Catolicismo Nº 15 - Março de 1952

 

O PENSAMENTO CATÓLICO PERANTE AS CERIMÔNIAS DA SUCESSÃO INGLESA

 

A Coroa da Inglaterra atrai no momento todas as atenções, tanto pela simpatia universal de que gozava o falecido Rei Jorge VI, quanto pela imponente e severa solenidade dos funerais, pelo brilho e pitoresco das cerimônias da proclamação e coroação da nova Rainha, e pela importância que, mau grado as circunstâncias adversas, ainda conserva na política mundial o Império Britânico. O fato é que o maior cetro do globo será, agora, empunhado por uma jovem que tem dado mostras de vigorosa personalidade, ao par de indiscutível encanto pessoal; o fato de que a essa jovem incumbirá lutar pela sobrevivência do Império e das próprias instituições monárquicas em um mundo profundamente trabalhado por fatores hostis tanto à monarquia quanto à "Commonwealth", concorre, em medida não pequena, para atrair muito especialmente todas as atenções para Londres; e este movimento de atenção irá num crescendo até atingir seu apogeu no dia da coroação.

Por maior que seja este movimento de atenção e simpatia, há desde já vozes divergentes, cujo clamor paralelamente se irá acentuando. A própria existência da "Commonwealth" contraria grande número de interesses, alguns do quais legítimos. A política inglesa na Europa criou fundos ressentimentos, que estão longe de se ter apagado. No mundo inteiro, o fluxo das tendências niveladoras, avolumado pela onda comunista, leva naturalmente os espíritos a não compreender nem aceitar todo o aparato tradicional e solene dos funerais do Rei, da aclamação e coroação da Rainha. Não pretendemos abordar aqui todos os aspectos destes múltiplos e graves assuntos. Destacamos apenas um - o conjunto de cerimônias dos funerais, da aclamação e da coroação - para sobre ele fazer algumas considerações.

As características essenciais das cerimônias da sucessão

Sem dúvida, vistas em seu todo, estas cerimônias apresentam um aspecto brilhante, e mesmo empolgante, para a consideração dos historiadores, dos artistas, dos homens de sociedade, e até dos turistas. Analisadas as coisas mais a fundo, seria entretanto realmente o caso de perguntar se o desenrolar de pompas tão opostas ao espírito de nossa época não merece censura, máxime se se considerar que - embora, com algumas economias - elas acarretarão gastos vultosos em um país trabalhado pela crise econômica do "post guerra", e sujeito a um terrível programa de "austerity".

Fixemos os traços essenciais por onde todas estas pompas entram em contradição com o espírito de nosso tempo: a essência religiosa, o cunho tradicional e o aspecto hierárquico. E, como tema de reflexão e estudo, consideremos mais especialmente a coroação, que compreende em si, arquetipicamente, as notas características de todas as outras.

Origem divina do poder e soberania popular

Enquanto todos os chefes de Estados democráticos de nossos dias se empossam em cerimônias estritamente leigas, a coroação continua sendo, em pleno século XX, um ato essencialmente religioso.

Em resumo, é das mãos de dignitários eclesiásticos, num edifício eclesiástico, durante uma solenidade eclesiástica, que o Rei recebe sua investidura. E durante essa cerimônia presta ele um juramento de fidelidade a seus deveres como membro de determinada organização eclesiástica. É bem evidente, a este propósito, que um católico não pode senão aprovar esta nota das cerimônias de coroação. Fiéis ao ensinamento da Igreja, repudiamos o princípio de que o poder vem do povo. Todo o poder vem de Deus. E, assim, nada mais normal do que o caráter religioso do ato de investidura de um Chefe de Estado. Não se trata aqui de um aspecto secundário da realidade política de nossos dias. A malfadada separação entre a Igreja e o Estado habituou os católicos, e às vezes até os mais fervorosos, a considerar a vida civil e a vida religiosa como compartimentos absolutamente estanques. Entretanto, em relação a Deus nada há que possa constituir compartimento estanque: tentar sê-lo importa em revoltar-se. E o Estado separado da Igreja é, enquanto tal, um Estado em revolta contra Deus.

Aprovando o caráter religioso das solenidades da coroação na Inglaterra, não podemos fazê-lo, entretanto, sem uma restrição muito grave. Com o coração pesado de tristeza, devemos lembrar que a Inglaterra, que outrora foi uma nação tão profundamente católica que chegou a ser chamada "Ilha dos Santos", está hoje separada da Igreja. Se bem que exista na Grã Bretanha uma forte e disciplinada minoria católica, a grande maioria é protestante, e a igreja anglicana é oficialmente reconhecida como verdadeira pelo Estado. É pois de uma seita herética, que o Rei recebe sua investidura. A este propósito, há ainda uma observação triste, a fazer. Segundo a doutrina anglicana, o Rei é oficialmente, não só chefe do Estado, mas também da própria hierarquia eclesiástica. Por isto, durante a cerimônia da coroação, há ritos que o elevam à dignidade de bispo anglicano, colocando-o à testa da igreja oficial inglesa. Este fato representa simbolicamente a sujeição da religião ao Estado, na Inglaterra, o que constitui monstruosa inversão de valores, inteiramente oposta à doutrina católica, segundo a qual o poder eclesiástico é soberano, não sendo sujeito, em sua esfera, a nenhum poder deste mundo.

Tradição e progresso

De outro lado, há o caráter tradicional e, portanto, anacrônico das cerimônias ligadas à sucessão da coroa. A maior parte dos trajes, dos ritos, dos símbolos usados por ocasião dos funerais, da aclamação e da coroação corresponde a fatos e situações do passado, parecendo em violento contraste com as idéias e os usos de nossos dias. Deste anacronismo, o que pensar?

A questão se prende a outra mais profunda. Deve um povo conservar vivas as recordações de seu passado, evocando-as com particular insistência e solenidade nas grandes ocasiões de sua vida coletiva? Ou deve esquecer sua história, vivendo só da hora presente?

Para um católico, a resposta não pode deixar de ser a favor da tradição. Em princípio, um povo que renuncie a seu passado renuncia a si próprio. Pois o que um povo tem de mais essencial, de mais típico, de mais seu, é a alma nacional. E esta alma nacional, esta comunidade de modos de pensar, de ser, de sentir, de agir que constituem o espírito de um país, evidentemente não nasce e morre a cada momento, mas é o produto de uma longa maturação histórica, que vem do passado, prossegue no presente, e vai deitando raízes para o futuro. A mentalidade de um povo, em determinado momento - no dia de hoje, por exemplo - não é senão uma resultante das influências de sua História, e das circunstâncias peculiares desse momento. Assim, no Brasil de hoje, a alma nacional é constituída por elementos morais e afetivos em que não é difícil discernir a influência de fatos da era colonial como a catequese e o bandeirismo, da era imperial como a unidade nacional e a glória militar das guerras com as nações platinas, e da era que lhe sucedeu, assinalada pelo florescimento prodigioso da iniciativa privada no terreno econômico, a industrialização, e a participação do Brasil nas vitórias das duas guerras mundiais. Comemorando os vários fatos históricos deste já não curto passado, outra coisa não fazemos, senão reavivar em nós as notas típicas que cada um deles deixou na alma nacional. Ou, em outros termos, reavivamos a própria alma nacional em todos os seus elementos essenciais e característicos.

Quando um povo tem o longo e brilhante passado da Inglaterra, é louvável que revigore o espírito nacional ao calor de sua história. E melhor meio não há, senão a manutenção das grandes solenidade nacionais, para completar de modo vivo e profundo o que o ensinamento da História no curso secundário ou superior tem de inevitavelmente livresco e inerte.

No caso inglês, há ainda uma particularidade notável, que acrescentar. É que, fiel a suas tradições, a Inglaterra ainda constitui hoje uma das nações mais prósperas e adiantadas do mundo. Por onde os britânicos mostram que seu apego à tradição não é rotina, não é rejeição sistemática de tudo quanto é novo: é uma harmoniosa inserção do que, no passado, deve ser perene, no que o presente pode ter de útil, e quiçá de grande.

É claro, portanto, que deste ponto de vista os católicos não podem senão aplaudir o espírito tradicional das cerimônias que se iniciaram na Inglaterra e se desenrolarão até a coroação. E isto tanto mais quanto a própria Igreja Católica, no cunho profundamente tradicional de sua liturgia, e no aparato também profundamente tradicional da Corte Romana, outra coisa não faz, senão praticar e ensinar os mesmos princípios de um sábio apego ao que o passado tem de louvável e perene.

Humildade crista e espírito revolucionário

Quando o indispensável recuo do tempo se estabelecer, e os historiadores futuros puderem, por fim, estudar a época em que vivemos, é certo que assinalarão como a idéia-rectrix, da mentalidade do homem do século XX, a igualdade. Igualar, em tudo e por tudo, é o ideal, mais do que isto a mania de nossos coetâneos. E, por isto, as suas antipatias se voltam inteiramente e instintivamente para tudo quanto signifique desigualdade; nivelam-se os pais com os filhos, os mais velhos com os mais moços, os maridos com as esposas, os professores com os alunos, os patrões com os empregados, os nobres com os plebeus, os ricos com os pobres, etc. Em qualquer terreno em que nosso século se tenha diversificado do anterior, ver-se-á que a transformação se fez em sentido nivelador.

Ora, as cerimônias ligadas à sucessão do trono e especialmente à coroação de um Rei da Inglaterra nos trazem aos olhos a imagem rediviva de uma sociedade toda ela baseada sobre a hierarquia: as três classes sociais, Clero, nobreza e povo, nitidamente diferenciadas, ocupando cada qual uma categoria no protocolo - e o protocolo não é aqui senão uma imagem do que foi a vida - correspondente às suas funções. No seio de cada uma destas classes, novas hierarquias internas, novas divisões: arcebispos, bispos, simples clérigos, duques, marqueses, condes, barões, baronetes, e por fim a gama menos precisa, porém não menos real, das organizações ou instituições plebéias.

 

Esta desigualdade de funções, de nível, de condição de vida, não é disfarçada como as poucas desigualdades que ainda sobrevivem em nossos dias. Pelo contrário, ostenta-se nos trajes, nos símbolos, na colocação de cada qual no recinto do templo, e no desfile que antecede e termina a cerimônia. Tudo isto nos desagrada porque a própria hierarquia nos parece antipática. O que deve pensar um católico deste descontentamento?

Antes de entrar no mérito da questão, julgamos oportuno insistir sobre uma comparação. Há pouco acentuamos a analogia entre cerimônias como a da coroação do Rei da Inglaterra, e de outro lado os atos da Sagrada Liturgia e as solenidades da Corte Pontifícia. Do ponto de vista da hierarquia, a analogia é frisante. Em umas e outras, o sentido da desigualdade, a preocupação de exprimir esta desigualdade como um fato absolutamente normal, legítimo, digno de ser patenteado aos olhos de todos, a utilização de ritos, de cerimônias, símbolos para este fim, é evidente. Em São Pedro, o cortejo que antecede a entrada do Papa na Basílica é absolutamente tão hierárquico em sua organização, tão protocolar em seu aspecto, quanto o cortejo que em Westminster precede o Rei. Há nisto, "a prima facie", uma indicação de que a Igreja não desposa nossos igualitarismos, pelo menos em sua expressão geométrica e absoluta.

E, de fato, a Igreja ensina que temos todos a mesma natureza humana, e fomos todos igualmente remidos por Jesus Cristo. Assim, em todos os direitos que decorrem da mera natureza de homens e de cristãos, somos iguais: direito à verdadeira Fé, à liberdade de praticar os Mandamentos, à vida, à dignidade e ao trabalho. Entretanto nem todos os direitos de um homem lhe vêm do mero fato de ser homem e cristão. A virtude, o saber, o senso artístico, o espírito de luta, a capacidade de ação, uma educação esmerada, uma progênie que conferem legitimamente uma especial consideração. E como estes predicados são, por vontade de Deus, desiguais de indivíduo para indivíduo, por vezes até de família para família, de classe para classe, de nação para nação, é por vontade de Deus que os homens fazem jus a graus de consideração desiguais. A humildade é precisamente a virtude que leva cada qual a se contentar com o grau de consideração a que tem direito, sem invejar os que estão mais alto, nem se nivelar com os que estão mais baixo.

Desde que, pois, os degraus da hierarquia social sejam constituídos de tal modo que o quinhão dos menos favorecidos seja, em honra e largueza de vida, compatível com a dignidade do cristão, a desigualdade é um bem, e a virtude que leva ao amor desta desigualdade é uma das mais altas virtudes cristãs, a humildade.

Rezemos pela conversão da Inglaterra

Assim, a Inglaterra dá ao mundo, por motivo da sucessão no trono, um admirável exemplo de espírito religioso com o caráter eclesiástico da coroação; uma brilhante manifestação de cultura com o seu apego à tradição, e uma nobre demonstração de espírito de humildade com seu amor à hierarquia.

Possam todos os povos, qualquer que seja aliás sua forma de governo, imitar estes belos exemplos.

E, por fim, uma sugestão: rezarmos para que Deus multiplique Suas graças sobre uma nação que ainda conserva tais valores espirituais, a fim de a libertar do pavoroso câncer da heresia que a vai devorando.