Catolicismo Nº 250 - Outubro de 1971

 

Autodemolição, instrumento de lavagem cerebral

 

Plinio Corrêa de Oliveira

Transcrito da "Folha de S. Paulo", 26.9.1971

 

 

hegar a seus objetivos do modo mais completo, rápido e direto possível, é a preocupação de todo homem sério e sensato. Assim — pondo sua seriedade e sua sensatez operacionais ao inteiro serviço de seus objetivos errôneos e iníquos — os comunistas russos de 1917 visaram extirpar a Religião pelos métodos mais violentos e diretos. Alguns passos dados nessa direção os convenceram rapidamente de que desta forma chegariam, entretanto, a um resultado oposto. As convicções religiosas da esmagadora maioria dos russos, traumatizadas pela violência dos sem-Deus, se transformaram desde logo num formidável potencial de descontentamento. E esse descontentamento, os russos brancos — adversários do regime — desde o início da crise religiosa começaram a utilizá-lo em proveito próprio.

Para os soviéticos, importava no mais alto grau evitar que tal acontecesse. O objetivo da política por eles seguida tomou, assim, um matiz peculiar. Este matiz, aliás, se acentuaria cada vez mais no curso dos acontecimentos, a ponto de ser, em nossos dias, a grande característica da política interna e externa do Kremlin. O objetivo continuava a ser a destruição das convicções religiosas do povo. Mas o meio principal consistiu, de então em diante, em engajar as várias estruturas eclesiásticas num processo de autodemolição.

Para arrancar a fé da alma popular — pensava-se com razão no Kremlin — a mão brutal e estúpida do sem-Deus é incomparavelmente menos eficiente do que a mão ungida, macia, jeitosa, do mau bispo, do mau padre, da freira degradada.

Paralelamente, ninguém é mais eficiente para a propaganda do comunismo do que as pessoas consagradas a Cristo, quando se entregam à prevaricação. Se a Passionária ou Ana Pauker tivessem tido a esperteza de se fazerem freiras, teriam sido incomparavelmente mais úteis ao comunismo do que no papel de viragos vermelhas.

Uma vez assentado que o futuro do ateísmo estaria na autodemolição das Igrejas, os supremos senhores do comunismo só tinham diante de si um problema: como detectar ou "fabricar", nas várias estruturas eclesiásticas da Rússia de então ( greco-cismática, católico-romana, protestante etc. ), os bispos, os padres, os monges e as freiras, que se incumbissem do sinistro mister de matar a Jesus Cristo nas almas. Investigações policiais jeitosas, contatos disfarçados com poltrões ou ambiciosos, prepararam logo os agentes da autodemolição.

Uma lavagem cerebral sabiamente executada através de compressões e descompressões produziria a seguir resultados espetaculares na Igreja largamente majoritária, que era e é, na Rússia, a greco-cismática.

Focalizarei exclusivamente a igreja greco-cismática, dita "ortodoxa", não só pelo seu papel preponderante na vida russa, como porque nela o processo que acabo de descrever foi aplicado inteiramente, e com êxitos retumbantes.

Para maior brevidade, referir-me-ei à "igreja ortodoxa" simplesmente com as iniciais I.O.

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As compressões começaram pela implantação de um clima de graves ameaças, confirmadas de quando em quando por ondas de efetiva perseguição religiosa: céu plúmbeo e sem a menor réstia azul, no qual ribombavam continuamente trovoadas, e de onde caíam de quando em quando chuvas de raios sobre os homens aterrados.

As descompressões eram efetuadas, em seguida, por meio de sorrisos, promessas de segurança e apoio financeiro, e até mesmo de polpudas vantagens, tudo em favor de eclesiásticos da I. O. que consentissem em fazer o jogo comunista. Este jogo consistia em pregar o comunismo na I. O., em atacar, isolar e desmoralizar os eclesiásticos que permanecessem fiéis à posição anticomunista, em dividir, assim, a infeliz I. O. em várias correntes antagônicas, e em espalhar, por esta forma, entre os leigos, a confusão, o cansaço, o desespero. Levados os leigos ao ponto máximo do desacoroçôo, a lavagem cerebral tinha atingido o seu fim: eles começariam a duvidar, e escorregariam da dúvida para a negação.

Como se verá, a lavagem cerebral assim feita por meio da autodemolição, produziu resultados espetaculares. Ninguém se iluda a este respeito. Sem a manipulação da I. O. pelo comunismo, vão teria sido o êxito deste na conquista do Estado. Foi criando uma crise religiosa nas entranhas da I. O., que o comunismo venceu.

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Para que o leitor compreenda tudo, basta agora narrar-lhe como se passaram os fatos.

Primeira fase: descompressão. – Kerensky , precursor e joguete dos comunistas, favorece a I.O.: a) permite a reunião de um concílio; b) refaz a unidade da I.O., restabelecendo o patriarcado de Moscou, supresso pela monarquia há duzentos anos. Encorajado por esses favores, o novo patriarca Thycon, induz o concílio a aprovar uma verdadeira excomunhão contra os comunistas, que entrementes haviam subido ao poder.

Segunda fase: compressão. – A situação é ideal para Lenine, que pode perseguir a I.O., não com ares de quem ataca mas de quem se defende. Assim, o governo soviético revida à excomunhão separando a igreja do Estado e proibindo todo e qualquer ensino religioso. Ainda desta vez Thycon se mostra corajoso. Ordena preces, jejuns e procissões. Choques entre os sem-Deus e a população se produzem por toda parte. A ameaça de uma imensa perseguição religiosa paira como uma nuvem negra sobre as vastidões do país. Em todos os meios religiosos o heroísmo se inflama, a aspiração à luta e ao martírio se propaga. A fase heróica da luta da I.O. atinge seu zênite.

Terceira fase: descompressão. – Mais uma vez era o momento ideal para Lenine. Por meio de descompressões, ele soube transformar todo esse esplendor numa vergonheira!

Para isto o ditador vermelho lançou uma oportuna manobra de descompressão em 1919. Anunciou ele que não queria "ferir os sentimentos religiosos do povo". Permitiu a reabertura do ensino religioso nos institutos teológicos e franqueou as ruas para a realização de procissões religiosas. O fruto que ele colheu de tão magras concessões foi imediato. Thycon declarou que se o comunismo cessasse seus ataques à I. O., esta deixaria de hostilizar o regime. E emitiu uma publicação oficial, recomendando que os membros da I. O. deixassem de apoiar os russos brancos. A partir deste momento, estavam divididos os inimigos do comunismo.

Por sua vez, a I. O. foi trincada por manobras comunistas. Três bispos lacaios do Kremlin, Sérgio, Antonin e Leonid, acusaram Thycon de não ter feito suficientes concessões aos soviéticos. Thycon queria manter-se mais ou menos neutro entre anticomunistas e comunistas. Os três bispos-lacaios reivindicavam para a I. O. uma atitude mais radical, isto é, de decidido apoio ao comunismo. Como não foram ouvidos por Thycon, fundaram uma ala dissidente que viria a constituir a futura "Igreja Viva".

Quarta fase: compressão. – Depois de divididos e subdivididos os adversários, Lenine passou a uma nova compressão. Deu-se isto em 1921. Sob pretexto de atender aos famintos, o governo soviético decretou o confisco de todos os objetos preciosos que se encontravam nas igrejas da I. O. Thycon cedeu, ressalvando timidamente os objetos históricos ou de caráter estritamente sagrado. Os bispos pró-comunistas, considerando sem dúvida que o esplendor do culto era incompatível com o regime, protestaram. Aprofundou-se, assim, a cisão na I. O.

Lenine mandou então prender Thycon e iniciar processos criminais contra os eclesiásticos que se recusavam a entregar aos sem-Deus os objetos sagrados. A pena solicitada era a de morte. A fim de enxovalhar a I. O., o bispo Antonin a mando dos soviéticos, compareceu como testemunha contrária a sacerdotes fiéis. Ele os empurrava assim para a morte. A infâmia da "Igreja Viva" não parou nisto. Enviou uma delegação ao Mosteiro da Trindade, onde Thycon estava preso e incomunicável. Todas as barreiras se abriram diante dos visitantes, por ordem do governo. A delegação pedia que Thycon renunciasse. Esse último, sempre tímido, cedeu. Nomeou ele mesmo um substituto interino, o metropolita Agatângelo. Pouco depois, Thycon — talvez sob torturas — assinou um documento de apoio ao comunismo, e de condenação do anticomunismo. Isto não bastou. O pobre miserável morreu pouco depois, em condições misteriosas. A pressão, entretanto, continuava. Sob o peso dela, a I. O. cindiu-se em dois fragmentos: a Igreja "thyconiana", que continuou a ser perseguida, e a Igreja não "thyconiana", explicitamente pró-comunista. Esta última se subdividiu, por sua vez, em três fragmentos: a "Igreja Viva", a "Igreja Renovada" e a "União das Comunidades Apostólicas".

Não se julgue que estas cisões nas Igrejas esquerdistas debilitavam o jogo do Kremlin. Muito pelo contrário, estavam em seu programa. A missão delas era de se matarem a si mesmas, já que a autodemolição das Igrejas era o objetivo do Kremlin. E a autodivisão é meio possante da autodemolição.

Quinta fase: descompressão. – Para as Igrejas não thyconianas, a compressão cessou imediatamente. A Igreja thyconiana sofreu, por sua vez, um processo interno, que redundou em uma completa capitulação. Severamente perseguida, acabou ela — na pessoa do metropolita Sérgio, sucessor de Agatângelo e substituto interino do falecido Thycon — por aderir oficialmente ao comunismo e por fulminar uma condenação ao anticomunismo. Deu-se isto em 1927, por ocasião do décimo aniversário da ascensão do comunismo ao poder.

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Assim, em 10 anos, a vergonheira tinha triunfado. E os eclesiásticos tinham destruído pela autodemolição a igreja a que pertenciam. A política anti-religiosa do Kremlin brilhava com a luz de todas as vitórias. Pois melhor é ter aos pés um adversário agonizante, que se degradou e autodemoliu, do que um adversário que aceitou nobremente um martírio heróico. Em nossos dias, a I. O. autodemolidora vai continuando a devorar o que resta dea religião entre os "ortodoxos", como um câncer devora o corpo.

À testa dessa hierarquia-câncer está o "patriarca" Pimen, a quem, em tão triste hora, o Padre Arrupe, o ilustre sucessor de Santo Inácio, visitou há pouco!