Catolicismo Nº 109 - Janeiro de 1960

 

A Revolução em 1960

 

Plinio Corrêa de Oliveira

 

A Cidade Proibida - Catolicismo Nº 109 - Janeiro de 1960

Um passeio pela Cidade Proibida, o antigo Palácio Imperial. O processo das três Revoluções também se operou, com as necessárias adaptações, na história da China. A antiga ordem imperial, viciada embora pelos maus fermentos do paganismo, tinha muito de digno e legítimo. A proclamação da república trouxe como péssimos corolários a introdução desabrida dos germes revolucionários do Ocidente e o desmantelamento de toda a ordem antiga. O regime de Chang-Kai-Chec, provisório e sem raízes, mas respeitável em vários de seus aspectos, acabou varrido pela terceira Revolução. A China comunista vai sendo hoje o terror do mundo.

Tornou-se tradição desta folha publicar em sua edição de janeiro um retrospecto dos acontecimentos do na o findo. Em lugar disto, pareceu-nos mais adequado, desta vez, fazer uma análise dos problemas que, neste voltar de página da história do século XX, se apresentam como mais importantes e candentes.

Dupla face

Em muitas polícias existe o hábito de "tratar" os depoentes recalcitrantes por um sistema que se poderia chamar da ducha fria e da ducha quente. A pessoa de quem se procura extorquir uma informação é argüida por um agente tremendamente furioso. Se, esgotada toda a pirotecnia das táticas de intimidação, o interrogado não faz a revelação desejada, o agente se torna subitamente afável, carinhoso, "compreensivo". Elogia a nobre constância de sua vítima, manifesta sua compaixão pelos sofrimentos que ela arrosta, oferece-lhe seus préstimos comovidos para tirá-la da situação em que está. Só pede uma coisa, uma coisinha pequena e fácil: que em justa retribuição a tanta bondade, ela conte ao policial – oh, a ele só, é bem claro – o segredo tão obstinadamente guardado. Se a vítima resiste, volta-se ao sistema de berros. Ou, mais drasticamente, passa-se para os soros da verdade ou as salas de tortura...

Quando o assunto que ser quer conhecer importa muito, costuma haver um desdobramento de papéis. Um policial faz o papel de fera, e outro o de "bonzinho". Ao que parece, a maior parte das pessoas se mostra muito "sensível" a esse "tratamento", e acaba deitando no coração do "bonzinho" o segredo que a "fera" não lograra extorquir.

A dupla face comunista

Este sistema, em que o terror induz a vítima a considerar com pusilânime otimismo o "agente bom" que é sua tábua de salvação contra o "agente mau", não se emprega apenas para obter confissões policiais. Ele é utilizado também em política. Põe-se o adversário diante da ameaça de um terrível perigo que ruirá sobre ele caso não ceda neste ou naquele ponto. Após um longo período de guerra de nervos, a vítima transigirá com algum representante de seu opositor, no gênero "bonzinho". Concederá apenas uma parte do que se lhe pediu, e julgará fazer assim um bom negócio. Depois de uma pausa, o representante "bonzinho" será posto de lado e voltar-se-á à ameaça. Em seguida, virão novo "bonzinho", nova concessão, nova pausa e nova ofensiva de ameaças, até final liquidação do adversário.

Ora, todo o ano de 1959, como os anteriores, foi utilizado pelo comunismo internacional para depauperar por este processo a vitalidade da reação anticomunista no mundo inteiro. Só que, em 1959, a ação política da União Soviética entrou francamente na fase correspondente ao policial "bonzinho" e na operação "sorriso".

Em edição recente (1), já nos referimos, com toda a extensão desejável, à manobra pela qual o comunismo russo foi mudando gradualmente de atitude, até chegar à risonhíssima visita do risonhíssimo K. aos Estados Unidos. Entretanto, nossas referências ao papel da China nesse jogo foram menos pormenorizadas. É o caso, pois, de voltar ao assunto neste mudar de ano.

A Revolução tem por ponto de mira eliminar toda influência cristã no mundo.Ora, desde o declínio do poderio muçulmano nos Tempos Modernos, pode-se dizer que os povos-líderes da terra foram sempre cristãos. O império da Casa d’Áustria, a hegemonia política e cultural francesa, a dominação inglesa no século XIX, o poderio dos Estados Unidos, que se tornou há algumas décadas verdadeiramente dominante em boa parte do globo, por fim a ascensão da terrível influência da URSS não alteraram essa constante. Com efeito, cristãos em situação correta, saudável e normal só os católicos, apostólicos, romanos, filhos a única Igreja verdadeira de Nosso Senhor Jesus Cristo. O cisma e a heresia constituem para o cristão situações revolucionárias, enfermiças e anormais. Contudo não se pode negar que o povo inglês, o americano ou o russo, em sua maioria, é constituído de cristãos. O fato pareceria à primeira vista, particularmente sem importância no que diz respeito à infeliz Rússia, dominada por uma malta de ateus. Na realidade, quanto seria pior a situação do mundo se não fosse notório que a aplicação integral do comunismo naquele país tem esbarrado em toda uma série de resistências – passivas, aliás – decorrentes da índole e da tradição cristã do povo; e se os dominadores desse mesmo povo não encontrassem dentro de casa toda espécie de obstáculos, e pudessem agir com as mãos livres no exterior!

China, "a outra face"

Ora, a China é precisamente uma nação que em sua imensa maioria jamais foi cristã. Se bem que de seu glorioso passado imperial lhe advenham muitas tradições formalmente opostas ao comunismo, é preciso lembrar que o processo de ocidentalização a que ela já está sujeita há um século – arredondamos um tanto a cifra –, a proclamação da república, a penetração dos germes terríveis da Revolução que grassa no Ocidente, o espírito igualitário, laicista e sensual que infelizmente impregna quase tudo quanto a China vem importando, o prolongado período de guerras internas que abalaram todos os seus quadros sociais até a queda de Chang-Kai-Chec e o advento do comunismo, tudo enfim vem concorrendo de há muito para debilitar a resistência oposta pelas estruturas e tradições chinesas ao comunismo. Ademais, se é verdade que a Igreja tem prosperado muitas vezes ( e nem sempre, note-se de passagem ) com as perseguições, também é verdade que estas costuma destroçar tudo quanto não é católico. O protestantismo, por exemplo, sofreu um tremendo retrocesso com o nazismo, a igreja cismática foi quase aniquilada na Rússia bolchevista. Pois o que ali se encontra com esse nome é mais um fantasma suscitado pelos maquiavéis do Kremlin para efeitos de propaganda, do que propriamente uma seita religiosa.

Assim, o marxismo encontra, numa China em que sobre o velho tronco pagão se insere o venenoso enxerto neopagão, verdadeiramente uma terra e eleição.

De onde, engrandecer a China às expensas da Rússia é transferir gradualmente a preponderância para o pior dos elementos do mundo comunista.

Ora, é neste processo que está em curso no presente momento. Constitui ele o verso da medalha da "aproximação" da União Soviética com o Ocidente. A China comunista vai ocupando lentamente a Ásia. Infiltrou-se rumo ao sul, até fazer estremecer Singapura e a Austrália. Deglutiu o Tibet com uma selvageria de canibal. A Índia estremece diante dela. Em palavras mais breves, um continente quase inteiro está ameaçado com o crescer deste polvo. E o Micado, o Xá, o Rei da Jordânia ou o Generalíssimo Chang-Kai-Chec sentem que em breve estarão passando pelas mesmas aperturas de Nehru, senão do Dalai Lama.

Os fracos e amáveis camaradas soviéticos

Faça-se o balanço. Enquanto os "duros" de Pequim vão ganhando a Ásia, o que vai ganhando a URSS? Ela mantém a custo seus satélites. A Hungria continua uma chaga viva. A Tcheco-Eslováquia permanece esmagada sob o tacão soviético, suspirando pela libertação. Na Polônia, a política "distensiva" de Gomulka cessou. Quanto mais se vai tornando fácil à Rússia lançar satélites em torno da lua, tanto mais lhe vai ficando difícil conservar reunidos em torno de si os seus próprios "satélites".

Assim se vai acentuando a bicefalia do mundo comunista: uma cabeça está em Moscou e outra em Pequim.

E essas cabeças têm fisionomia e linguagem diversa. Uma olha gentil, sorri, e começa a parecer fraca. A outra carrega o olho, ameaça e vai-se tornando sempre mais forte.

Perspectivas para 1960

Afigura-se-nos que, salvas as mutações imprevistas, tão freqüentes nestes dias de caos, o ano de 1960 vai ser marcado por um paulatino desenvolvimento dessa manobra. Na União Soviética a Revolução entrará, ao que parece, em sua fase "pós-termidoriana", isto é, numa fase recessiva e moderantista, análoga à que a Revolução Francesa percorreu depois da queda de Robespierre: liberdade para os perseguidos da véspera, abrandamento na aplicação dos princípios revolucionários, boas relações com os povos vizinhos, reabertura das fronteiras para o que era uma forma ancestral do turismo de hoje. Na aparência, a Revolução era um dragão exausto e malferido, que, por falta de melhor, se punha a sorrir. Ninguém ousava atacar o dragão, com receio de que ele recobrasse na lutar seu antigo vigor. Em conseqüência, todos começaram a corresponder ao seu sorriso. Entrou-se em regime de convívio sem barreiras. E o resultado, para abreviar a história, foi que, cem anos depois, a Revolução já era virtualmente senhora da Europa e do mundo.

Da mesma forma, a Rússia tentará anestesiar e dividir o Ocidente cada vez mais, enquanto a China irá tomando paulatinamente ares de flagelo mundial. Parecerá necessário aceitar o amplexo russo, a aliança do Kremlin, para fazer face ao monstro chinês. Nesse amplexo com a lepra, esta nos contagiará. Teremos para com o novo aliado todas as fraquezas, as condescendências, as imprudências que tivemos para com Tito. E assim a hidra comunista irá progredindo.

Venenosas primícias da política de dupla face

Falamos de cisão. É preciso dizer algo a respeito.

A boa harmonia entre a França e a Alemanha é, segundo nos parece, um dos melhores elementos para defender a Europa contra os soviéts. Ora, precisamente em razão da "operação sorriso", tal harmonia se quebrou.

Com efeito, a URSS retirou todo o apoio que dava aos argelinos insurretos. De Gaulle parece ter vislumbrado aí uma prova da sinceridade russa em Camp David, e está se aproximando do Kremlin. Está até programando uma visita de K. a Paris.

Ora, o velho e astuto Adenauer não concorda com essa concepção. Para ele, não há sinceridade nos soviéticos, e tudo não passa de manobra.

E é o Chanceler que tem razão. Enquanto a Rússia parece retirar-se do campo de ação argelino e, de modo geral, esfriar suas relações com o mundo árabe, a China lhe vai sucedendo nesse terreno, e já é hoje uma da melhores aliadas do pan-arabismo e da FLN.

Em conseqüência, no fundo, o comunismo lucra de um modo e de outro. Aparentando "sair" da Argélia, ganha um crédito de confiança em Paris, e cinde de Gaulle e Adenauer. "Entrando" na Argélia pela outra porta, continua a trabalhar para expulsar da África do Norte a influência francesa, e a captar as simpatias do mundo árabe.

O papel das minorias sãs

A China, dizíamos, vai lentamente começando a intimidar e a imobilizar os poltrões do Ocidente. A Rússia, cada vez mais, agrada, ilude e atrai os tolos. Uns e outros, poltrões e tolos, tendem a recuar, transigir, conciliar a todo custo. E, francamente, quando alguém tem de seu lado todos os tolos e todos os poltrões, pode jactar-se de dispor de uma esplêndida maioria...

Estamos perdidos? Não, porque as vitórias de Deus nunca foram ganhas pelas incontáveis maiorias de tolos e poltrões, mas pelas minorias cheias de fé, de abnegação e de coragem.

Mais do que nunca, neste limiar de 1960, torna-se patente a importância dessas minorias para abater o monstro de duas cabeças que se levanta no horizonte. Sem elas, nada se pode fazer de útil em prol das multidões desnorteadas, anestesiadas, apavoradas... Nada se pode fazer pela massa, senão com fermento ativo e pujante. Há vinte séculos o disse Nosso Senhor ( cf. Mt. 13, 33 ), mas os homens tendem sempre a esquecê-lo. Entretanto, como é fácil compreender a lição do Mestre Divino, nestes primeiro dias de 1960!

O revigoramento do bom fermento parece-nos ser o sentido mais profundo do Concílio Universal que em tão boa hora João XXIII resolveu convocar.

Dizemo-lo agora só de passagem, pois mais adiante pretendemos voltar a tratar desse santo e nobre assunto.

Cuba, paiol da América

Lemos há pouco a vida de Santo Antônio Maria Claret, fundador da benemérita Congregação dos Filhos do Coração de Maria. Esse grande varão de Deus foi Arcebispo de Santiago de Cuba de 1850 a 1857. Considerando os numerosos pecados dos espanhóis na colônia, predisse que, como castigo, a ilha se tornaria independente. O fato se deu pouco depois, como é notório. Castigo para a Espanha, por certo. Mas, em medida não pequena, castigo para Cuba também, pois como mostra sua biografia, o Santo foi de certo modo rejeitado pelos cubanos. A independência foi mais ilusória do que real. O domínio norte-americano ali se implantou mais ou menos veladamente. E, se trouxe benefícios temporais ( grandes para os Estados Unidos, medíocres para Cuba ), é fora de dúvida que para a preservação dos valores religiosos e espirituais foi sob vários aspectos um mal.

Parece agora repetir-se a história. Cuba sacode o jugo norte-americano, o que é explicável castigo para o mal que os ianques ali fizeram. Mas esse sacudir de jugo não é, infelizmente, um passo para uma justa e louvável independência, mas para a troca de senhores. E uma troca por um senhor mil vezes pior, pois que só um demente poderá achar que o jugo norte-americano é comparável ao comunista, tão completo, tão cruel, tão degradante. Ora, é positivamente uma violenta e trágica penetração comunista que em Cuba se vai operando.

Em Cuba só? É inegável que o movimento fidel-castrista teve uma influência terrivelmente contagiante nas Antilhas, na América Central e na parte setentrional da América do Sul. De outro lado, produziu ele algumas reações de simpatia em todas as outras áreas do mundo ibero-americano.

Dado que a pavorosa crise econômica por que passa boa parte da América Latina produz reflexos políticos e sociais tendentes à revolta e ao desespero, é de se compreender que as fagulhas cubanas encontrem por aqui um ambiente propício à combustão. Tanto mais que o mimetismo é um triste vício da gente deste hemisfério.

E, assim, vale a pena tratar detidamente da questão.

"Não é comunista"

O ponto capital de todo o assunto cubano consiste em saber se Fidel Castro é comunista e está a serviço dos agentes soviéticos.

Se fosse possível documentar a resposta afirmativa, é certo que duas conseqüências da maior importância se produziriam:

  1. o contágio do clima, do estado de espírito e dos estilos fidel-castristas na América Latina, tão católica, estaria praticamente impedido;

  2. a opinião americana perderia qualquer ilusão sobre a sinceridade dos soviéticos na "operação sorriso".

Por isto se compreende que, caso o Kremlin seja o mandante do atual ditador cubano, a primeira recomendação que terá feito a este é que esconda tal ligação.

De onde, o fato de Fidel Castro dizer que não é comunista, e até dar certas manifestações de apoio à Igreja, em si mesmo nada prova. Apesar disto, a dúvida continua. E o importante é saber se realmente o jovem líder revolucionário é ou não agente de Moscou.

P.C., armazém de pancadas

Um modo muito fácil para um assecla do Kremlin disfarçar suas intenções, e ao mesmo tempo agir livremente, consiste em entrar em luta contra o partido comunista, enquanto vai preparando tudo para que o comunismo triunfe. Isto embai os incautos, que julgam impossível que um agente de Moscou ataque o próprio partido de Moscou. E, protegido por esse álibi, o agente poderá fazer o que quiser em benefício do comunismo.

Fidel Castro, neste ponto, tem sido dos mais ambíguos. Namora o P.C. Mas briga um pouco com ele. E, sobretudo, tem a astúcia de não deixar transparecer nada de claro sobre suas ligações com o Kremlin.

As pessoas bem intencionadas, que intuem que tais ligações existem, procuram, à falta de melhor, provar com os indícios de que dispõem, a realidade profunda dos fatos. Mas, para impressionar o homem simplista e irrefletido de hoje, só servem provas palpáveis, de uma clareza elementar e quase brutal. Provas dessas, ao que parece, não existem. E, assim, Castro continua calmamente seu jogo.

Argumento baseado no evolucionismo

Seria muito mais fácil esclarecer pelo menos as elites, se se lhes lembrasse antes de tudo que, segundo a doutrina marxista, o advento do comunismo em um país pressupõe que toda a evolução social o tenha "maturado" para tal.

Assim, em uma nação dada, ainda que o partido comunista tivesse meios materiais para conquistar o poder, não o faria se o estado dos espíritos, das instituições e dos costumes não o comportasse. Os bolchevistas em tal caso favoreceriam a ascensão de um partido de esquerda que acelerasse a evolução social, e só depois de levada assim a cabo tal evolução, eles se instalariam direta e ostensivamente no governo. Nem outra coisa se compreenderia numa corrente fundamentalmente evolucionista, como é o marxismo. Para responder se o primeiro-ministro cubano é ou não um agente soviético, o que importa, pois é saber se sua ação acelera a evolução para o comunismo. Neste sentido, pode-se dizer que a resposta afirmativa se impõe com uma clareza solar.

Se Fidel Castro é tão útil ao comunismo, será que este não o suscitou, ou pelo menos não lhe ofereceu apoio? E se ofereceu, será que o interessado não aceitou? E se aceitou, será que a Rússia já não tem tudo preparado para colher o fruto, quando maduro?

Só um ingênuo poderá responder "não" a todas estas perguntas.

Cuba não é o único fruto

Claro está que Cuba só pode ser vista como cabeça de ponte, como estopim.

Então, qual é o termo último? Evidentemente a América Latina, que já é a melhor reserva para a Igreja em nossos dias, e humanamente constitui sua melhor esperança para o século XXI.

Até que ponto essa misteriosa, longa e desalentadora crise econômica por que passamos é uma preparação do fidel-castrismo? Só no Juízo Final, provavelmente, isto se patenteará com uma clareza inteira. Mas o certo é que a hora é, para nós, mais do que nunca, de oração, vigília e luta.

Auxilie-no Nossa Senhora a caminhar com confiança e fidelidade sob estas brumas e na perspectiva destas borrascas.

Ouviremos em 1960 a Voz de Maria

O segredo de Fátima será manifestado ao mundo em 1960, segundo decidiu seu depositário, o Episcopado Português. Não é, por certo, sem uma especial intenção da Providência que ouviremos nessa ocasião a confidência celestial. E essa é uma de nossas razões de alegria nesta passagem de ano.

O que nos dirá a Virgem Santíssima? É prematuro responder.

Mas é possível prognosticar o que Ela não dirá.

Por exemplo, achamos sumamente duvidoso que, como em certos círculos se tem propagado, o segredo contenha um mero resumo do que já se sabe que foi dito na Cova da Iria. Pois parece inverossímil que alguém guarde sob segredo pensamentos ou conselhos que já comunicou a todo o mundo.

De qualquer forma, peçamos a Nossa Senhora que disponha nossos corações para ouvir com amor e obediência suas palavras maternas.

Um papa providencial

O ano de 1959 foi suficiente para fazer ver ao mundo que a Providência entregou a um Pontífice sábio, justo e paterno a sucessão do inesquecível Pio XII.

Nestas condições, encaramos o porvir com particular confiança. Pois a ovelha caminha tranqüila em qualquer terreno, e ainda que sinta de longe e de perto o uivar dos lobos, quando sabe que está protegida por seu Pastor.

O Concílio Universal

As esperanças com que atravessamos o limiar do ano vão além de 1960. Elas se voltam para esses dias de verdadeira aurora que serão os do Concílio Universal. Pode-se quase dizer, aplicando as palavras de São Paulo ( Rom. 8,22 ), que na desordem, nos entrechoques, nas vacilações e nos desatinos destas horas torvas, "todas as criaturas gemem" à espera do Concílio Ecumênico.

E é nestas imensas perspectivas que, com os olhos postos no Coração Imaculado de Maria, transpomos, com o passo leve e a alma serena, os últimos minutos de 1959, e penetramos resolutamente em 1960.

Os versos do hino mariano vibram em nosso ouvido e aquecem nosso coração:

"De mil soldados não teme a espada

Quem pugna à sombra da Imaculada"


( 1 ) “A novíssima arma da estratégia soviética”, Plinio Corrêa de Oliveira, n° 107, de Novembro de 1959