"Catolicismo", n° 417, Setembro de 1985 (www.catolicismo.com.br)

Plinio Corrêa de Oliveira: um cruzado do século XX

O TÍTULO DESTE artigo é o de uma dissertação de mestrado - em termos correntes, uma tese - defendida em 31 de agosto de 1984, na Universidade de São Paulo, por pessoa inteiramente estranha aos quadros da TFP e de seus simpatizantes. E em muitos pontos adverso às idéias do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, como veremos. Trata-se do Prof. Lizânias de Souza Lima, que elaborou, em 220 páginas, na área de História Social, sua "Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP", e a defendeu oralmente, merecendo nota "9,5 com distinção".

É de se notar que teses universitárias versando sobre pessoas vivas - e mesmo no auge de sua atuação, como é o caso do Prof. Plinio - são inexistentes, ou pelo menos muito raras. Por exemplo, dados oficialmente fornecidos pela USP dão conta de que, no período de 1973 a maio de 1984 - mais de 11 anos, portanto - foram defendidas 171 teses ou dissertações na área de História Social. Destas, nenhuma versou sobre pessoa ainda viva. O que indica, evidentemente, um reconhecimento da posição absolutamente ímpar que vem sendo ocupada pelo Presidente da TFP no mundo contemporâneo.

Lineamentos gerais da dissertação

Aqui está, a nosso ver, um primeiro mérito do Prof. Lizânias: o ter sabido ver e pôr em realce parte da excepcional obra que o ilustre pensador católico, com impressionante coerência, vem realizando ao longo dos anos, no Brasil e no mundo de hoje.

A escolha do autor da tese recaiu sobre o Prof. Plinio, entre outras razões, porque "entre as figuras conhecidas no meio católico conservador é a que provocou maiores polêmicas. Sua ação acabou por dar origem a uma organização que já dura há mais de duas décadas - TFP - tendo mesmo se espalhado por vários países, principalmente da América. Entre os militantes, jornalistas, escritores e pensadores católicos leigos, talvez seja o que mais reflita, pela sua oposição a elas, as transformações ocorridas na Igreja ".

O trabalho de pesquisa é excelente, o que se nota não só pelo grande caudal de material compulsado, como pela variedade e adequação das citações. O autor consigna um agradecimento à TFP, por lhe ter dado acesso a todo material de pesquisa que desejou: livros, jornais, cópias xerox, microfilmes etc. O Prof. Lizânias apresenta também um bom apanhado do pensamento do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, baseado sobretudo no livro "Revolução e Contra-Revolução". Entretanto a dissertação não é - no sentido em que os meios científicos modernos tomam a palavra - imparcial. Pelo contrário, ela é ideologicamente orientada para a esquerda. Basta dizer que, para traçar os lineamentos gerais do período histórico de que trata, o Prof. Souza Lima se fundamenta em autores conhecidamente "progressistas" como é o caso de Márcio Moreira Alves, Frei Clodovis Boff, Ralph della Cava e outros do gênero. Apesar disso o esquema fundamental da tese permanece verdadeiro, e poderia ser assim expresso:

1. O Prof. Plinio, no primeiro período de sua atuação pública, estava inteiramente identificado com a orientação geral das autoridades eclesiásticas;

2. A partir da década de 40, mais ou menos, essas autoridades, de um modo geral, começaram a mudar sua orientação num sentido de abertura para o mundo;

3. O Prof. Plinio não mudou, continuou fiel à orientação tradicional da Igreja e passou a ser o mais rígido opositor das idéias "progressistas".

O autor da dissertação, talvez por falta de um certo recuo psico-ideológico, deixou-se levar, por vezes, a uma visão homogeneizada e simplificante dos meios católicos brasileiros, criticada, aliás, pelos próprios examinadores, durante a defesa oral. Assim é que a palavra Igreja, ele ora a utiliza para referir-se de fato à Igreja Católica, ora para designar a corrente progressista que se encarapitou no poder, e em larga medida transformou a instituição eclesial - na feliz expressão do escritor francês Ploncard d'Assac - numa "igreja ocupada".

Mas, de outro lado, ele constata com acerto que a "militância católica de Plinio ao longo deste período (1930 a 1980) colocou em evidência as contradições da Igreja no mundo moderno".

Reconhece o empedernimento de certos meios "progressistas", pois mesmo quando "Plinio apresentava provas dos desvios doutrinários e da identidade de princípios de certos católicos com o comunismo, a atitude da Igreja foi de não aceitar as denúncias. Ao contrário, apoiava e defendia a ação de seus membros. Isto fez com que Plinio apontasse a CNBB como conivente com a subversão". E o Prof. Lizânias deixa escapar a seguinte apreensão: "Neste jogo para ganhar o mundo ela [a Igreja] se arrisca a ser ganha por ele".

À frente do "Legionário"

Embora resumindo com fidelidade a trajetória do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira à frente do "Legionário" (1930-1947) e sua consagradora vitória eleitoral para a Constituinte de 1934, o autor da tese engana-se ao supor que o futuro líder da TFP apoiou, na época, a ditadura getulista.

Talvez por isso, um dos examinadores fez notar, durante a defesa oral da tese, que o Cardeal Mota destituiu o Prof. Plinio da direção do "Legionário" porque o Cardeal era getulista.

Aliás, diga-se de passagem, causou estranheza à banca examinadora o fato de o autor da dissertação não ter solicitado uma entrevista ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Diversos pontos de sua tese - como o referente ao getulismo - que se encontram mal focalizados ou mal interpretados, certas afirmações precipitadas ou demasiadamente tímidas, poderiam ter sido devidamente ajustados numa conversa esclarecedora.

A dissertação constata com clareza a luta desenvolvida pelo insigne pensador católico contra o nazismo e o fascismo, na época em que esses regimes, no auge de sua atuação e propaganda, estavam francamente na moda e atraíam as simpatias de adeptos e oportunistas de toda espécie: "O nazismo e o fascismo encontraram nas páginas do Legionário as mais ferrenhas críticas. Todas as semanas, as atitudes de Hitler e Mussolini eram severamente repudiadas. Plinio dedicou numerosos artigos para mostrar a incompatibilidade entre o nazismo e a doutrina católica. Esforçando-se, inclusive, para demonstrar suas semelhanças com o comunismo". Aliás, se o quisesse, a dissertação poderia ter acrescentado que o Prof. Plinio previu com muita antecedência, numa época em que o fato parecia impossível, o pacto comuno-nazista Ribbentrop-Molotov.

"O temor que o Legionário revelava em relação à direita fascista era explicável pela sua posição de defesa da instituição Igreja".

Antes mesmo da publicação, em 1943, de seu livro-bomba "Em Defesa da Ação Católica" - do qual o Prof. Souza Lima apresenta um bom resumo - a infiltração de erros nos meios católicos preocupava o fundador da TFP. Já em 1938, mostra a tese, o Prof. Plinio denunciava que "o grande problema não era a conversão dos ateus, protestantes e espíritas, mas sim a catolicização dos católicos". O acerto dessa constatação-previsão torna-se evidente para quem, neste atribulado 1985, analisa com isenção de ânimo o que de lá para cá se passou.

A partir do "Catolicismo"

Com o "Catolicismo", fundado em 1951, inicia-se nova fase, a qual a dissertação de mestrado acertadamente precisa logo na primeira linha dedicada ao período 1951-1964: "Os objetivos do Catolicismo são os mesmos do Legionário".

Até a década de 60, apesar das enormes injustiças que pessoalmente sofrera, nenhum ressentimento, por mais legítimo que fosse, pôde demover o Prof. Plinio de uma atitude pública de silêncio dolorido e respeitoso em relação à Hierarquia eclesiástica. Foi só quando o "progressismo" se tornou debandado, até mesmo nas altas cúpulas, que ele se viu no dever de quebrar tal silêncio. É o que registra, em outros termos, a tese em questão: "A despeito de ter sido afastado sumariamente do Legionário, Plinio não atacou nenhuma figura da hierarquia católica. Isto ocorrerá somente na década de 60. Suas críticas se dirigiam aos setores católicos leigos".

Falando da reforma agrária: "Plinio aproveitou bem a potencialidade do tema. O engajamento do Catolicismo na luta contra a reforma agrária aumentou as possibilidades de aceitação de suas idéias. Ampliou o leque dos seus possíveis simpatizantes. .... A fundação da TFP e o engajamento na luta contra a reforma agrária marcaram uma mudança na militância de Plinio e seu grupo. Não se limitaram a partir daí à produção de idéias, mas fizeram com que as idéias gerassem campanhas, debates, mobilizações".

Reconhece o êxito do livro "Reforma Agrária - Questão de Consciência": "Se o objetivo do livro era provocar um acirramento dos debates e uma mobilização contra a Reforma Agrária, ele foi atingido".

A amplitude internacional do "progressismo" facilmente explica, aos olhos do autor da tese, que o Presidente da TFP se tenha voltado para combatê-lo também no Exterior: "Por se tratar de um fenômeno [o "progressismo"] que não se restringe ao Brasil, os artigos de Plinio não se limitaram a criticar apenas o episcopado nacional. Acompanharam atentamente a atuação da Igreja no Exterior, principalmente na América Latina".

Reconhece que o combate do Prof. Plinio não ficou circunscrito ao esquerdismo na Igreja. A dissertação teve também em vista a pluralidade de aspectos dessa nobre luta:

- Com relação à burguesia: "uma das preocupações primordiais de Plinio será com a imprevidência da burguesia diante da ameaça comunista".

- Também no campo moral: O Prof. Plinio combatia "a aprovação das relações prématrimoniais e o casamento como simples registro para efeitos civis secundários", como sendo "alguns pontos em comum com os comunistas. O ideal comunista de vida sexual tornou-se a aspiração de muitos no Ocidente".

- O mesmo nos arraiais anticomunistas: "Plinio .... temia a ameaça comunista devido à moleza e à imprevidência dos anticomunistas".

- Quanto ao centrismo: "O centrismo teria uma posição incoerente porque quer conciliar o inconciliável. O reto pensamento tem que ter lógica".

- Igualmente no que se refere à imprensa: "Plinio dá uma importância enorme aos meios de comunicação e à propaganda. É através deles que, contra o 'espírito da nação', se dá a 'revolução comunista invisível' e a 'manipulação psicológica das multidões'".

- E aos intelectuais: "Plinio acusava os intelectuais esquerdistas bens instalados de imporem idéias reformistas que conduziriam, aos poucos, às metas comunistas".

- Quanto à política internacional: "As constantes análises que Plinio fez da política internacional foram também calcadas numa visão polarizada, onde qualquer política que não fosse franca, clara e constantemente anti-soviética e anticomunista em geral, era duramente criticada".

Acrescenta o Prof. Lizânias: "Entretanto, ele não se limitava a apontar inimigos disfarçados. .... Com efeito os discursos de Plinio continham outros elementos de convencimento, que eram os apelos a determinados valores como a família". E ainda: para Plinio "a Igreja Católica e a Civilizarão Cristã por ela inspirada, a qual tem como modelo ideal uma sociedade medieval idealizada, são as expressões do bem e da verdade. Tudo o que contraria ou nega os valores dessa civilização cristã e as verdades imutáveis estabelecidas por Deus através de sua Igreja, representam o mal, o pecado, as fraquezas humanas e a própria ação do demônio. Próprias da civilização cristã, sendo portanto sacralizadas, estão a propriedade privada, a hierarquia social que estabelece desigualdades legítimas, a família de acordo com o modelo cristão, a autoridade etc. ".

Por fim, como observador arguto, nota o Prof. Souza Lima: "Os governos militares não realizaram a tarefa que Plinio considerava mais importante: impedir a presença controladora dos 'esquerdistas' nos meios de comunicação, nas universidades, na imprensa, na Igreja e demais setores importantes de produção e difusão ideológica".

Idéias que marcham para o futuro

A dissertação, ao que parece a contragosto, não querendo contundir de frente a realidade, confessa: "As idéias de Plinio parecem superadas, anacrônicas, incapazes de continuarem convencendo e de criarem novas raízes. Mas, nas principais ruas de São Paulo e de outras numerosas cidades ainda nos deparamos com grupos de jovens vestidos com capas vermelhas, cabelos cortados rentes, portando bandeiras de inspiração medieval, gritando 'slogans' em defesa da tradição, família e propriedade e difundindo com entusiasmo os livros e panfletos escritos pelo líder. A TFP continua organizada e atuante.

Os seus membros não parecem estar abatidos ou desanimados, ao contrário, dão a impressão de estarem fortes e confiantes".

Excetuadas leves insinuações - que é o tributo pago pelo autor às posições ideológicas que adotou - não se pode negar que a realidade está bem observada.

E ante tal realidade, o autor da tese considera a possibilidade de as idéias do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira virem a influenciar o futuro. Eis a última frase da dissertação: "O futuro dirá mais sobre sua [dessas idéias] capacidade de sobrevivência". De fato - ele poderia ter acrescentado - elas já prosperam na América Latina, Estados Unidos, Canadá, Europa e Austrália.

Ainda uma observação final torna-se necessária. Trata-se de lembrar uma omissão existente na tese. Para quem - como o autor da dissertação - estudou detidamente o pensamento e a ação do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, é imperdoável não mencionar uma vez sequer o papel absolutamente central que tem, nos escritos e na vida do insigne mestre, a devoção a Nossa Senhora. Com esta omissão fica negligenciado o fator primordial da propulsão que anima o espírito e a obra do Presidente do Conselho Nacional da TFP: a confiança em Maria Santíssima.

Se o Prof. Lizânias chegasse a compenetrar-se do que significa em toda sua amplitude a ação de Nossa Senhora na História, teria mais facilidade para compreender por que as idéias que - na lógica dos princípios que ele adota - deveriam estar peremptas e anacrônicas, têm, entretanto, na realidade de hoje tanta vida. E entenderia também por que o homem que se identifica com tais idéias, sendo delas o símbolo vivo, a propulsão constante e crescente, está penetrado por tanta certeza da vitória!

Gregório Lopes

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A opinião dos examinadores

A BANCA QUE examinou a dissertação "Plinio Corrêa de Oliveira: um Cruzado do Século XX" estava composta pelos professores Cândido Procópio Ferreira de Camargo, Nicolau Sevcenko e Augustin Wernet. Este último, tendo sido o orientador da tese, preferiu não fazer observações sobre o mérito da mesma. Abaixo reproduzimos, de uma fita gravada na ocasião, algumas observações esparsas dos dois outros examinadores, ambos de orientação ideológica diferente da do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Fazemo-lo a título meramente informativo, sem nos pronunciarmos sobre posições tomadas ou hipóteses levantadas.

Palavras do Prof. Cândido Procópio

"O Sr. escolheu [para sua dissertação] …. personagem que exerceu um papel significativo na vida cultural e política do País.

"Um outro mérito do seu trabalho, de maior amplitude, é que quase todos os historiadores, os sociólogos e os teólogos que estudam o catolicismo no Brasil, estão muito excitados pela linha progressista da Igreja. …. É um mérito do seu trabalho o de pegar a ponta extrema da outra face da Igreja.

"A minha hipótese é que a matriz do pensamento dele [do Prof. Plinio] está nesse pensamento …. antiliberal, anti-burguês, um pensamento que questiona a igualdade das pessoas. … O que ele pensa é exatamente a reação católica face à Revolução Francesa, face às idéias de igualdade entre os homens.

"Um indício que talvez você não observou tanto, …. mas na LEC [Liga Eleitoral Católica] o Plinio foi um fator importante.

"O Arcebispo [D. Carlos Carmelo] subiu, foi posto em São Paulo, e depois de algum tempo o Plinio foi expulso do ‘Legionário’. …. O Arcebispo era getulista.

"Toda a controvérsia [sobre a reforma agrária] girou em termos econômicos. O único que falava realmente nos termos que você tocou [os religiosos] foi o Plinio. Escreveu um livro especial sobre isso. E o Plinio foi lido e meditado".

Palavras do Prof. Nicolau Sevcenko

"Você enfrenta dois grandes tabus desta Universidade. Um dos tabus é tratar de religião, e mais particularmente da religião no seu aspecto conservador, mais particularmente ultra-conservador; e mais, reacionário.

"Eu acredito que a Universidade também tenha essa preocupação positiva de não .... deixar de lado o que é a família, a grande fortaleza que é esse pensamento conservador no Brasil. E você foi logo no fulcro dele, no lado mais radical.

"A comunhão constante, a questão da primeira comunhão, a questão do Sagrado Coração, a constituição dos Congressos Eucarísticos, que .... estão dentro do recorte imediatamente moderno da Igreja, …. e é a eles que diz respeito a militância de Plinio Corrêa de Oliveira. …. Então o Plinio é a modernidade. Ele é o homem dessa máquina e ele quer levar essa maquina às últimas conseqüências.

"Daí esse título instigante que você dá a seu trabalho. …. 'Um Cruzado do Século XX. Cruzado? Sem dúvida. Do século XX? Sem dúvida. …. Não se trata do mesmo cruzadismo dos séculos XI, XII ou XVI, trata-se de um cruzadismo do século XX. … Daí a relação disso com o ultramontanismo.

"É uma utopia organizada como um exército para lutar contra outro exército. O do Bem contra o exército do Mal. Toda essa construção é basicamente iraniana [maniquéia]. Na Idade Média ela foi reformulada a partir dessa matriz da Antiguidade pelos mitos da cavalaria, da literatura de gesta, …. que é a base de toda nossa literatura até hoje. …. E o Plinio entra com toda a força na raiz dessa força milenar. .... Ele tem uma força mítica espantosa. É extraordinário como ele consegue articular conteúdos transtemporais, aos quais nossa civilização tem se agarrado com todas as forças.

"Você também não entra na questão da TFP, a organização interna da TFP. É uma sociedade enorme.

"Acho [seu trabalho] uma contribuição fundamental para o conhecimento da história da Igreja, e mesmo de nossa história política nos últimos 50 anos".