falsificação das moedas existentes em seu tempo, para afirmar a necessidade de se analisar as várias formas de devoções falsas em relação a Nossa Senhora. Veremos, aliás, que estas falsas devoções ainda existem em nossos dias. 

 

OS FALSOS DEVOTOS E AS FALSAS DEVOÇÕES À SANTÍSSIMA VIRGEM 

 

Os devotos críticos 

"Os devotos críticos são, em geral, sábios orgulhosos, espíritos fortes e presumidos, que têm no fundo uma certa devoção à Santíssima Virgem, mas que vivem criticando as práticas de devoção que a gente simples tributa de boa fé e santamente a esta boa Mãe, pelo fato de estas devoções não agradarem à sua culta fantasia. Põem em dúvida todos os milagres e histórias narrados por autores dignos de fé" (tópico 93).

É uma atitude que encontramos com freqüência. Os livros de piedade contam milagres de Nossa Senhora. Santo Afonso Maria de Liguori (27-9-1696 - 1º-8-1787, fundador da Congregação do Santíssimo Redentor, Doutor da Igreja e Padroeiro dos Moralistas e Confessores), por exemplo, no livro "Glórias de Maria". Há quem observe que as demonstrações teológicas de Santo Afonso são aceitáveis; naqueles milagres pode-se piedosamente crer, mas se pode também duvidar... 

É verdade que, em princípio, se pode negá-los sem pecado; mas não é tão indiferente crer neles ou não. Aqueles casos são francamente verossímeis; não podem ser negados sem uma razão positiva de dúvida. Não há pois razão para duvidar - com satisfação, estuante de alegria - dos milagres relatados por Santo Afonso. 

Em Aparecida do Norte se dá o mesmo. Há um sem-número de milagres - ou que correm como sendo milagres - feitos por Nossa Senhora. Ao se propor certa vez a instalação de um bureau de constatação médica, para autenticar aquelas curas, alguém disse, sorrindo: "O senhor preza realmente Nossa Senhora Aparecida? Se se colocar esse bureau de constatação médica aqui, cessará a auréola de Aparecida. Tudo não é senão crendice do povo"... 

Se Nossa Senhora é capaz de praticar milagres, não é possível que haja, no meio das pretendidas curas, várias cujo caráter miraculoso se possa demonstrar? Se Ela é Rainha do Céu e da Terra e Mãe de Deus, é perfeitamente possível. Não é então da glória d'Ela que sejam analisadas? É bem evidente que sim. 

Outra manifestação de devoção crítica é um certo respeito humano ao culto das imagens de Nossa Senhora. Vai-se às igrejas e reza-se diante do Santíssimo Sacramento; mas parar, a fim de fazê-lo diante de uma imagem de Nossa Senhora, isto não. Vêem esta manifestação de piedade como uma devoção subsidiária. O homem simples, do povo, que tem a "fé do carvoeiro", este se ajoelha para rezar; mas o homem culto contenta-se com a presença real, que é para ele a única coisa verdadeira. Imagens, ele as considera muletas da fé, para os que não têm espírito de religião desenvolvido. É um estado de alma que faz parte do criticismo religioso, que diminui o âmbito da devoção a Nossa Senhora. 

 

Os devotos escrupulosos 

"Os devotos escrupulosos são aqueles que receiam desonrar o Filho, honrando a Mãe, e rebaixá-Lo se A exaltarem demais. Não podem suportar que se repitam à Santíssima Virgem aqueles louvores justíssimos que Lhe teceram os Santos Padres; não suportam sem desgosto que a multidão ajoelhada aos pés de Maria seja maior que ante o altar do Santíssimo Sacramento, como se fossem antagônicos, e como se os que rezassem à Santíssima Virgem não rezassem a Jesus Cristo por meio d'Ela. Não querem que se fale freqüentemente da Santíssima Virgem, nem que se recorra tantas vezes a Ela" (tópico 94). 

Encontramos em nosso dias uma forma curiosa de devotos escrupulosos. Muito poucas são as pessoas que, nos meios católicos, sustentam esta falsa tese nos termos que São Luís Grignion a apresenta. No entanto, a devoção a Nossa Senhora, em nossos dias, muito raramente é tão grande como a teologia recomenda. Entre os próprios católicos, e mesmo entre os mais fervorosos, não se tem para com Ela a devoção que seria de se desejar. A causa é a falsa idéia de que o culto a Deus sofre certa restrição com o culto à Santíssima Virgem. "Não convém - dizem eles - levar tão longe o culto a Nossa senhora". 

 

Devotos exteriores 

São Luís Grignion chama devotos exteriores aos que se contentam com uma devoção meramente exterior a Nossa Senhora. 

"...que recitarão às pressas uma enfiada de terços" (tópico 96).

Não raro vemos pessoas assim, rezando o rosário em uma velocidade assustadora.

"...e ouvirão sem atenção uma infinidade de missas, acompanharão as procissões sem devoção, farão parte de todas as confrarias sem emendar a vida, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes desta Virgem Santíssima. Amam apenas o que há de sensível na devoção" (tópico 96). 

Conhecemos muitas pessoas assim. Por exemplo senhoras, mães de família. Sabem que o marido é ateu, que o filho não pratica a religião, que a filha poderá acabar vivendo com um divorciado; para elas, nada tem grande importância. Vão às procissões, cantam, seguram uma vela, fazem umas promessas a Nossa Senhora, compram-lhe objetos para Seu altar, e pouco se incomodam com a salvação do restante da família. São almas para quem a devoção a Nossa Senhora consiste tão somente em práticas exteriores. Não compreendem que estas devoções só têm valor na medida em que correspondam às disposições internas, de nada adiantando se forem somente externas

Para se compreender a importância prática destas reflexões, basta considerar o lampejo enorme que teria o movimento católico, se todos os devotos exteriores de Nossa Senhora passassem a ter uma verdadeira devoção interior. 

 

Os devotos presunçosos 

"Os devotos presunçosos são pecadores abandonados às suas paixões, ou amantes do mundo que, sob o belo nome de cristãos e devotos da Santíssima Virgem, escondem o orgulho, ou a avareza, ou a impureza, ou a embriaguez, ou a cólera, ou a blasfêmia, ou a maledicência, ou a injustiça, etc" (tópico 97). 

Sempre me lembro destas palavras, quando entro em certas igrejas e vejo vitrais de Nossa Senhora com a inscrição "oferta de Fulano". Ora, quantas vezes sabemos quem é o Sr. Fulano, qual a sua vida, que contraste há entre este pio donativo e a realidade que ali se oculta. Este homem, não raro, já está certo de ter ganho o céu por ter doado um vitral para Nossa Senhora. Quanta temeridade e presunção aí se esconde! E quão grande é o número desses presunçosos! 

 

Os devotos inconstantes 

Os devotos inconstantes (tópico 101) são bem mais raros. Rezam à Santíssima Virgem, e, uma vez obtida a graça desejada, cessam de vez a devoção. Outros vão além: não obtido o favor, zangam-se, suscetibilizam-se e até blasfemam. Certa vez ouvi uma pessoa pedir a alguém de sua família que, para que tivesse menos azar, não mais rezasse por ela. É o devoto inconstante: blasfemou, por não conseguir o desejado. Sucedeu-lhe uma desgraça maior, e voltou a pedir orações: "Reze mais, pois está grave a situação!" 

 

Os devotos hipócritas 

"Há também falsos devotos da Santíssima Virgem, os devotos hipócritas, que cobrem seus pecados e maus hábitos com o manto desta Virgem Fiel, a fim de passarem aos olhos do mundo por aquilo que não são" (tópico 102).

Os devotos hipócritas também não são raros. Têm esta devoção para que outros tenham a impressão de que são mesmo devotos. 

 

Os devotos interesseiros 

São Luís Grignion chama de devoto interesseiro (tópico 103) aquele que pede a Nossa Senhora graças sobretudo de caráter temporal, ou que somente reza à Santíssima Virgem para conseguir favores, não por amor, somente desejando vantagens pessoais. 

Dá-nos uma impressão constrangedora ver, nos lugares de peregrinação a Nossa Senhora, velas e ex-votos de pessoas que apenas pediram, com um furor insistente, graças temporais, o mais das vezes curas de doenças. Graças espirituais, raríssimas vezes são pedidas. A pureza, a fé, o desapego, quem os pede? Não se vê. Apenas a cura de uma ferida, de uma moléstia incurável. E depois coloca-se o ex-voto. A apetência pelos bens espirituais é insignificante. O amor desinteressado a Nossa Senhora, quase nenhum. 

Como vemos, encontramos em São Luís Grignion uma análise aguda dos defeitos da piedade de seu tempo, e um desejo de corrigi-los inteligentemente. Não se trata de uma devoção inculcada apenas por rotina, às cegas, mas por alguém que conhecia profundamente o ambiente no qual agia. E sua ação tinha sempre, por isso, um cunho eminentemente contra-revolucionário

A seguir, São Luís Grignion passa a dar as verdadeiras características da devoção a Nossa Senhora: é interior; terna; santa; constante; desinteressada (tópicos 105 a 110). São predicados muito conhecidos de nossos leitores, que não requerem comentários.


Índice pormenorizado

Introdução

Capítulo I - Necessidade da devoção à Santissima Virgem / Artigo I - Primeiro princípio: Deus quis servir-se de Maria na Encarnação

Segundo princípio: Deus quer servir-se de Maria na santificação das almas

Art. II - Consequencias: 1a. Maria é a rainha dos corações; 2a. Maria é necessária aos homens para chegarem ao seu último fim

Capítulo II - Verdades fundamentais da devoção à Santíssima Virgem

Capítulo II (continuação): Mediação Universal de Nossa Senhora na obra de São Luís Grignion

Capítulo IV - A perfeita devoção à Santíssima Virgem ou a perfeita consagração a Jesus Cristo

Capítulo V - Motivos que nos recomendam esta devoção

Capítulo VI - Figura bíblica desta perfeita devoção: Rebeca e Jacó


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