Catolicismo, n 548, Agosto de 1996 (www.catolicismo.com.br)

A coerência plena do Fundador da TFP

Tese de mestrado na USP evidenciou fidelidade indômita do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira à doutrina tradicional católica

Numerosos pesquisadores voltados para o estudo da realidade religiosa, política e social do País têm publicado obras nas quais são citados lances do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, desde os remotos anos 30, e da associação por ele fundada em 1960, a TFP. O Serviço de Documentação da entidade já conta com mais de 700 livros com tais referências, muitos deles editados no exterior.

Além disso, em diversas universidades brasileiras - Universidade de Brasília, Universidade Católica de Minas Gerais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Universidade de São Paulo - já foram apresentadas dissertações de mestrado versando parcial ou integralmente sobre a TFP e seu Fundador.

Entre essas dissertações, cabe destacar a que foi defendida na Universidade de São Paulo, em 1985, pelo Prof. Lizâneas Souza Lima, sob o título "Plinio Corrêa de Oliveira: um cruzado do século XX".

Julgamos oportuno solicitar ao Prof. Lizâneas uma entrevista sobre o assunto, que ganhou nova importância após o falecimento do insigne líder e pensador católico, pois o recuo histórico veio destacar sua figura e a gesta que empreendeu.

Embora ideologicamente a tese apresente um cunho esquerdista moderado, teve ela o grande mérito de realçar parte da excepcional obra que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira realizou ao longo de várias décadas.

Mesmo confundindo às vezes a Igreja Católica com o "progressismo" que nEla se infiltrou, a dissertação tem a clarividência de apontar a fidelidade impertérrita do Fundador da TFP aos ensinamentos tradicionais da Igreja.

Sem tomar posição favorável ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira - e mesmo discordando dele em vários pontos, por situar-se em outro quadrante ideológico - o trabalho do Prof. Lizâneas deixa claro o papel ímpar que ele desempenhou.

Pequenas confusões de interpretação, como por exemplo concluir que o Prof. Plinio teria apoiado o getulismo, também não empanam o conjunto da pesquisa, que é realmente impressionante.

Catolicismo - O que levou o Sr a fazer sua dissertação de mestrado sobre a obra do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira?

Prof. Lizâneas - Em meu curso de História na Universidade de São Paulo, estudando a atualidade brasileira, tive a atenção voltada para a intensa religiosidade do nosso povo, apesar de uma laicização crescente das elites.

Assim, quando em 1981 devia escolher o tema da dissertação de mestrado, pensei inicialmente em focalizar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), enquanto força política e ideológica.

Entretanto, ao examinar as origens da CNBB, defrontei-me com outra corrente católica, ou seja, o catolicismo tradicional, bem menos estudada nos ambientes universitários. Minha escolha recaiu, pois, sobre esse tema.

Logo nos primeiros passos da pesquisa, não foi então difícil identificar o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira como o mais notável pensador e líder dessa corrente. Destacava-se ele pelo longo período de sua atuação, desde o remoto ano de 1928, como também pela profundidade de suas obras e repercussão de suas campanhas à frente da TFP.

Catolicismo - Em síntese, o que o Sr sustenta em sua dissertação?

Prof. Lizâneas - Inicialmente, procuro descrever a situação da Igreja no início deste século, quando o Prof. Plinio ingressou no movimento católico.

A Igreja então se revigorava, após a penosa situação enfrentada sob o Império, que de vários modos opôs entraves à plena atividade dos Bispos e Ordens religiosas.

Para tal revigoramento contribuiu, evidentemente, a crescente irradiação do poder do Pontífice romano, desde a publicação do Syllabus pelo Papa Pio IX, como também o movimento ultramontano, que a partir da França atuou em favor da maior adesão dos católicos a Roma.

Aqui no Brasil essa tendência traduziu-se na ampliação do número de dioceses, na melhor formação de sacerdotes e na expansão das Congregações Marianas entre a juventude.

Foi nesse contexto que o jovem Plinio Corrêa de Oliveira tornou-se o líder católico e homem de confiança, sucessivamente, de dois Arcebispos de São Paulo, chegando a ser eleito deputado constituinte em 1934.

Esta situação modificou-se em 1943, quando o Prof. Plinio, depois de ter lançado o livro "Em defesa da Ação Católica", denunciando o progressismo nascente, foi afastado dos cargos que lhe haviam sido confiados pela autoridade eclesiástica.

Após alguns anos em que permaneceu no isolamento, retomou o Prof. Plinio sua atuação pública através do mensário "Catolicismo", e, posteriormente, com a fundação da TFP. A partir de então, encontramos vários artigos e livros nos quais ele se opõe a posições chamadas progressistas da CNBB. Portanto, o homem que outrora havia sido da extrema confiança das autoridades eclesiásticas, tornou-se uma voz discordante da CNBB, sempre num estilo respeitoso, mas firme.

Diante dessa divergência, uma pergunta crucial se apresenta: mudou o Prof. Plinio ou mudou a CNBB?

Ao longo de três anos examinei todos os livros e o considerável volume de artigos publicados pelo Prof. Plinio. Minha conclusão é de que ele não mudou. Permaneceu fiel aos mesmos princípios e mesmas idéias defendidos desde 1928.

Houve, de fato, uma guinada na orientação da CNBB, que embarcou na Teologia da Libertação, enquanto o fundador da TFP firmou-se como símbolo da oposição a essas mudanças.

Catolicismo - Por que o Sr. qualifica o Prof. Plinio "Cruzado do Século XX", no título da dissertação?

Prof. Lizâneas - Alguém já comentou que fui mais feliz no título do que na própria dissertação.

Considero o Prof. Plinio um autêntico cruzado da nossa época, sempre atento e capaz de analisar os acontecimentos com discernimento fora do comum.

Suas batalhas não foram batalhas da Idade Média, embora ele tivesse todo um referencial em pensadores como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, além das encíclicas dos Papas.

Os escritos do Prof. Plinio revelam uma lúcida visão dos acontecimentos contemporâneos. Um dos exemplos mais elucidativos, a meu ver, deu-se na década de 30. Percebeu ele no nazismo e no fascismo a serpente no ovo, e atacou vigorosamente esses movimentos.Seus artigos, no semanário "Legionário", são os mais contundentes publicados no Brasil contra o nazi-fascismo. Exatamente na época em que tais movimentos alcançavam várias vitórias retumbantes, enquanto muitos intelectuais deixaram-se seduzir por essas ideologias.