Plinio Corrêa de Oliveira

AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES

Tônus aristocrático nos aspectos

 quotidianos da intimidade doméstica

 

"Catolicismo" Nº 162 - Junho de 1964

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Em uma verdadeira democracia, asseverou Pio XII (cf. Alocução de 16-1-1948 à Nobreza e ao Patriciado Romano), deve haver instituições de tônus aristocrático. Não o tivesse afirmado o imortal Pontífice, e os apodos, as difamações, as perseguições do democratismo revolucionário desabariam sobre quem afirmasse essa sentença. Como foi Pio XII quem o disse, o democratismo revolucionário tudo faz para silenciar sobre esta frase, e a lançar ao olvido. E, se alguém a cita, ele conserva um silêncio encafifado e furioso, de boca fechada é certo, mas como que mordendo com olhos contra o insolente que exumou o incômodo texto pontifício.

Habituados a não dar a menor importância aos furores do democratismo revolucionário, não só exumamos esse texto, mas o comentamos. E não só o comentamos mas — o que ainda mais irrita — o ilustramos.

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Esse tônus aristocrático, do qual falava Pio XII, constitui de certo ponto de vista a mais alta afirmação da dignidade humana, a manifestação do que nela há de profundamente respeitável. Neste sentido, as instituições literárias, artísticas, sociais ou outras ( à sua maneira também as corporações de trabalhadores ), imbuídas de uma nota aristocrática, pelo fato mesmo de estimularem a seleção das verdadeiras elites nos vários domínios da atividade humana, beneficiam, elevam e dignificam todo o corpo social, e constituem um fator para a dignificação do homem em qualquer degrau da hierarquia social em que se encontre.

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O homem se senta à mesa, não só para se nutrir, mas para descansar com os seus num convívio despreocupado, ameno, prazeroso.

Por isto mesmo, os objetos de que se circunda nas refeições devem convidá-lo ao repouso, à distensão, ao sorriso próprios a uma decorosa intimidade.

Nossos clichês mostram uma série de pequenos objetos de mesa do século XVIII, nos quais os leitores que têm sensibilidade artística não duvidarão em reconhecer autenticas pequenas obras-primas destinadas a proporcionar ao homem um prazer do espírito quando vê os objetos de sua mesa, ou deles se serve. Leveza, distinção, graça, tudo neles atesta a presença de um tônus verdadeiramente aristocrático, a indicar um alto respeito pelas conveniências espirituais do homem até mesmo no prosaísmo de sua existência diária.

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Esse alto padrão se difundiu naquela época, como é natural, por todo o corpo social, com os competentes matizes. Ele não era monopólio dos grandes, mas representava, pelo contrário, um estímulo a que todos nele se inspirassem, guardadas as devidas proporções. Daí a beleza dos objetos domésticos de então mesmo em camadas muito modestas da população.

As próprias peças aqui exibidas constituem uma prova de quanto esse espírito se embebia em todo o corpo social.

Com efeito, se esses objetos eram para o uso dos grandes, exprimiam não só o tônus que estes sabiam comunicar à sua existência, mas também o gosto maravilhoso dos artistas e artesãos — todos saídos habitualmente do povo — que concebiam e executavam estas pequenas obras-primas.


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