AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES

 

Ambientes, mentalidades,

universos

 

"Catolicismo" Nº 372 - Dezembro de 1981

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NOTA EXPLICATIVA

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira quis assinar a Declaração atestando que os artigos da seção “Ambientes, Costumes e Civilizações” são de sua autoria na "Sala do Reino de Maria" [Ver aqui, item 30], na sede do então Conselho Nacional da TFP. Esta sala reflete, de modo admirável, os princípios que nortearam sua análise da realidade sob o ângulo dessa referida seção.

O artigo abaixo, embora escrito por um discípulo do Prof. Plinio, deixa isto muito patente. Julgamos assim de toda conveniência aqui postá-lo, pois permitirá ao leitor aprofundar no conhecimento desta sala que, a justo título, sempre foi considerada na TFP como símbolo dos ideais de seu Fundador.


"AH! NESTA SALA a gente não tem medo de morrer!" Comentário singelo mas cheio de pensamento, que talvez muito intelectual progressista não teria alma para fazer. A exclamação, no entanto, é de uma velha mulher, simples empregada doméstica, ao ver pela primeira vez a sala apresentada nas fotos desta página. Essa semi-analfabeta compreendeu como tal ambiente predispõe para a eternidade.

Bem mais explícito e elaborado foi o comentário de um nobre francês ao visitar esta sala, em uma de suas vindas ao Brasil: "Nunca vi tanta austeridade no fausto!"

 Muitas pessoas, dentre as numerosas que aí entraram, sentiram-se vivamente impressionadas pela sensação de maravilhoso que a sala produz. A perfeita harmonia do conjunto de móveis e objetos que a compõe, sua unidade possante dentro de uma variedade feérica, causam na alma reta um deleite interior que só a boa ordem pode oferecer.

Por que? Não pelo luxo, por certo. Pois os móveis que a compõem, todos de muito bom gosto, entretanto não são luxuosos.

A sala forma, contudo, determinado clima espiritual e simbólico, dentro do qual a alma se sente bem. O que há de ordenado no interior do homem se harmoniza com a ordem da sala. Esta não constitui um amontoado de móveis e objetos dentro de quatro paredes, mas um todo, um como que pequeno universo.

É sabido que ao se colocarem na mesa taças de cristal de vários tamanhos, tocando-se uma delas com algum metal, esta emite o som que lhe é próprio. Tal som, por sua vez, se reproduz nas demais taças, por semelhança. Dizemos então que os cristais são consonantes. Um faz vibrar os outros.

Assim são as almas perante os ambientes. Serão consonantes com eles, se lhes forem semelhantes — ou diferentes, mas harmônicos. Serão dissonantes, se não se harmonizarem com eles.

Os ambientes, por sua vez, são ao mesmo tempo frutos e formadores de determinadas mentalidades.

*   *   *

Exemplifiquemos com a sala apresentada nesta página. Trata-se da sala de reuniões da sede da Presidência e do Conselho Nacional da TFP brasileira, em São Paulo. Bem analisada, vê-se que suas características são de uma sala temporal. Não é capela. De especificamente religioso, só possui a imagem de Nossa Senhora, ladeada por quatro pinturas representando Anjos, inspiradas naqueles que figuram em quadros e afrescos de Fra Angélico. No entanto, a sala convida à oração, à contemplação.

Na realidade, aí se fazem reuniões nas quais o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira costuma expor o curso dos acontecimentos do mundo de hoje, especialmente no que tange à Cristandade. E em seguida ele analisa tais acontecimentos do ângulo da Filosofia e da Teologia da História, tendo em vista o ensaio "Revolução e Contra-Revolução" (in "Catolicismo" N° 100, abril de 1959, e N° 313, janeiro de 1977), da autoria dele, que é o livro de cabeceira da TFP.

Propriamente, no centro do panorama encontramos a luta entre a Cristandade e a revolução igualitária, esta em seus aspectos mais atuais, o comunismo e o socialismo autogestionário.

Compreende-se então a nota sui generis, imponderável, presente na sala. Destina-se a um fim temporal, sim, mas a uma sociedade humana constituída de batizados, tendo como centro a Nosso Senhor Jesus Cristo. Daí a nota de sacralidade. Esta sala é sacral.

*   *   *

Para que estas considerações não pareçam por demais abstratas, vamos tentar explicitá-las mediante a análise das fotos aqui reproduzidas.

Em primeiro lugar, a visão de conjunto. Que ambiente superior! harmônico! envolvente! nobre! cheio de doçura! — São exclamações cabíveis num primeiro relance de olhos, num primeiro contato com a sala.

Depois, cada alma desdobrará sua primeira impressão em outras considerações, de acordo com seu feitio próprio. E a impressão de unidade brotará mais sólida no espírito.

Em um segundo movimento, a atenção recai sobre os diversos elementos decorativos da sala.

Os tocheiros, por exemplo, cuja luz se difunde pelos pequenos vitrais multicolores de suas cinco lanternas. Nenhum deles repete o outro. Os tocheiros irradiam assim uma luz especial, suave, matizada, a qual não procede da altura do teto, mas também não se localiza no plano baixo de um abajur. Ela paira acima dos homens e dos objetos, constituindo uma esfera própria de irradiação, a meio caminho entre o teto e o piso. Seu brilho não cai perpendicularmente, aos jorros, para suprimir o mistério — natural a seres contingentes e limitados como nós —, mas seu próprio colorido vem ele mesmo cheio de penumbra e delicadeza.

Os olhos fixam-se com muita naturalidade no tapete da parede, cujo sedoso tecido causa admiração. Com seus arabescos coloridos, dominados ao centro por um vermelho rubi, meio furta-cores, ele cria no observador impressão cromática atraente e viva no conjunto cheio de serenidade da sala. É o tapete manifestação de fantasia e variedade sem a qual a sala tornar-se-ia por demais severa, contrastando ele com o equilíbrio suave proveniente do influxo da Igreja.

Outra nota de fantasia encontra-se na gola de tecido vermelho. Onde se supunha que a parede iria terminar, verifica-se uma irrupção de alegria escarlate deitando chamas douradas. Dir-se-ia que a gola iluminada é o diadema da sala.

Embaixo, no entanto, o estandarte da TFP no qual figura o leão rompante, a cátedra, o tapete, as poltronas revestidas de veludo de lã, de cores variadas, conferem uma nota de dignidade, segurança e retidão ao conjunto. E contrastam harmoniosamente com certa frieza do lambri e o metódico dos pergaminhos nele entalhados, os quais, entretanto, conferem àquela nobre madeira uma originalidade e um esplendor dignos de nota. A sala apresenta muitos contrastes, nos quais os elementos desiguais completam-se, segundo um princípio de unidade. O que não existe neste ambiente é a contradição, em que elementos se opõem sem que um princípio de unidade os vincule num plano superior.

Em outro ponto da sala, os vitrais das três janelas derramam luz dourada em seu interior. E a imagem de Nossa Senhora impera ladeada por quatro figuras de Anjos que refletem aquela pureza celestial, característica do estilo de Fra Angélico.

No conjunto, contrastes harmônicos que supõem unidade na variedade — a conhecida definição de ordem.

A alma reta que contempla o ambiente pode, no entanto, ir aprofundando suas considerações, subindo a patamares de panoramas cada vez mais vastos das regiões metafísicas, tocando no sobrenatural.

Não é, pois, sem razão, que a TFP decorou com esmero esta sala. Porque ela deixa ver de modo expressivo a mentalidade de uma família de almas, um universo de cogitações no qual os espíritos estão convidados a habitar, em função dos grandes panoramas históricos, centrados na noção de Cristandade. E neste local destinado a reuniões, mas onde cabem também meditações e orações, compreende-se que a graça divina possa penetrar e envolver todo o ambiente como os raios de sol que, atravessando os vitrais de suas janelas, projetam no piso as belas figuras e desenhos coloridos.


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